biografias

Marie Curie

Física e química polonesa naturalizada francesa (1867–1934)

7 min de leitura01/01/2024
Anúncio

Maria Salomea Skłodowska nasceu em 7 de novembro de 1867 em Varsóvia, então parte do Império Russo, numa família que havia perdido patrimônio e prestígio ao se envolver nos levantes poloneses pela independência nacional. O pai, Władysław Skłodowski, era professor de matemática e física e, depois que as autoridades russas proibiram laboratórios nas escolas polonesas, instalou equipamentos científicos em casa para educar os filhos. Essa atmosfera doméstica de rigor intelectual e resistência cultural moldaria profundamente a personalidade da menina que o mundo conheceria como Marie Curie.

A infância de Maria foi marcada por tragédias precoces. Quando tinha apenas dez anos, sua mãe morreu de tuberculose; pouco antes, uma irmã mais velha havia falecido de tifo. Essas perdas, somadas às dificuldades financeiras da família, temperaram nela uma determinação quase obstinada. Formou-se com medalha de ouro no ginásio em 1883, mas o acesso ao ensino superior era vedado às mulheres na Polônia czarista. Com a irmã Bronisława, ela organizou uma solução prática: Maria trabalharia como governanta para financiar os estudos de Bronisława em Paris; depois, os papéis seriam invertidos.

Durante dois anos, Maria trabalhou para a família Żorawski no interior da Polônia, onde se apaixonou pelo filho da casa, Kazimierz Żorawski. A família dele, porém, recusou-se a aceitar uma parente empobrecida como nora, e o relacionamento terminou de forma dolorosa. Décadas mais tarde, já célebre como matemático e reitor universitário, Kazimierz era visto sentado em silêncio diante da estátua de Marie Curie em Varsóvia, testemunho involuntário de uma história que nenhum dos dois jamais esqueceu.

Em 1891, com 24 anos, Marie partiu para Paris e ingressou na Universidade de Sorbonne. Vivendo em condições modestas num quarto frio de Paris, ela se destacou rapidamente entre os estudantes e concluiu licenciaturas em física e matemática. Em 1894, conheceu Pierre Curie, um respeitado físico francês, e os dois casaram-se no ano seguinte. A parceria intelectual entre eles seria uma das mais frutíferas da história da ciência.

O ponto de partida das pesquisas que transformariam a física foi uma observação do físico Henri Becquerel: os sais de urânio emitiam radiações sem precisar de uma fonte de energia externa. Marie decidiu investigar esse fenômeno de forma sistemática. Usando um eletrômetro desenvolvido por Pierre, ela mediu a ionização do ar provocada por diferentes materiais e descobriu que a intensidade da emissão dependia apenas da quantidade de urânio presente, sem ser afetada por temperatura, luminosidade ou estado químico do elemento. Estava lançado o conceito de radioatividade, palavra que ela própria cunhou.

Ao examinar a pechblenda, um minério de urânio, Marie constatou que a radioatividade da substância era muito maior do que a quantidade de urânio presente poderia justificar. A conclusão lógica era de que a pechblenda continha outros elementos radioativos ainda desconhecidos. Trabalhando com Pierre num galpão precário e pouco ventilado no campus da Sorbonne, o casal processou toneladas de resíduo de minério durante anos. Em 1898, anunciaram a descoberta do polônio, que Marie nomeou em homenagem à sua Polônia ocupada; alguns meses depois, descobriram o rádio.

Em 1903, Marie Curie tornou-se a primeira mulher a receber o Prêmio Nobel, dividindo o de Física com Pierre e com Becquerel pelo conjunto de pesquisas sobre radioatividade. A Academia de Ciências sueca havia inicialmente pensado em excluir Marie da premiação, mas Pierre insistiu em que ela fosse incluída. Três anos depois, em 1906, Pierre morreu atropelado por uma carruagem em Paris. Consumida pelo luto, Marie assumiu a cadeira do marido na Sorbonne, tornando-se a primeira professora da história daquela universidade.

Em 1911, recebeu o segundo Prêmio Nobel, desta vez em Química, pela descoberta dos elementos polônio e rádio e pelo isolamento do rádio puro. Tornou-se, assim, a única pessoa na história a vencer o Nobel em duas áreas científicas distintas. O ano foi também marcado por um escândalo: revelou-se que Marie mantinha um relacionamento com o físico Paul Langevin, que era casado. A imprensa francesa, exaltando sentimentos nacionalistas, atacou-a como "estrangeira" e "destruidora de lares", tentando pressionar a Academia a não entregar o prêmio. Marie foi à cerimônia assim mesmo.

Durante a Primeira Guerra Mundial, Marie Curie empregou sua ciência em socorro direto aos feridos. Desenvolveu unidades de radiografia móveis — chamadas "petits Curies" pelos soldados — que levavam equipamentos de raio-X às frentes de batalha, permitindo localizar projéteis e fraturas sem cirurgias exploratórias. Estima-se que mais de um milhão de soldados foram atendidos com esse sistema ao longo do conflito. Ela própria dirigia os veículos até as zonas de combate, muitas vezes sem que os militares soubessem que aquela motorista era a cientista mais famosa do mundo.

Marie Curie fundou o Instituto Curie em Paris, em 1920, e seu equivalente em Varsóvia, em 1932, instituições que se tornaram centros de referência mundial em pesquisa oncológica. Sob sua liderança, foram conduzidos os primeiros estudos clínicos sobre o uso de isótopos radioativos no tratamento de tumores. Ela jamais patenteou suas descobertas, convicta de que o conhecimento científico deveria ser patrimônio público.

Apesar de adquirir a nacionalidade francesa e construir toda a sua carreira em Paris, Marie Curie nunca perdeu o vínculo com a Polônia. Ensinava às filhas a língua polonesa e as levava em visitas ao país natal. O polônio carregava seu protesto silencioso contra a ocupação estrangeira. Em 4 de julho de 1934, morreu num sanatório nos Alpes franceses, vítima de anemia aplástica causada pela exposição contínua à radiação ao longo de décadas de pesquisa, numa época em que os efeitos biológicos da radioatividade ainda eram completamente desconhecidos. Em 1995, seus restos mortais foram transferidos para o Panteão de Paris, tornando-se ela a primeira mulher sepultada ali por seus próprios méritos científicos.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas