Ernesto Guevara de la Serna nasceu em 14 de maio de 1928 na cidade argentina de Rosário, embora sua certidão de nascimento registrasse a data de 14 de junho para ocultar que a mãe já estava grávida três meses antes do casamento. Filho primogênito de uma família de classe média com raízes espanholas e irlandesas, o menino que seria conhecido pelo mundo como Che cresceu num ambiente de tendências políticas progressistas, frequentando desde criança as reuniões em que o pai recebia veteranos da Guerra Civil Espanhola.
Desde cedo, Ernestito, como era chamado, demonstrou uma empatia visceral pelos mais pobres. A convivência com um pai que admirava abertamente os republicanos espanhóis e uma mãe de sensibilidade humanista moldaram uma consciência política que só se aprofundaria com os anos. A família tinha ascendência diversa: um ancestral patrilinear chamado Patrick Lynch vinha da Irlanda, e o pai costumava dizer com orgulho que "nas veias do meu filho fluía o sangue dos rebeldes irlandeses".
A grande virada intelectual e emocional da vida de Guevara ocorreu durante suas viagens pela América do Sul, realizadas ainda quando era estudante de Medicina. Percorrendo países como Argentina, Chile, Peru, Colômbia e Venezuela de motocicleta ou de carona, ele foi confrontado de forma direta com a miséria estrutural do continente: trabalhadores de minas de cobre submetidos a condições desumanas, populações indígenas expropriadas, enfermos sem acesso a qualquer cuidado médico. Essas experiências transformaram um jovem estudante curioso num revolucionário convicto, e foram posteriormente registradas no livro de memórias que se tornaria um best-seller mundial.
Formado médico, Guevara chegou à Guatemala em 1953, durante o governo reformista de Jacobo Árbenz, que realizava uma audaciosa redistribuição de terras e enfrentava a poderosa United Fruit Company norte-americana. Em junho de 1954, quando a CIA organizou e apoiou o golpe de Estado que derrubou Árbenz, Guevara assistiu impotente ao colapso de uma experiência democrática legítima. Aquele momento foi decisivo: a conclusão a que chegou foi de que reformas moderadas nunca seriam toleradas pelas potências imperialistas, e que apenas a revolução armada poderia transformar a América Latina.
Na Cidade do México, em 1955, Guevara encontrou os irmãos Fidel e Raúl Castro, que organizavam o Movimento 26 de Julho com o objetivo de derrubar o ditador cubano Fulgencio Batista. Guevara se juntou ao grupo como médico da expedição, e em dezembro de 1956 desembarcou com oitenta e dois combatentes do iate Granma nas costas cubanas. A maioria foi morta ou capturada nas primeiras semanas; os sobreviventes, incluindo Guevara, refugiaram-se na Sierra Maestra e iniciaram uma campanha de guerrilha que duraria dois anos.
Na selva cubana, Guevara revelou capacidades militares que foram além da sua função médica original. Promovido a comandante, tornou-se um dos principais líderes do movimento guerrilheiro, conduzindo ações que foram essenciais para desgastar as forças de Batista. Sua coragem pessoal em combate era reconhecida até mesmo por adversários; ao mesmo tempo, impunha disciplina rigorosa aos seus homens e exigia comportamento ético em relação à população civil. Em janeiro de 1959, as forças revolucionárias entraram em Havana e Batista fugiu do país.
Com a vitória da revolução, Guevara assumiu postos centrais no novo governo cubano. Como presidente do Banco Nacional e ministro das Indústrias, conduziu a reforma agrária e tentou diversificar a economia da ilha, reduzindo a dependência do açúcar. Presidiu os tribunais revolucionários que julgaram colaboradores do regime de Batista, processo que gerou polêmica internacional pelas execuções realizadas. Também coordenou uma bem-sucedida campanha de alfabetização que levou educação a regiões remotas do país.
No plano internacional, Guevara foi o rosto diplomático da revolução cubana. Viajou por dezenas de países, discursou na ONU em defesa do socialismo e do Terceiro Mundo e trabalhou para estreitar laços com a União Soviética e a China. Em 1961, desempenhou papel importante na logística que permitiu repelir a invasão da Baía dos Porcos, organizada pelos Estados Unidos. No ano seguinte, esteve envolvido no transporte de mísseis balísticos soviéticos para Cuba, a ação que precipitou a Crise dos Mísseis de outubro de 1962, o momento mais tenso da Guerra Fria.
Em 1965, Guevara deixou Cuba para tentar exportar a revolução. Viajou em segredo ao Congo-Kinshasa, onde tentou apoiar grupos rebeldes locais, mas a experiência africana foi um fracasso: os guerrilheiros congoleses mostraram-se despreparados e a situação política local era demasiado complexa para ser resolvida com a tática da guerrilha rural. Após meses de frustração, Guevara retirou-se e voltou a planejar uma nova frente revolucionária.
A Bolívia foi escolhida como o novo campo de batalha, com a teoria de que uma insurreição ali poderia irradiar para os países vizinhos e criar "dois, três, muitos Vietnãs", como ele próprio escreveu. Em novembro de 1966, Guevara entrou clandestinamente no país com um grupo de combatentes e iniciou operações na região de Ñancahuazú, no sudeste boliviano. A campanha, porém, foi marcada por dificuldades desde o início: os camponeses locais não aderiram ao movimento, os partidos comunistas da região retiraram seu apoio, e o exército boliviano, treinado por especialistas da CIA, localizou e perseguiu o grupo com eficiência.
Em 8 de outubro de 1967, ferido numa perna e com suas forças reduzidas a um punhado de homens, Guevara foi capturado numa ravina próxima ao vilarejo de La Higuera. No dia seguinte, 9 de outubro de 1967, foi executado por ordem do governo boliviano, com a anuência implícita dos Estados Unidos. Tinha 39 anos. Seus restos mortais só foram localizados e devolvidos a Cuba em 1997, sendo sepultados em Santa Clara com honras de Estado.
A fotografia tirada por Alberto Korda em 1960, mostrando Guevara de boina estrelada com olhar no horizonte, tornou-se a imagem mais reproduzida do século XX, estampando camisetas, bandeiras e murais em todos os continentes. A revista Time o elegeu entre as cem pessoas mais influentes do século XX. Para seus admiradores, é o guerrilheiro que morreu coerente com seus ideais; para seus críticos, é o responsável por mortes e erros políticos graves. Esse antagonismo nunca se dissipou: Che Guevara permanece, décadas após sua morte, uma das figuras mais debatidas e mais simbólicas da história contemporânea.
