biografias

Carlos Magno

Imperador dos Romanos (800–814), Rei dos Lombardos (774–814), Rei dos Francos (768–814)

8 min de leitura01/01/2024
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Nos últimos decênios do século VIII, a Europa Ocidental era um mosaico de reinos bárbaros sobrepostos às ruínas do Império Romano do Ocidente, extinto havia três séculos. Foi nesse cenário fragmentado que Carlos Magno — filho mais velho de Pepino, o Breve, o primeiro rei carolíngio, e de Berta de Laon — construiu um império que pela primeira vez desde Roma reuniu sob uma única autoridade a maior parte do ocidente europeu.

A data de seu nascimento é objeto de debate entre historiadores medievais. A hipótese mais sustentada pelas fontes, sobretudo pelo relato de seu biógrafo Eginhardo de que Carlos tinha mais de setenta anos ao morrer em janeiro de 814, aponta para 2 de abril de 742. Um calendário da Abadia de Lorsch registra exatamente esse dia e mês, o que reforça a data, mesmo que ela situe o nascimento antes do casamento formal dos pais, contraído em 744. Nascido, portanto, fora do matrimônio canônico, Carlos era filho legítimo pelos critérios da nobreza franca, embora a questão tenha levantado comentários na época.

Pepino, o Breve morreu em 768, deixando o reino dividido entre Carlos e seu irmão Carlomano. A coexistência dos dois foi marcada por tensões crescentes, mas durou apenas três anos: Carlomano morreu em 771, e Carlos assumiu o controle único dos francos. Com menos de trinta anos, era o soberano mais poderoso do Ocidente — e tinha ambições à altura.

As décadas seguintes foram de expansão militar quase ininterrupta. Em 774, atendendo ao chamado do papa Adriano I, Carlos cruzou os Alpes, derrotou os lombardos que ameaçavam Roma e assumiu pessoalmente o título de Rei dos Lombardos, sem exterminar a nobreza local mas incorporando-a ao sistema carolíngio. Foi o primeiro passo de uma relação com o papado que definiria o resto de seu reinado — uma relação de proteção mútua e tensão permanente em torno de quem detinha a autoridade suprema.

A campanha mais longa e sangrenta de seu reinado foi contra os saxões, ao norte e a leste dos francos. Durante trinta e dois anos, de 772 a 804, Carlos combateu esse povo tenazmente, impondo a conversão ao cristianismo sob pena de morte. O episódio mais sombrio dessa guerra foi o Massacre de Verden em 782, quando, segundo as fontes, cerca de quatro mil e quinhentos saxões foram executados num único dia. A brutalidade revelava que a cristandade era, para Carlos, tanto um instrumento político de unificação quanto uma convicção genuína.

Em 778, Carlos lançou uma incursão na Espanha muçulmana, tentando apoiar facções berberes que haviam pedido sua ajuda contra o emir de Córdoba. A campanha fracassou e a retirada foi traumática: na passagem de Roncesvales, nos Pireneus, a retaguarda do exército foi destruída por guerreiros bascos. O comandante morto nessa emboscada, um conde de nome Rolando, seria transformado séculos depois em herói épico da Canção de Rolando — uma das fundações da literatura francesa medieval.

O ponto culminante de seu reinado chegou na madrugada de 25 de dezembro de 800, na Antiga Basílica de São Pedro, em Roma. Enquanto Carlos ajoelhava para orar, o papa Leão III colocou uma coroa sobre sua cabeça e o aclamou como Imperador dos Romanos. A cena foi ao mesmo tempo um golpe de teatro político e um momento genuinamente transformador da história europeia: um rei bárbaro assumia formalmente a herança imperial de Roma, com a bênção da Igreja. Carlos, segundo Eginhardo, teria ficado contrariado com a forma como a coroação ocorreu — preferindo ter controlado o momento —, mas o fato consumado era irrevogável.

Como imperador, Carlos Magno dedicou energia considerável ao que a historiografia chamou de Renascimento Carolíngio: um movimento de renovação cultural e intelectual centrado nos mosteiros e na corte de Aachen, sua capital imperial. Convocou estudiosos de toda a Europa, como Alcuíno da Iorque, para sua Schola Palatina, onde a educação clerical foi reformulada e o latim padronizado. A escrita carolíngia — uma minúscula clara e uniforme — foi adotada por toda a administração imperial, facilitando a comunicação e preservando textos antigos que de outra forma poderiam ter se perdido.

Carlos Magno morreu em Aachen em 28 de janeiro de 814, provavelmente de pleuris. Seu filho Luís, o Piedoso, o único dos filhos legítimos adultos a sobrevivê-lo, herdou o império. Mas o Estado carolíngio não sobreviveu por muito tempo à sua geração: o Tratado de Verdun de 843 dividiu o Império Franco entre os netos de Carlos em três partes, esboçando grosseiramente as fronteiras da futura França, da Alemanha e de uma região intermediária que seria disputada durante séculos.

O legado de Carlos Magno é ambíguo e imenso. Ele unificou a Europa Ocidental pela força e pela religião, criou estruturas administrativas duradouras e estimulou a preservação do conhecimento antigo. Mas o fez com uma brutalidade que não pode ser apagada por séculos de veneração. Foi canonizado pelo antipapa Pascoal III em 1165, ato considerado inválido pela Igreja oficial, e permanece até hoje objeto de debate quanto à sua beatificação. Seu nome tornou-se, nas línguas eslavas e no húngaro, sinônimo de "rei" — uma marca linguística da dimensão de seu impacto histórico.

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