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Humberto Ortega

Político nicaraguense

4 min de leitura01/01/2024
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Humberto Ortega Saavedra foi uma das figuras mais complexas e contraditórias da história política nicaraguense do século XX. Nascido em Manágua em 10 de janeiro de 1947 e falecido na mesma cidade em 30 de setembro de 2024, aos 77 anos, ele foi ao mesmo tempo herói revolucionário, arquiteto de uma das principais forças armadas da América Central e, no fim da vida, voz dissidente corajosa contra o regime autoritário que ajudou a construir.

Humberto era irmão mais novo de Daniel Ortega, o atual presidente da Nicarágua, com quem compartilhou décadas de luta política. Mas o legado de Humberto não se resume à sombra do irmão. Ele foi o fundador e primeiro comandante em chefe do Exército Popular Sandinista, a força militar que emergiu da Revolução Sandinista de 1979 e que transformou radicalmente a estrutura de poder na Nicarágua. Essa criação institucional foi, talvez, sua contribuição mais duradoura ao país.

A família Ortega foi marcada pelo preço da revolução. Um terceiro irmão, Camilo, nascido em 1950, foi assassinado pela Guarda Nacional da Nicarágua durante os combates da insurreição, tornando-se um mártir da causa sandinista. Essa perda pessoal e política moldou profundamente a consciência dos irmãos sobreviventes e reforçou o compromisso de Humberto com a causa revolucionária em seus anos mais produtivos.

Com a vitória da Revolução Sandinista em julho de 1979, Humberto assumiu o cargo de Ministro da Defesa, uma posição de enorme poder que ele ocuparia por mais de uma década. Sob sua liderança, o Exército Popular Sandinista foi construído do zero, transformando os guerrilheiros do FSLN numa força militar organizada e doutrinada. O período foi marcado pelo conflito contrarrevolucionário financiado pelos Estados Unidos, que testou ao limite a capacidade militar e política do novo governo.

Humberto permaneceu no Ministério da Defesa durante toda a primeira presidência de Daniel Ortega e, de forma notável, continuou no cargo mesmo após a derrota eleitoral de seu irmão em 1990, quando Violeta Barrios de Chamorro assumiu a presidência. Essa transição pacífica, rara na América Latina do período, foi em parte facilitada por Humberto, que garantiu ao novo governo civil a lealdade institucional das forças armadas que ele havia construído. Essa postura pragmática e institucionalista foi reconhecida até mesmo por adversários políticos.

Além de sua carreira militar e política, Humberto Ortega teve uma dimensão intelectual que muitas vezes fica obscurecida por suas realizações no campo do poder. Ele criou o Instituto de Estudos do Sandinismo, que mais tarde se transformaria no Instituto de Historia de Nicaragua y Centroamérica (IHNC), sediado na Universidad Centroamericana. Essa iniciativa refletia sua preocupação com a preservação da memória histórica da revolução e com a análise crítica do processo político nicaraguense. Entre suas obras escritas estão livros sobre a insurreição sandinista, sobre estratégia militar e sobre a história política da Nicarágua.

A vida pessoal de Humberto foi marcada por uma história de laços profundos. Ele se casou com Ligia Trejos Leiva, a viúva costarriquenha de seu melhor amigo e camarada Carlos Aguero. Essa união, que misturava amizade, lealdade e amor, resultou em cinco filhos. A filha biológica de Ligia com Carlos Aguero, Elízabeth, foi adotada por Humberto e passou a usar o sobrenome Ortega, unindo ainda mais os laços entre as duas famílias.

Os últimos anos de Humberto Ortega foram marcados por uma ruptura pública e corajosa com o governo de seu próprio irmão. Quando protestos antigovernamentais eclodiram na Nicarágua em abril de 2018, resultando na morte de pelo menos 355 pessoas pela repressão do regime, Humberto manifestou-se abertamente contra a "repressão indiscriminada". Em 2019, voltou a criticar o governo ao se opor às prisões de 168 figuras da oposição. Essas declarações custaram caro: Daniel Ortega, sem mencionar o nome do irmão, acusou-o indiretamente de ser um "traidor da pátria" e de "defender terroristas".

A situação escalou de forma dramática em maio de 2024, quando Humberto concedeu uma entrevista ao portal Infobae na qual descreveu o regime de Daniel como "autoritário e ditatorial" e afirmou que não havia ninguém capaz de assumir o poder quando o presidente morresse, incluindo a vice-presidente e esposa Rosario Murillo. Em resposta, seus dispositivos de comunicação foram confiscados, ele recebeu uma intimação policial e foi colocado em prisão domiciliar. Humberto afirmou publicamente que acreditava ser alvo de uma tentativa de assassinato.

Em junho daquele ano, uma mensagem de áudio contrabandeada para a imprensa trouxe suas palavras mais contundentes: ele se descreveu como um prisioneiro político e disse temer que a prisão pudesse matá-lo a qualquer momento. Aquele que havia fundado o exército do regime agora se tornava um de seus prisioneiros. Humberto foi hospitalizado em 12 de junho de 2024, com problemas cardíacos, e faleceu no Hospital Militar Dr. Alejandro Dávila Bolaños em 30 de setembro de 2024.

A trajetória de Humberto Ortega é um espelho de todas as contradições do projeto revolucionário sandinista: um homem que dedicou décadas à construção de um Estado e de suas forças armadas, que garantiu uma transição democrática quando poucos esperavam, e que no crepúsculo da vida teve a coragem de denunciar o autoritarismo do próprio irmão, pagando com a liberdade por suas palavras. Seu legado divide-se entre o arquiteto de instituições e o dissidente que não se calou.

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