biografias

1969

Ano

4 min de leitura01/01/2024
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O ano de 1969 ficou gravado na memória do século vinte como um ponto de convergência de acontecimentos extraordinários, capaz de reunir no mesmo calendário o triunfo máximo da exploração espacial, o colapso de uma era musical, a emergência dos direitos civis para minorias até então ignoradas e os horrores de crimes que chocaram a consciência ocidental. Foi um ano comum pelo calendário gregoriano, iniciado numa quarta-feira, marcado pelo signo do Galo no horóscopo chinês — mas absolutamente extraordinário pelo peso dos eventos que carregou.

O ano começou com a posse de Richard Nixon como presidente dos Estados Unidos, em 20 de janeiro, num clima de profunda divisão social causada pela Guerra do Vietnã e pelo assassinato de líderes como Martin Luther King e Robert Kennedy, ocorridos no ano anterior. Dias depois, em 25 de janeiro, o capitão Carlos Lamarca desertava do Exército Brasileiro para lutar contra a ditadura militar, levando consigo dez metralhadoras e 63 fuzis — um ato de rebeldia que simbolizava a resistência armada de uma geração que não aceitava o silêncio imposto pelo regime.

No campo político brasileiro, 1969 foi um ano de tensão crescente. Em 1º de fevereiro, o governo editou o Ato Institucional Número Seis. Em março, uma curiosidade histórica registrada nos documentos da época menciona uma suposta transferência temporária da capital para Curitiba entre os dias 24 e 27 daquele mês. Em agosto, Costa e Silva sofreu um acidente vascular cerebral e deixou o cargo, e em 30 de outubro Emílio Garrastazu Médici tomava posse como presidente por meio de eleições indiretas, dando início a um dos períodos mais repressivos da ditadura militar.

O mês de julho de 1969 seria para sempre associado a um dos maiores feitos tecnológicos da humanidade. Em 20 de julho, o astronauta Neil Armstrong tornou-se o primeiro ser humano a pisar na superfície da Lua, como comandante da missão Apollo 11. O momento foi acompanhado por centenas de milhões de pessoas ao redor do globo, através de transmissões de televisão que atravessaram fronteiras e idiomas. Em novembro, a Apollo 12 pousou também na Lua, consolidando a capacidade americana de replicar o façanha. O Programa Apollo representava ao mesmo tempo a vitória americana na corrida espacial contra a União Soviética e a confirmação de que a espécie humana havia rompido definitivamente os limites do planeta.

O verão de 1969 nos Estados Unidos foi também o palco de um dos maiores acontecimentos da história da música. Entre os dias 15 e 17 de agosto, o Festival de Woodstock reuniu centenas de milhares de pessoas em Bethel, no estado de Nova York, num evento que transcendeu o conceito de show musical para se tornar um manifesto de uma geração. Paz, amor e rock and roll eram as palavras de ordem. Poucos meses antes, em 30 de janeiro, os Beatles haviam realizado o Rooftop Concert no terraço do edifício da Apple Corps em Londres — sua última apresentação ao vivo. Em 26 de setembro, o grupo lançava "Abbey Road", seu penúltimo álbum gravado, mas o último a ser finalizado. A era dos Beatles estava se encerrando de modo melancólico e belo ao mesmo tempo.

Em 28 de junho, acontecera a Rebelião de Stonewall, em Nova York, quando frequentadores de um bar gay resistiram violentamente a uma blitz policial, deflagrando o movimento moderno pelos direitos LGBTQ+. O episódio seria reconhecido décadas depois como um marco fundador de uma das mais importantes lutas por direitos civis do século. Em outubro, outro marco, desta vez tecnológico: em 29 de outubro, a primeira mensagem foi enviada pela ARPANET, a rede de computadores precursora da internet — data considerada o nascimento formal da era digital.

O lado sombrio de 1969 foi igualmente indelével. Em agosto, a Família Manson assassinou Sharon Tate e outras quatro pessoas na residência do diretor Roman Polanski, em Los Angeles, num crime de crueldade extrema que marcou o fim da utopia dos anos 1960. No dia seguinte, o casal Leno e Rosemary LaBianca também foi assassinado pelo mesmo grupo. O horror dos crimes Manson foi entendido por muitos como o epitáfio simbólico da era hippie.

Entre os nascidos em 1969 estavam Marilyn Manson, em 5 de janeiro, e a atriz brasileira Adriana Esteves, em 15 de dezembro. Entre os que partiram, destacam-se o ex-presidente americano Dwight D. Eisenhower, morto em 28 de março, e a lendária atriz e cantora Judy Garland, morta em 22 de junho. O Prêmio Nobel de Literatura foi para Samuel Beckett, enquanto Murray Gell-Mann recebia o de Física. Foi um ano que comprovou, com uma intensidade rara na história, que o tempo não distribui seus acontecimentos de modo uniforme — alguns anos carregam décadas inteiras em seu breve percurso.

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