tragedias

Peste Negra

Devastadora pandemia de 1343-1353 na Eurásia e Norte da África

7 min de leitura01/01/2024
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Entre os séculos XIV e XVII, a humanidade conheceu algumas das maiores catástrofes de sua história, mas nenhuma chegou perto da devastação causada pela Peste Negra. Essa pandemia, que atingiu o auge na Europa entre 1347 e 1351, dizimou populações inteiras e transformou de maneira irreversível a estrutura social, econômica e religiosa do Velho Mundo. Estima-se que entre 25 e 75 milhões de pessoas morreram na Eurásia durante esse período, tornando a Peste Negra uma das maiores tragédias já registradas na história humana.

A origem da doença está situada na Ásia Central ou Oriental, provavelmente nas estepes e pradarias onde populações de roedores selvagens, como as marmotas, serviam de reservatório natural para a bactéria Yersinia pestis. As mudanças climáticas que ocorreram naquela região durante o século XIV forçaram esses roedores a migrarem para zonas mais densamente habitadas, colocando a doença em contato direto com seres humanos e com os ratos domésticos que conviviam junto às populações urbanas. Pesquisas realizadas em 2017 identificaram sepulturas nestorianas datadas de 1338 e 1339 próximas ao lago Issyk-Kul, no atual Quirguistão, com inscrições mencionando explicitamente a "praga", o que levou muitos epidemiologistas a situarem ali o epicentro do surto original.

Da Ásia Central, a doença viajou pelas rotas comerciais da época, especialmente pela famosa Rota da Seda, atingindo a Crimeia por volta de 1343. Ali, um episódio dramático acelerou a propagação para a Europa: durante o cerco da cidade portuária de Kaffa pelo exército mongol comandado por Jani Beg, cujas tropas já sofriam da doença em grande número, os mongóis catapultaram corpos de seus mortos infectados para dentro das muralhas da cidade. Os comerciantes genoveses que se encontravam em Kaffa fugiram às pressas em seus navios, levando consigo, sem saber, os ratos infectados e as pulgas portadoras da Yersinia pestis. Aquelas embarcações chegaram à Sicília em outubro de 1347, e o resto da Europa começaria a sentir os efeitos devastadores da epidemia nos meses seguintes.

A Yersinia pestis causa três formas distintas de doença. A mais comum, a peste bubônica, caracteriza-se pelo inchaço doloroso dos gânglios linfáticos, chamados de bubões, que geralmente aparecem nas virilhas, nas axilas ou no pescoço. Além da forma bubônica, havia a peste septicêmica, que ocorria quando a bactéria invadia diretamente a corrente sanguínea, e a pneumônica, que se espalhava pelo ar e afetava os pulmões. Esta última era especialmente temida por ser transmitida de pessoa a pessoa sem a necessidade de um vetor intermediário, tornando-a muito mais contagiosa do que as outras formas.

A epidemia avançou pela Europa com uma velocidade aterrorizante. Depois de devastar a Itália — onde cidades como Florença, Veneza e Gênova perderam frações enormes de suas populações —, a doença seguiu para a França, para a Península Ibérica, para a Inglaterra e progressivamente para todo o continente. Não havia tratamento eficaz, não havia compreensão das causas e não havia como escapar. Os médicos da época recorriam a sangrias, poções à base de ervas e até ao uso de fumaça perfumada, acreditando que o ar corrompido era o vetor da doença. As teorias oscilavam entre explicações astrológicas, como uma conjunção maléfica de Júpiter e Saturno, e interpretações religiosas que viam na peste um castigo divino pelos pecados da humanidade.

O impacto demográfico foi catastrófico. Estima-se que a Peste Negra eliminou entre 30% e 60% da população europeia durante seus primeiros anos. Algumas regiões foram ainda mais duramente atingidas: em certas cidades italianas, mais da metade dos habitantes morreu em questão de meses. A população mundial, que havia chegado a cerca de 475 milhões de pessoas antes da pandemia, caiu para algo entre 350 e 375 milhões no final do século XIV. A Europa demorou aproximadamente 200 anos para recuperar os níveis populacionais anteriores à praga, e algumas regiões, como Florença, só viram sua população se reconstituir plenamente no século XIX.

As consequências sociais e econômicas foram profundas e duradouras. Com a morte de tantos trabalhadores, a escassez de mão de obra alterou drasticamente as relações de trabalho. Os camponeses sobreviventes passaram a ter maior poder de barganha para negociar melhores condições com os senhores feudais, o que contribuiu para acelerar o declínio do sistema feudal em várias partes da Europa. O comércio foi temporariamente paralisado, mas a redistribuição de riqueza entre menos herdeiros acabou por concentrar capital de maneiras inesperadas. Cidades e vilas inteiras foram abandonadas, e o mapa humano da Europa foi redesenhado pela morte.

No campo religioso, a pandemia gerou uma crise de fé sem precedentes. Quando padres e bispos morriam da mesma forma que mendigos e camponeses, a ideia de que a Igreja tinha uma proteção especial diante de Deus foi profundamente abalada. Grupos de flagelantes percorriam as estradas açoitando a si mesmos em penitência pública, esperando apaziguar a ira divina. Em paralelo, comunidades judaicas foram massacradas em diversas cidades europeias, acusadas sem qualquer fundamento de ter envenenado os poços d'água — um dos momentos mais sombrios do antissemitismo medieval.

A expressão "morte negra" para descrever a pandemia tem uma história interessante. Em 1350, o astrônomo belga Simon de Covino usou a expressão latina mors nigra num poema que atribuía a peste a uma conjunção celestial. No entanto, a expressão só se popularizou mais tarde, especialmente na Escandinávia e na Alemanha, tornando-se ao longo dos séculos o nome pelo qual aquela catástrofe seria universalmente conhecida. Nos documentos contemporâneos ao surto, os europeus geralmente se referiam ao evento como "a grande morte" ou simplesmente "a praga".

A Yersinia pestis não desapareceu após o surto de meados do século XIV. A doença retornou periodicamente durante séculos, com novos surtos devastando populações que ainda não haviam se recuperado completamente do anterior. A chamada Segunda Pandemia, da qual a Peste Negra foi o surto inicial, perdurou até o início do século XX em algumas regiões. A Terceira Pandemia teve início na China em 1855 e se espalhou por todo o mundo, matando milhões na Índia antes de ser gradualmente controlada com o advento da medicina moderna.

O legado científico da Peste Negra foi paradoxalmente importante. O tamanho e a brutalidade da catástrofe forçaram médicos, estudiosos e autoridades a pensar de maneira mais sistemática sobre doenças, epidemias e medidas de controle. As primeiras práticas de quarentena foram desenvolvidas justamente nesse período: a cidade de Ragusa, atual Dubrovnik, na Croácia, instituiu em 1377 uma das primeiras quarentenas formais da história, isolando por trinta dias os viajantes e marinheiros que chegavam ao porto. Essa palavra, "quarentena", deriva do italiano quarantina, referindo-se originalmente a um período de quarenta dias de isolamento.

Além das transformações sociais e científicas, a Peste Negra deixou marcas profundas na arte e na cultura europeias. A onipresença da morte inspirou o tema literário e pictórico da "Dança da Morte", ou Danse Macabre, que representava figuras esqueléticas conduzindo pessoas de todas as camadas sociais rumo ao fim. A ideia de que a morte era democrática, atingindo indistintamente o rei e o mendigo, o nobre e o camponês, ganhou força e deixou traços na iconografia, na literatura e na mentalidade coletiva que persistiriam por gerações.

A compreensão científica moderna da Peste Negra foi completada apenas no final do século XIX, quando o bacteriologista Alexandre Yersin identificou, em 1894, o bacilo causador da doença durante um surto em Hong Kong — batizado posteriormente em sua homenagem como Yersinia pestis. A identificação do papel das pulgas e dos ratos na transmissão da doença viria logo depois, fechando o ciclo de um dos mistérios médicos mais mortais da história da humanidade. Hoje, a Peste Negra é tratável com antibióticos comuns quando diagnosticada a tempo, mas permanece presente em zonas rurais de vários países, um lembrete silencioso de quanto a humanidade andou às bordas do abismo.

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