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Acidente nuclear de Chernobil

Acidente nuclear na União Soviética de 1986

7 min de leitura01/01/2024
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Na madrugada de 26 de abril de 1986, um teste de rotina em uma usina de energia no norte da Ucrânia Soviética desencadeou o maior acidente nuclear da história. O desastre de Chernobil, ocorrido no reator número 4 da Usina Nuclear Vladimir Ilich Ulianov, próxima à cidade de Pripiate, transformou uma vasta região em zona de exclusão, forçou a evacuação de centenas de milhares de pessoas e lançou nuvens radioativas sobre grande parte da Europa. Suas consequências se estenderam muito além das fronteiras físicas da contaminação, abalando a confiança global na energia nuclear e acelerando processos políticos que contribuiriam para o colapso da própria União Soviética.

A usina de Chernobil havia começado a ser construída em agosto de 1972 e seu primeiro reator entrou em operação em setembro de 1977. Na época do acidente, quatro reatores do tipo RBMK-1000 estavam em pleno funcionamento, produzindo cada um 1.000 megawatts de energia elétrica. Em conjunto, eram responsáveis por 10% da energia elétrica de toda a Ucrânia. A cidade de Pripiate havia sido erguida a partir de 1970 especificamente para abrigar os trabalhadores da usina e suas famílias — um assentamento planejado, moderno para os padrões soviéticos, com cerca de 50 mil habitantes que levavam uma vida relativamente confortável em comparação com a média do país.

O acidente teve origem em um teste de segurança que deveria simular uma situação de falta de energia na estação. O objetivo era verificar se as turbinas em desaceleração poderiam gerar eletricidade suficiente para alimentar as bombas de resfriamento durante os 60 a 75 segundos necessários para que os geradores a diesel de emergência atingissem plena capacidade. Para realizar o teste, os sistemas de segurança de emergência e de regulagem de energia foram intencionalmente desligados. Os operadores do reator ainda configuraram o núcleo de uma maneira contrária aos procedimentos estabelecidos, reduzindo a potência a um nível instável muito abaixo do previsto pelo protocolo.

A combinação de falhas no projeto inerente ao reator RBMK — que possuía uma característica conhecida como coeficiente de reatividade positivo do vazio, tornando-o instável em baixas potências — com os erros dos operadores criou as condições para uma reação em cadeia descontrolada. A água de resfriamento superaquecida se transformou instantaneamente em vapor, gerando uma pressão explosiva que nenhuma estrutura poderia conter. A explosão foi seguida por um incêndio violento que jogou grafite radioativo ao ar livre e lançou uma coluna de fumaça e partículas radioativas na atmosfera.

As primeiras mortes ocorreram dentro da própria instalação: um trabalhador morreu imediatamente após a explosão, e um segundo sucumbiu a uma dose letal de radiação nas horas seguintes. Nos dias e semanas que se seguiram, 134 pessoas — bombeiros e funcionários da usina que trabalharam nas tarefas de controle imediato do incêndio — foram hospitalizados com síndrome aguda da radiação. Desse grupo, 28 morreram nos meses seguintes. Ao longo dos dez anos posteriores, mais 14 mortes por câncer induzido por radiação foram documentadas entre esses sobreviventes. O incêndio só foi completamente controlado em 4 de maio de 1986, após dias de esforço heroico por parte de trabalhadores e militares que frequentemente operavam sem proteção adequada.

A evacuação de Pripiate começou apenas 36 horas após o acidente, em 27 de abril de 1986. Aos moradores foi dito que seria uma evacuação temporária de três dias; eles saíram deixando para trás todos os seus pertences, e nunca puderam retornar. Nos dias e semanas seguintes, dezenas de outros municípios da região foram igualmente esvaziados, criando uma zona de exclusão de 30 quilômetros ao redor da usina que permanece restrita até hoje. Ao todo, mais de 350 mil pessoas foram realocadas.

As plumas de material radioativo lançadas na atmosfera não respeitaram fronteiras. Transportadas pelos ventos predominantes, as partículas se depositaram em partes da União Soviética, do norte e oeste da Europa. O desastre foi detectado pela primeira vez fora da URSS quando alarmes de radiação dispararam em uma usina nuclear sueca, alertando as autoridades de que algo grave havia ocorrido do outro lado da Cortina de Ferro — e que Moscou ainda não havia anunciado publicamente. A falta de transparência inicial do governo soviético agravou a desconfiança internacional e gerou críticas que ecoariam por anos.

A contenção do reator destruído tornou-se a maior operação de engenharia de emergência da era soviética. Mais de 500 mil trabalhadores, chamados de "liquidadores", foram mobilizados para construir um sarcófago de concreto e aço sobre os restos do reator, limpar a contaminação ao redor da usina e realizar outras tarefas de descontaminação. Muitos desses trabalhadores receberam doses significativas de radiação. O sarcófago original foi concluído em dezembro de 1986, mas não foi projetado para durar indefinidamente. Em 2017, uma equipe internacional instalou um novo e maior revestimento de última geração sobre o sarcófago original, chamado de "Novo Confinamento Seguro" — uma estrutura de 110 metros de altura e 165 metros de comprimento, considerada a maior estrutura móvel já construída.

As consequências de saúde de longo prazo para as populações afetadas continuam sendo objeto de intenso debate científico. Um excedente de pelo menos 15 mortes infantis por câncer de tireoide foi documentado até 2011 — um tipo de câncer fortemente associado à exposição ao iodo radioativo inalado ou ingerido via leite contaminado. O número total de mortes atribuíveis à radiação de Chernobil varia enormemente conforme a metodologia utilizada, com estimativas que vão de algumas centenas a dezenas de milhares dependendo dos modelos de risco adotados. A zona de exclusão, paradoxalmente, tornou-se ao longo das décadas um refúgio para a vida selvagem, com populações de lobos, cavalos de Przewalski e dezenas de outras espécies florescendo na ausência de atividade humana.

O impacto político do desastre foi enorme. Para Mikhail Gorbachev, então líder soviético, Chernobil foi um ponto de virada que reforçou sua convicção de que a URSS precisava de reformas profundas. A política de glasnost — abertura e transparência — ganhou impulso justamente a partir do constrangimento internacional causado pelo encobrimento inicial do acidente. O próprio Gorbachev afirmou em entrevistas posteriores que Chernobil foi, talvez mais do que qualquer outro fator, o catalisador do colapso soviético. A revelação de que o sistema havia ocultado um desastre daquela magnitude corroeu a legitimidade do regime perante sua própria população e diante do mundo.

O desastre de Chernobil é classificado como nível 7 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares — a classificação máxima —, compartilhando esse patamar apenas com o acidente na usina de Fukushima I, no Japão, ocorrido em 2011 após um terremoto e tsunami. Essa classificação, no entanto, não é equivalente em magnitude de consequências: Chernobil libertou uma quantidade de material radioativo muito superior. Após o acidente, todos os reatores RBMK em operação na União Soviética passaram por modificações estruturais para corrigir as falhas de projeto que haviam tornado possível a catástrofe. O último reator de Chernobil em funcionamento, o número 3, só foi definitivamente desligado em dezembro de 2000, quase 15 anos após o desastre.

Hoje, a cidade fantasma de Pripiate e a zona de exclusão ao redor da usina se tornaram destinos de turismo sombrio, atraindo visitantes de todo o mundo fascinados pela imagem congelada no tempo de uma cidade soviética abandonada. A série de televisão da HBO lançada em 2019 renovou o interesse global pelo evento e reacendeu debates sobre os riscos e benefícios da energia nuclear. Chernobil permanece, décadas depois, um símbolo poderoso dos perigos da arrogância tecnológica, da falta de transparência e das consequências quando a segurança é sacrificada em nome de outros objetivos.

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