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Gripe espanhola

Pandemia de gripe em 1918

7 min de leitura01/01/2024
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A gripe espanhola, também conhecida como gripe de 1918, foi uma vasta e mortal pandemia do vírus influenza. De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infectou uma estimativa de 500 milhões de pessoas, cerca de um quarto da população mundial na época. Estima-se que o número de mortos esteja entre 17 milhões e 50 milhões, e possivelmente até 100 milhões, tornando-a uma das epidemias mais mortais da história da humanidade. A gripe espanhola foi a primeira de duas pandemias causadas pelo influenzavirus H1N1, sendo a segunda ocorrida em 2009.

Para manter o ânimo, os censores da Primeira Guerra Mundial minimizaram os primeiros relatos de doenças e sua mortalidade na Alemanha, Reino Unido, França e Estados Unidos. Os artigos eram livres para relatar os efeitos da pandemia na Espanha, que se manteve neutra, como a grave enfermidade que acometeu o rei Afonso XIII. Tais artigos criaram a falsa impressão que a Espanha estava sendo especialmente atingida. Consequentemente, a pandemia se tornou conhecida como "gripe espanhola". Os dados históricos e epidemiológicos são inadequados para identificar com segurança a origem geográfica da pandemia, com diferentes pontos de vista sobre sua origem.

A maioria dos surtos de gripe mata desproporcionalmente os mais jovens e os mais velhos, com uma taxa de sobrevivência mais alta entre os dois, mas a pandemia de gripe espanhola resultou em uma taxa de mortalidade acima do esperado para adultos jovens. Os cientistas ofereceram várias explicações possíveis para esta alta taxa de mortalidade de 2 a 3%. Algumas análises mostraram que o vírus foi particularmente mortal por desencadear uma tempestade de citocinas, que destrói o sistema imunológico mais forte de adultos jovens. Por outro lado, uma análise de 2007 de revistas médicas do período da pandemia descobriu que a infecção viral não era mais agressiva que as estirpes anteriores de influenza. Em vez disso, asseveraram que a desnutrição, falta de higiene e os acampamentos médicos e hospitais superlotados promoveram uma superinfecção bacteriana, responsável pela alta mortalidade.

Durante a Primeira Guerra Mundial, os países aliados frequentemente chamaram a pandemia de "gripe espanhola." Isso ocorreu principalmente pois a pandemia recebeu maior atenção da imprensa na Espanha do que no resto do mundo, uma vez que o país não estava envolvido na guerra e não havia censura. Na Espanha, recebeu o nome de "gripe francesa". Em Portugal é mais conhecida como "gripe pneumónica" ou simplesmente "a pneumónica". A Espanha teve um dos piores surtos iniciais da doença, e autoridades de saúde do país buscaram chamar a pandemia de "apenas gripe" ou "a gripe", de modo a evitar o pânico entre a população. Embora os cientistas não saibam ao certo a origem da pandemia (ver seção abaixo), é improvável que tenha iniciado na Espanha.

As tropas britânicas e o acampamento hospitalar em Étaples, na França, foram teorizados por pesquisadores como estando no centro da gripe espanhola. A pesquisa foi publicada em 1999 por uma equipe britânica liderada pelo virologista John Oxford. No final de 1917, militares patologistas relataram o aparecimento de uma nova doença com alta mortalidade que mais tarde reconheceram como gripe. O acampamento e o hospital superlotados eram o local ideal para a propagação de um vírus respiratório. O hospital tratou milhares de vítimas de ataques químicos e outras causalidades, e 100 000 soldados atravessavam o acampamento todos os dias.

O local utilizado pelos britânicos em Étaples também era o lar de uma pocilga, e as aves eram trazidas das aldeias vizinhas de forma regular para serem utilizadas como suprimentos. Oxford e sua equipe postularam que um vírus precursor significativo, alojado em pássaros, sofreu mutação e depois migrou para porcos mantidos perto da frente. Em 2016, um relatório publicado no Jornal da Associação Médica Chinesa encontrou evidências de que o vírus de 1918 circulava nos exércitos europeus por meses e possivelmente anos antes da pandemia de 1918.

Houve alegações de que a pandemia se originou nos Estados Unidos. O historiador Alfred W. Crosby afirmou em 2003 que a gripe se originou no Kansas, e o popular autor John Barry descreveu o Condado de Haskell, Kansas, como o ponto de origem em um artigo em 2004. Também foi declarado pelo historiador Santiago Mata em 2017 que, no final de 1917, já havia uma primeira onda da epidemia em pelo menos 14 campos militares dos Estados Unidos.

Um estudo de 2018 com lâminas de tecido e relatórios médicos liderado pelo professor de biologia evolutiva Michael Worobey encontrou evidências contrárias à hipótese da doença ter se originado no Kansas, pois os casos no local eram mais leves e ocorreram menos mortes em comparação com a situação na cidade de Nova Iorque no mesmo período. O estudo encontrou evidências através de análises filogenéticas de que o vírus provavelmente tinha uma origem norte-americana, embora não fosse conclusivo. Ademais, as glicoproteínas da hemaglutinina do vírus sugerem que isso ocorreu muito antes de 1918 e outros estudos sugerem que o rearranjo do vírus H1N1 provavelmente ocorreu em ou por volta de 1915.

Uma das poucas regiões do mundo aparentemente menos afetadas pela pandemia da gripe espanhola de 1918 foi a China, onde pode ter ocorrido uma temporada de gripe relativamente leve em 1918, ainda que isso seja contestado devido à falta de dados na Era dos Senhores da Guerra. Vários estudos documentaram que houve relativamente poucas mortes por gripe na China em comparação com outras regiões do mundo. Tal fato levou à especulação de que a pandemia de 1918 se originou na China. A estação de gripe relativamente leve e as taxas mais baixas de mortalidade por gripe no país em 1918 podem ser explicadas pelo fato de que a população chinesa já possuía imunidade adquirida ao vírus da gripe. No entanto, um estudo de K.F. Cheng e P.C. Leung em 2006 sugeriu que tais resultados eram mais prováveis pois a medicina tradicional chinesa desempenhava um papel importante na prevenção e tratamento.

Em 1993, Claude Hannoun, o principal especialista em gripe espanhola do Instituto Pasteur, afirmou que o antigo vírus provavelmente veio da China. Em seguida, sofreu uma mutação nos Estados Unidos, perto de Boston, e de lá se espalhou para Brest (França), campos de batalha da Europa, Europa e o mundo, sendo os soldados e marinheiros aliados como os principais disseminadores. Hannoun considerou várias outras hipóteses sobre a origem, indicando a Espanha, Kansas e Brest como possíveis, mas não prováveis. O cientista político Andrew Price-Smith publicou dados dos arquivos austríacos sugerindo que a gripe tinha origens anteriores, com início na Áustria no início de 1917.

Em 2014, o historiador Mark Humphries argumentou que a mobilização de 96 000 trabalhadores chineses para atuarem atrás das linhas britânica e francesa pode ter sido a fonte da pandemia. Humphries, da Universidade Memorial da Terra Nova em São João da Terra Nova, baseou suas conclusões em registros recém-descobertos. O historiador encontrou evidências de que uma doença respiratória que atingiu o norte da China em novembro de 1917 foi identificada um ano depois pelas autoridades de saúde chinesas como idêntica à gripe espanhola.

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