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Mehmet Shehu

Político albanês

7 min de leitura01/01/2024
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Mehmet Ismail Shehu Dompieri foi por décadas o segundo homem mais poderoso da Albânia, o braço direito de um dos regimes comunistas mais fechados e brutais da Europa do século XX. Nascido em 10 de janeiro de 1913 em Çorrush, no Distrito de Mallakastër, no sul da Albânia, ele construiu uma trajetória que passou pela Guerra Civil Espanhola, pela resistência antifascista na Segunda Guerra Mundial, pelo poder absoluto do Partido Comunista albanês e terminou de forma violenta e misteriosa em 17 de dezembro de 1981, num quarto em Tirana.

Shehu nasceu numa família de sacerdotes muçulmanos tosk, a etnia predominante no sul da Albânia. Sua formação foi marcada por um certo cosmopolitismo incomum para a época: formou-se em 1932 pela Escola Vocacional Albanesa de Tirana, financiada pela Cruz Vermelha americana, com especialização em agricultura. Sem conseguir emprego no Ministério da Agricultura, obteve uma bolsa para a Academia Militar de Nápoles, na Itália, onde desenvolveu suas aptidões militares e, paralelamente, suas convicções políticas radicais.

Foi justamente esse radicalismo político que o expulsou da academia militar italiana em 1936, após suas afinidades comunistas virem à tona. Sem se deixar deter, entrou na Escola de Oficiais de Tirana, mas saiu no ano seguinte para algo que definiria para sempre seu caráter: foi lutar como voluntário ao lado dos Republicanos na Guerra Civil Espanhola. Lá ele ingressou no Partido Comunista Espanhol e chegou ao comando do Quarto Batalhão da XII Brigada Garibaldi, acumulando experiência de combate e forjando a identidade ideológica que carregaria pelo resto da vida.

Com a derrota das forças republicanas na Espanha, Shehu fugiu e foi preso na França no início de 1939. Passou por campos de concentração franceses antes de ser transferido para um campo italiano, onde se aproximou do Partido Comunista Italiano. Essa trajetória de prisões e resistência construiu nele uma dureza que seria marca registrada de sua atuação política e militar futura.

Em 1942, Shehu voltou à Albânia, então ocupada pelas forças italianas, e imediatamente ingressou no Partido Comunista albanês e na Resistência. Sua experiência militar destacava-se enormemente entre os guerrilheiros, e já em agosto de 1943 foi promovido a comandante da 1ª Brigada Partisan. Depois, tornou-se comandante da 1ª Divisão Partisan do Exército de Libertação Nacional e, de 1944 a 1945, integrou o Conselho Antifascista de Libertação Nacional, o governo provisório albanês. Sem sua liderança, avaliam muitos historiadores, os comunistas dificilmente teriam saído vitoriosos da guerra civil que se seguiu à derrota do eixo.

Após a libertação da Albânia em novembro de 1944, Shehu ascendeu rapidamente dentro das estruturas de poder do novo regime comunista liderado por Enver Hoxha. Estudou em Moscou, tornou-se chefe do estado-maior, depois tenente-general e general. Em 1948, protagonizou uma operação crucial: expurgou do partido os elementos considerados próximos a Belgrado, aqueles que, segundo a narrativa oficial, tentavam afastar a Albânia da órbita soviética para aproximá-la da Iugoslávia de Tito. Esse expurgo o tornou a pessoa mais próxima de Hoxha e o elevou a cargos de destaque no Comitê Central e no Politburo.

De 1954 a 1981, Shehu ocupou o cargo de líder do Conselho de Ministros, o equivalente a primeiro-ministro, tornando-se o segundo homem do regime por quase três décadas. Nesse período, exerceu também os cargos de ministro dos Assuntos Internos — controlando a temida polícia secreta — e, a partir de 1974, de ministro da Defesa Popular. Seu poder era vasto, sua influência sobre o aparato repressivo do Estado era enorme, mas sempre operou à sombra de Hoxha, que cuidava para que ninguém se tornasse forte o suficiente para ameaçá-lo.

Shehu ganhou reputação pela brutalidade durante a guerra e a consolidou no pós-guerra. Sob seu comando, chefes de clãs do norte da Albânia foram executados em número expressivo. Em 1949, ordenou a execução de 14 aldeões católicos na região de Mirdita em retaliação a ações de guerrilheiros anticomunistas. O espião americano Mike Burke, que operou na Albânia em 1950 num projeto paramilitar para derrubar o regime, descreveu Shehu em 1986 como "um filho da puta durão" cujas forças de segurança deram "muito trabalho" aos agentes norte-americanos. No 22º Congresso do Partido Comunista Soviético, em 1961, Anastas Mikoyan citou uma declaração de Shehu que sintetizava seu temperamento: quem discordasse da liderança albanesa receberia "uma cuspida na cara, um soco no queixo e, se necessário, uma bala na cabeça".

Os últimos anos de Shehu foram marcados por uma queda abrupta e sombria. Em 1981, surgiu a acusação de que ele teria se oposto ao isolacionismo crescente de Hoxha e de que seria um espião iugoslavo. Em 17 de dezembro de 1981, foi encontrado morto em seu quarto em Tirana, com um ferimento de bala na cabeça. O anúncio oficial do dia seguinte afirmou que havia cometido suicídio durante um ataque nervoso, mas na Iugoslávia circularam rumores de que sua morte teria sido resultado de um tiroteio com o próprio Hoxha. Shehu foi declarado "inimigo do povo", teve seu nome apagado da história oficial e foi enterrado num terreno baldio nas cercanias de Tirana. Sua viúva e dois dos filhos foram presos sem explicação formal.

Após a queda do comunismo e a libertação dos prisioneiros políticos em 1991, o filho mais novo de Shehu, Bashkim, iniciou uma busca pelos restos mortais do pai, um gesto que simbolizava a tentativa de resgatar a memória de um homem que o próprio regime que ele ajudou a construir havia apagado da história.

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