Santa Coleta de Corbie nasceu em 13 de janeiro de 1381, na pequena vila de Corbie, na região da Picardia, norte da França, numa época em que a cristandade ocidental estava dividida pelo Grande Cisma do Ocidente e as ordens religiosas debatiam entre si sobre o sentido da pobreza evangélica. Ao nascer, recebeu o nome de Nicolette Boellet Moyon. Seu pai, Robert Boellet, era um humilde carpinteiro a serviço da famosa Abadia Beneditina de Corbie; sua mãe chamava-se Marguerite Moyon.
Segundo os biógrafos contemporâneos de Coleta, seus pais haviam envelhecido sem conseguir ter filhos e recorreram às orações a São Nicolau em busca de auxílio. A gravidez de Marguerite ocorreu por volta dos sessenta anos de idade e foi interpretada pela comunidade como uma resposta milagrosa às suas súplicas fervorosas. Em gratidão, batizaram a filha em homenagem ao santo intercessor. Pela afeição que lhe devotavam, chamavam-na de Nicolette, diminutivo carinhoso que, com o tempo e as transformações da língua, se transformaria em Colette — o nome pelo qual a história a conheceria.
Após a morte dos pais em 1399, quando tinha dezoito anos, Coleta tentou a vida religiosa entre as Beguinas, comunidades leigas de mulheres que partilhavam vida comum sem votos perpétuos. Encontrou o estilo de vida pouco exigente para sua sede de rigor espiritual. Ingressou então numa ordem beneditina como irmã leiga, possivelmente para escapar de um casamento arranjado, mas voltou a sentir insatisfação diante de uma observância que lhe parecia abaixo do que o Evangelho exigia. Sua busca era por algo mais radical, mais exigente, mais próximo da pobreza literal que Francisco de Assis havia abraçado.
Em setembro de 1402, Coleta recebeu o hábito da Ordem Terceira de São Francisco e passou a viver como eremita sob a orientação do Abade de Corbie, instalada numa pequena cela próxima à igreja da abadia. Por quatro anos, entre 1402 e 1406, dedicou-se à oração contemplativa e à austeridade absoluta, uma vida que a formou interiormente e abriu os canais de uma experiência mística intensa. Nesse período, uma série de sonhos e visões a convenceu de que estava sendo chamada a uma missão muito maior do que a solidão de uma cela: reformar a Segunda Ordem Franciscana — as Clarissas — restaurando-a à pobreza absoluta e ao rigor que Santa Clara havia vivido.
Em outubro de 1406, Coleta tomou uma decisão audaciosa: apresentou-se ao Antipapa Bento XIII, reconhecido na França como legítimo pontífice durante o Cisma. A audiência aconteceu em Nice, e Bento XIII, impressionado pela determinação e clareza espiritual da jovem, autorizou sua transferência para a Ordem das Clarissas e concedeu-lhe, por meio de diversas bulas papais emitidas entre 1406 e 1412, poderes extraordinários para fundar novos mosteiros e conduzir a reforma da Ordem. Era uma delegação de autoridade incomum para uma mulher sem títulos nobres ou influência política herdada.
Com o apoio da Condessa de Genebra e do pregador franciscano Henrique de Beaume, que se tornou seu confessor e diretor espiritual, Coleta iniciou o trabalho reformador a partir de Beaune, na Diocese de Genebra. Em 1410, abriu seu primeiro mosteiro em Besançon, numa casa quase abandonada das Clarissas Urbanistas — uma comunidade que havia suavizado as regras originais de Clara ao longo dos séculos. Coleta chegava com a intenção de reverter essa trajetória de acomodação.
A reforma se espalhou com vigor surpreendente. Auxonne em 1412, Poligny em 1415, Ghent em 1412, Heidelberg em 1444, Amiens e Pont-à-Mousson, na Lorena, entre outras comunidades, receberam as novas casas fundadas segundo os preceitos de Coleta: pobreza extrema, andar descalço, jejuns rigorosos, clausura estrita e austeridade em todos os aspectos da vida conventual. Ao longo de sua vida, dezoito mosteiros foram estabelecidos segundo esses princípios, constituindo a congregação que ficaria conhecida como as Pobres Clarissas Coletinas.
Coleta de Corbie faleceu em 6 de março de 1447, em Ghent, na atual Bélgica, um dos mosteiros que havia fundado. Tinha sessenta e seis anos e havia dedicado quase quatro décadas a uma reforma que transformou a vida religiosa feminina no norte da Europa. Foi beatificada em 1740 e canonizada em 1807 pelo papa Pio VII. A Igreja Católica a reconhece como padroeira das mulheres que buscam engravidar, das gestantes e das crianças enfermas — devoções que remetem diretamente à circunstância milagrosa de seu próprio nascimento, a filha concebida por uma mãe idosa após anos de prece. O nome Colette tornou-se símbolo de uma espiritualidade que recusava o conforto em nome da autenticidade evangélica.



