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Chiquinha Gonzaga

Pianista, compositora e maestrina brasileira (1847-1935)

4 min de leitura20/06/2026
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Francisca Edviges Neves Gonzaga nasceu no Rio de Janeiro em 17 de outubro de 1847 e faleceu na mesma cidade em 28 de fevereiro de 1935, aos 87 anos. Conhecida pelo mundo inteiro como Chiquinha Gonzaga, ela deixou uma marca indelével na história da música brasileira: foi a primeira pianista chorona do país, a autora da marcha carnavalesca com letra mais famosa do Brasil e a primeira mulher a reger uma orquestra popular em território nacional. Sua trajetória, que atravessou oito décadas de transformações sociais profundas, é a de alguém que não apenas criou música — mas que desafiou, com cada nota, as estruturas rígidas de uma sociedade escravocrata e patriarcal.

Chiquinha vinha de uma família marcada pela contradição característica do Brasil imperial. Seu pai, José Basileu Neves Gonzaga, era major do Exército Imperial, bacharel em matemática, poliglota culto que falava latim, francês e inglês e chegou ao posto de marechal de campo. Sua mãe, Rosa de Lima Maria, era filha de Tomásia, uma mulher preta escravizada. A família de José Basileu, que contava entre seus parentes distantes figuras como o Duque de Caxias e o Marquês da Gávea, resistiu ao relacionamento — mas Basileu reconheceu os filhos e, após o terceiro parto de Rosa, casou-se com ela, contrariando as expectativas do círculo aristocrático ao qual pertencia.

O nascimento de Chiquinha foi difícil. O parto gerou tanto temor que um reverendo foi chamado às pressas para batizá-la ainda bebê, com medo de que não sobrevivesse. Ela não apenas sobreviveu como se tornaria uma das personalidades mais longevas e influentes de sua época. O pai, esforçando-se para dar aos filhos a melhor educação possível, contratou um clérigo para ensinar as primeiras letras à menina e depois chamou o maestro Elias Álvares Lobo para iniciá-la no piano — decisão que mudaria o curso da história musical do Brasil.

O Rio de Janeiro em que Chiquinha cresceu era uma cidade em transformação. Desde a chegada da família real portuguesa em 1808, o ambiente cultural se tornara mais cosmopolita, e as mulheres das classes mais abastadas começavam a aparecer em espaços públicos que antes lhes eram vedados. Ainda assim, as expectativas sociais eram claras: às moças de família, cabia a música apenas como adorno doméstico, algo a ser exibido em salões para agradar pretendentes e confirmar boa educação — jamais como profissão ou vocação criativa genuína.

Chiquinha rompeu esse molde com uma determinação que custou caro em termos pessoais. Separou-se de um primeiro marido com quem o casamento foi arranjado sem seu consentimento real, enfrentou o julgamento da sociedade carioca e decidiu viver da música — algo que, para uma mulher do século XIX, equivalia a uma declaração de guerra às convenções. Mas foi exatamente nessa recusa à moldura imposta que nasceu sua grandeza artística. Ao percorrer os ambientes populares do Rio de Janeiro, ela entrou em contato com as músicas das camadas mais pobres da cidade, com os ritmos e as cadências que as elites desprezavam, e fez desse encontro a matéria-prima de sua obra.

Em uma época dominada pelas valsas, polcas e tangos europeus nos salões da elite, Chiquinha incorporava em suas composições a diversidade rítmica e melódica do povo carioca. Sua capacidade de adaptar o piano a esse universo sonoro mais vivo e pulsante rendeu-lhe o reconhecimento como a primeira compositora popular do Brasil — um título que vai muito além do gênero, pois sintetiza uma escolha estética e política: a de que a música do povo merecia o mesmo respeito e a mesma arte que qualquer outra.

O ponto alto de sua obra chegou em 1899, quando compôs "Ó Abre Alas", a primeira marcha carnavalesca com letra da história da música brasileira. A peça, criada para o rancho Rosa de Ouro, tornou-se instantaneamente um sucesso popular e segue sendo cantada no carnaval brasileiro mais de um século depois — talvez a maior prova de longevidade que uma composição popular pode ter. Chiquinha também foi pioneira na defesa dos direitos autorais de músicos e autores teatrais, lutando em um tempo em que essa proteção praticamente não existia no Brasil.

Sua militância não se restringia ao campo artístico. Neta de uma mulher escravizada, Chiquinha tornou-se uma abolicionista ativa e comprometida, usando parte do dinheiro que ganhava com a música para contribuir com movimentos abolicionistas e para comprar a alforria de pessoas escravizadas. Era uma forma de resgatar com as próprias mãos algo que o Estado tardava em reconhecer como obrigação.

No Passeio Público do Rio de Janeiro, uma herma esculpida por Honório Peçanha homenageia sua memória. Em 2012, a Lei 12.624 instituiu o Dia da Música Popular Brasileira na data de seu aniversário, 17 de outubro — reconhecimento oficial de uma vida que foi, ela mesma, uma obra de arte maior do que qualquer composição individual. Chiquinha Gonzaga não apenas fez música: ela redefiniu quem tinha o direito de fazê-la.

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