Durante séculos, os romanos olharam para além dos Alpes e das margens do Reno com uma mescla de fascínio e temor. O que eles viam era a Gália — um vasto território habitado por povos celtas, aquitanos e outras tribos de costumes guerreiros, organização tribal complexa e espiritualidade druídica poderosa. Estendendo-se por aproximadamente 494 mil quilômetros quadrados, a Gália abrangia o que hoje são a França, a Bélgica, os Países Baixos, grande parte da Suíça, o norte da Itália e os territórios alemães a oeste do rio Reno. Por milênios, esse espaço geográfico foi palco de migrações, batalhas e civilizações que moldaram o rosto da Europa ocidental.
O nome "Gallia" aparece pela primeira vez em registros escritos no século II antes de Cristo, mencionado por Marco Pórcio Catão, mas quase certamente já circulava em uso oral antes disso. A etimologia exata permanece incerta: pode derivar do termo céltico "galiã", que designava força, relacionado ao irlandês antigo "gal" com o sentido de fúria guerreira, ao galês "gallud" e ao bretão "galloud", ambos com o significado de poder. Os "galli" seriam, portanto, "os fortes" ou "os furiosos". Curiosamente, somente no Renascimento o nome latino "Galli" passou a ser associado ao seu homônimo "gallus", a palavra latina para galo — o que transformou esse pássaro no símbolo ancestral da França, quando os humanistas redescobriram os gauleses como antepassados míticos dos franceses.
A Gália não era um conjunto homogêneo de povos. Além das tribos celtas que dominavam o interior, existiam iberos nas proximidades dos Pireneus, lígures ao longo do litoral mediterrâneo, armóricos na península que hoje conhecemos como Bretanha francesa e diversas outras etnias com línguas, costumes e territórios próprios. A organização social era predominantemente tribal, com a terra dividida entre as diferentes comunidades. A agricultura era a atividade central da vida econômica gaulesa, mas os gauleses também eram artesãos e metalurgistas de notável habilidade. A organização religiosa tinha nas assembleias anuais dos druidas — sacerdotes, juízes e guardiões do saber —, um eixo de coesão espiritual e política que transcendia as divisões tribais.
Os romanos começaram a avançar sobre a Gália em etapas graduais. Em 222 antes de Cristo, o território ao sul dos Alpes — a chamada Gália Cisalpina, "aquém dos Alpes" em relação a Roma — foi declarado província romana após décadas de conflito com as tribos gaulesas que haviam invadido o norte da Itália nos séculos anteriores. Em 125 antes de Cristo, Roma anexou o corredor do Ródano e o Languedoque, criando um corredor terrestre entre a Itália e a Hispânia. Em 121 antes de Cristo, consolidou a chamada Gália Transalpina — posteriormente apelidada de "Província", de onde deriva o topônimo Provença —, cujo capital era Narbo, atual Narbona.
Foi em 59 antes de Cristo que o senado romano confiou o comando das duas províncias gálicas a Júlio César, início de um dos capítulos mais famosos da história antiga. De 58 a 51 antes de Cristo, César conduziu uma série de campanhas militares que subjugaram progressivamente toda a Gália, enfrentando resistências variadas de tribos diferentes. A mais memorável foi a de Vercingetórix, chefe arverno que em 52 antes de Cristo conseguiu unificar grande parte das tribos gaulesas numa rebelião geral. Após uma série de confrontos em que os romanos chegaram a sofrer revezes, o cerco romano da fortaleza de Alésia forçou Vercingetórix a se render pessoalmente a César, encerrando a resistência organizada. O próprio César narrou essas guerras no "De Bello Gallico", obra que se tornaria tanto um documento histórico fundamental quanto um clássico da literatura latina, responsável principal pela difusão do nome "Gália" para o mundo letrado europeu.
Sob o domínio romano, a Gália passou por uma transformação profunda. A cidadania romana foi estendida progressivamente: a Gália Transpadana recebeu-a em 49 antes de Cristo por decreto de César; a Gália Cispadana havia recebido em 90 antes de Cristo. O imperador Augusto, em 27 antes de Cristo, reorganizou administrativamente o território ao norte dos Alpes em quatro províncias: Gália Narbonense, sob controle senatorial, e Gália Lugdunense, Gália Aquitânia e Gália Belga, sob administração imperial direta. Lugduno — atual Lyon — tornou-se a capital administrativa e sede da assembleia provincial das "Três Gálias".
O período romano foi de prosperidade real para boa parte da população. Grandes cidades foram fundadas ou expandidas: Lugduno, Arles, Tolosa, Bordéus, Lutécia — que os séculos transformariam em Paris. Estradas, aquedutos, anfiteatros e templos marcaram a paisagem com a permanência característica da engenharia romana. O latim foi progressivamente adotado como língua de administração, comércio e cultura, processo que, ao longo de séculos, geraria as línguas românicas medievais e modernas faladas na região. A Gália também foi cristianizada nos primeiros séculos da Era Cristã, processo que avançou especialmente a partir do século II.
Os últimos séculos do domínio romano foram de instabilidade crescente. No século III, invasões germânicas forçaram a criação de um "Império Gálico" semi-independente que serviu como escudo periférico por alguns anos. No século V, a dissolução do Império Romano do Ocidente abriu as portas para visigodos, burgúndios e francos, que fragmentaram o território entre si. Apenas com a ascensão do rei franco Clóvis, por volta do ano 500, a maior parte da antiga Gália voltou a ser governada por uma autoridade única — mas já não como província romana, e sim como embrião do que se tornaria a França medieval e, muito mais tarde, a Europa ocidental moderna.
