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Frente Sandinista de Libertação Nacional

Partido político nicaraguense

4 min de leitura01/01/2024
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Em 1961, em um pequeno país da América Central marcado por décadas de dominação de uma única família, um grupo de militantes fundou um partido que levaria o nome de um herói já esquecido por muitos: a Frente Sandinista de Libertação Nacional, conhecida pela sigla FSLN. O nome era uma homenagem direta a Augusto César Sandino, o líder nicaraguense que, na década de 1930, havia resistido com impressionante tenacidade à ocupação militar estadunidense em seu país, antes de ser assassinado por ordens de Anastasio Somoza García, fundador da dinastia que o grupo agora se propunha a derrubar. Ao invocar Sandino, os fundadores da FSLN estabeleciam uma continuidade simbólica entre a luta antiimperialista do passado e o projeto revolucionário do presente.

A Nicarágua que a FSLN buscava transformar era um país onde o poder estava concentrado há décadas nas mãos da família Somoza, que governava com o apoio de Washington e com mão de ferro, sufocando qualquer oposição organizada. A fundação do partido foi, portanto, um ato de ousadia considerável, realizado em condições de clandestinidade e perseguição sistemática. Nos anos que se seguiram, a FSLN passou por períodos de quase extinção, recompondo-se com dificuldade, perdendo combatentes e líderes para as forças de segurança somozistas, mas mantendo acesa a chama de uma alternativa ao regime.

A virada definitiva veio em 1979. Após anos de guerrilha urbana e rural, de construção de frentes sociais amplas e da erosão gradual da legitimidade do regime somozista — agravada pela corrupção escandalosa revelada pela gestão dos recursos após o terremoto de 1972 e pelo assassinato público do jornalista Pedro Joaquín Chamorro em 1978 — a FSLN liderou uma insurreição popular que culminou com a derrubada do ditador Anastasio Somoza Debayle. Em julho de 1979, Somoza fugiu para o exílio e a Frente assumiu o poder, encerrando mais de quarenta anos de domínio dinástico. A queda da ditadura foi recebida com festa nas ruas de Manágua e provocou ondas de esperança em toda a América Latina, onde movimentos progressistas viam no sandinismo uma prova de que a transformação era possível.

Os novos governantes instalaram uma Junta de Reconstrução Nacional que tentou, nos primeiros meses, manter um equilíbrio entre as diversas forças políticas que haviam cooperado para derrubar Somoza. A junta incluía representantes da burguesia moderada, da Igreja e de outras correntes políticas além dos próprios sandinistas, uma composição plural que refletia tanto a amplitude da frente anti-Somoza quanto a necessidade de não alarmar os Estados Unidos excessivamente. A coexistência, contudo, foi progressivamente se tornando insustentável, e em março de 1981, após a renúncia dos membros centristas da junta, a FSLN passou a governar o país com exclusividade.

O governo sandinista implementou reformas profundas: uma campanha de alfabetização de alcance nacional que reduziu drasticamente o analfabetismo, reformas agrárias que redistribuíram terras, e um esforço de expansão dos serviços de saúde e educação para populações antes marginalizadas. Ao mesmo tempo, as tensões com Washington escalavam rapidamente. A administração Reagan, que assumiu em 1981, classificou o regime sandinista como uma ameaça comunista em seu quintal e começou a financiar e organizar um grupo de contrainsurgentes, conhecidos como Contras, recrutados em grande parte entre ex-membros da Guarda Nacional somozista. O financiamento, treinamento e apoio logístico dos Estados Unidos aos Contras tornou-se um dos pontos centrais das disputas políticas nos dois países e um dos episódios mais controversos da política externa americana nos anos 1980.

A guerra contra os Contras impôs custos enormes à economia e à sociedade nicaraguense. O conflito armado devastou regiões inteiras do país, destruiu infraestrutura, forçou a militarização da sociedade e consumiu recursos que poderiam ter sido canalizados para as reformas sociais. Em 1984, o governo sandinista realizou eleições que, apesar das críticas de setores oposicionistas, foram observadas por missões internacionais e consideradas suficientemente transparentes. Os opositores conquistaram quase um terço dos assentos no parlamento, demonstrando que o pluralismo tinha algum espaço mesmo sob um governo que se identificava como revolucionário.

A eleição de 1984 legitimou o mandato de Daniel Ortega como presidente, mas não encerrou o conflito armado nem aliviou as pressões econômicas sobre o país. O embargo econômico imposto pelos Estados Unidos em 1980, somado aos custos da guerra, minava constantemente as possibilidades de desenvolvimento. Em 1987, o governo sandinista aprovou uma nova constituição que introduziu modificações no sistema político, mas as eleições seguintes, em 1990, trouxeram uma derrota que poucos dentro do movimento acreditavam possível.

Violeta Barrios de Chamorro, candidata da Unión Nacional Opositora e viúva do jornalista cujo assassinato havia contribuído para precipitar a queda de Somoza, derrotou Ortega nas eleições de 1990 em um resultado que surpreendeu o mundo. A FSLN entregou o poder de forma ordenada, um gesto que, independentemente das ressalvas de seus militantes, foi amplamente elogiado como demonstração de maturidade política. O partido manteve uma bancada expressiva no parlamento e continuou sendo uma força central na política nicaraguense, embora deslocado para a oposição.

A trajetória posterior da FSLN foi marcada por debates internos, divisões e adaptações a um cenário político transformado pelo fim da Guerra Fria. Daniel Ortega consolidou-se como liderança hegemônica do partido e, após dezesseis anos fora do poder, venceu as eleições gerais de 2006 com 38,7% dos votos, num contexto em que a fragmentação da oposição abriu caminho para seu retorno. Em novembro de 2011, foi reeleito com 62% dos votos para um terceiro mandato, e em 2016 obteve novamente a presidência com 72,4% da preferência do eleitorado.

O retorno de Ortega ao poder foi acompanhado, progressivamente, de um estreitamento do espaço democrático, concentração de poder familiar e repressão a movimentos sociais, especialmente após os protestos de 2018 que sacudiram o país. A Internacional Socialista, à qual a FSLN era filiada, expulsou o partido no início de 2019 em razão das supostas violações de direitos humanos cometidas durante as repressões. A organização juvenil do movimento, a Juventud Sandinista 19 de Julio, continuou sendo um braço ativo do partido, mas a imagem da FSLN nos foros internacionais progressistas havia mudado profundamente desde os dias heroicos de 1979.

A história da Frente Sandinista é, em muitos aspectos, um microcosmo das trajetórias dos movimentos revolucionários latino-americanos do século XX: a ascensão pela luta armada, o exercício do poder entre contradições e pressões externas enormes, a derrota eleitoral que testou sua democracia interna, o retorno ao poder por vias eleitorais e a subsequente evolução para formas de governo cada vez mais distantes dos ideais originais. Seja como símbolo de resistência ou como exemplo dos dilemas do poder, a FSLN deixou uma marca profunda na história da Nicarágua e no imaginário político da América Latina.

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