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Enterprise (ônibus espacial)

Ônibus espacial

4 min de leitura01/01/2024
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Antes de qualquer ônibus espacial jamais alcançar a órbita terrestre, foi necessário compreender como essas enormes naves se comportariam na etapa mais crítica e imprevisível de cada missão: o pouso. Para resolver essa questão, a NASA construiu um veículo que nunca tocaria o espaço sideral, mas que se tornaria peça fundamental na história da exploração espacial americana. Esse veículo foi o Enterprise, designado oficialmente como OV-101.

A construção do Enterprise teve início em 1974, em um período de intensa expectativa em torno do programa do ônibus espacial norte-americano. O projeto original previa que o Enterprise se tornaria o segundo ônibus espacial a voar ao espaço, após o Columbia. Porém, uma decisão tomada em 1978 alterou completamente o destino da nave. A NASA optou por não adaptar o Enterprise da configuração utilizada nos testes de aproximação e aterrissagem para operações orbitais, consolidando-o como um veículo exclusivamente dedicado à pesquisa aerodinâmica e aos testes de pouso.

O Enterprise foi construído sem motores de propulsão e sem os escudos térmicos que protegem as naves durante a reentrada na atmosfera. Isso significava que ele jamais poderia realizar uma missão espacial real, mas era perfeitamente adequado para o papel que lhe foi reservado: fornecer dados concretos sobre o comportamento dos ônibus espaciais em voo subsônico e durante as manobras de aproximação e aterrissagem.

Os testes mais importantes ocorreram em 1977, no Dryden Flight Research Center, na Califórnia. A metodologia era engenhosa: o Enterprise era acoplado ao dorso de um Boeing 747 adaptado especialmente para a NASA, que o transportava a altitudes elevadas. Nos testes iniciais, a nave permanecia presa ao avião durante todo o voo e o retorno ao solo. Nas etapas seguintes, o Enterprise era efetivamente lançado do Boeing 747 para um voo livre planado, sem qualquer propulsão, até pousar na Base de Edwards, na Califórnia. Um avião de caça T-38, também da NASA, acompanhava a nave durante esses voos, filmando e monitorando a trajetória.

Um dos voos mais emblemáticos dessa série foi o quarto dos cinco testes de voo livre, no qual os astronautas Joseph Engle e Richard Truly controlaram o Enterprise em uma missão de 2 minutos e 34 segundos. A brevidade do voo não diminuía sua importância: cada segundo de dados coletados era valioso para refinar os sistemas de controle, as superfícies aerodinâmicas e os procedimentos de pouso que seriam utilizados nas naves operacionais.

O nome escolhido para o protótipo carrega uma história curiosa. Inicialmente, outros nomes estavam sendo considerados, mas uma campanha popular organizada por fãs do seriado televisivo Jornada nas Estrelas inundou a Casa Branca com aproximadamente 400 mil cartas solicitando que a nave fosse batizada em homenagem à famosa espaçonave da série, a USS Enterprise. O então presidente Gerald Ford atendeu ao apelo, e o nome ficou para a história como um dos mais reconhecíveis na cultura espacial americana.

Em 1979, o Enterprise foi transportado ao Centro Espacial Kennedy e acoplado a um tanque externo de combustível e aos propulsores sólidos, formando a configuração completa de lançamento. O objetivo era realizar testes de pré-lançamento e verificação de sistemas em solo. Anos depois, em 1984, a nave seguiu para a Base da Força Aérea de Vandenberg, na Califórnia, quando se cogitava transformar aquela instalação em um segundo local de lançamento para os ônibus espaciais, projeto que acabou não sendo concretizado.

Em 1985, o Enterprise foi entregue ao Instituto Smithsonian e passou a ser exibido no National Air and Space Museum, na localidade de Dulles, na região de Washington DC, tornando-se uma das atrações mais visitadas do museu. O acidente que destruiu o ônibus espacial Challenger em 1986 levou a NASA a estudar a possibilidade de reformar o Enterprise para operações orbitais, mas a decisão final foi construir um novo veículo do zero, que recebeu o nome de Endeavour.

A partir de abril de 2011, o Enterprise ganhou uma nova morada permanente: o Intrepid Sea, Air and Space Museum, instalado a bordo do porta-aviões USS Intrepid, um veterano da Segunda Guerra Mundial ancorado no Pier 86, no extremo oeste da rua 46 em Manhattan, em Nova Iorque. A presença de um protótipo do ônibus espacial sobre o convés de um navio de guerra do século XX cria uma ponte simbólica entre duas eras distintas da história tecnológica americana.

Embora jamais tenha atingido a órbita, o Enterprise ocupa um lugar insubstituível na narrativa da conquista espacial. Os dados coletados durante seus voos de teste foram essenciais para que as missões reais do programa pudessem ocorrer com maior segurança. Ele foi, em essência, o modelo que ensinou à NASA como pousar o futuro.

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