Numa aldeia rural da província de Hunan, no centro da China, Mao Zedong nasceu em 26 de dezembro de 1893. Seu pai, Mao Yichang, era um camponês que havia saído da pobreza e se tornara um dos agricultores mais prósperos de Shaoshan, acumulando terras e negociando grãos. A relação com o pai foi marcada pelo conflito: o velho Mao era autoritário e não hesitava em bater nos filhos; o jovem Mao resistia, e esse temperamento de enfrentamento direto à autoridade acompanhou-o por toda a vida. Sua mãe, Wen Qimei, budista devota, tentava mediar as tensões domésticas.
Aos oito anos, Mao foi enviado à escola primária local, onde aprendeu os clássicos do confucionismo que nunca o entusiasmaram. Preferia os romances populares, especialmente O Romance dos Três Reinos e A Margem da Água, narrativas de heróis rebeldes e líderes guerreiros que alimentaram sua imaginação política. Aos treze anos, o pai o retirou da escola e tentou submetê-lo ao trabalho na lavoura e a um casamento arranjado — que Mao nunca aceitou de fato. Aos dezessete anos, fugiu para estudar numa escola secundária em Changsha, a capital provincial, chegando no momento exato em que a Revolução Xinhai de 1911 derrubava a dinastia Qing e proclamava a República Chinesa.
Os anos seguintes foram de formação acelerada e turbulenta. Mao estudou história, filosofia e política, trabalhou como assistente de biblioteca na Universidade de Pequim — onde tomou contato com o marxismo recém-chegado ao país — e participou da fundação do Partido Comunista Chinês em 1921. A China da época era um país dilacerado por senhorios de guerra regionais, por humilhações impostas pelas potências estrangeiras e pela incapacidade do governo republicano de impor ordem. Nesse cenário, Mao emergiu como organizador de trabalhadores e depois de camponeses, convencendo-se, contra a ortodoxia marxista da época, de que a revolução chinesa teria que ser feita pelo campesinato, não pelo proletariado industrial.
A aliança entre o Partido Comunista e o Kuomintang de Chiang Kai-shek colapsou em 1927, quando Chiang lançou uma purga brutal contra os comunistas. Mao sobreviveu e liderou uma guerrilha nas montanhas de Jiangxi, estabelecendo uma base comunista que resistiu por anos a ataques do governo nacionalista. Em outubro de 1934, cercado e pressionado, o Partido Comunista iniciou a Longa Marcha — uma retirada estratégica de mais de doze mil quilômetros através de terrenos montanhosos e hostis, que durou um ano e devastou o contingente inicial, mas forjou o núcleo da liderança que governaria a China décadas depois. Foi durante a Longa Marcha, na Conferência de Zunyi em janeiro de 1935, que Mao consolidou sua liderança sobre o partido.
A Segunda Guerra Sino-Japonesa, que eclodiu em escala total em 1937 com a brutal invasão japonesa, obrigou comunistas e nacionalistas a uma frente unida de resistência. Mao utilizou os anos da guerra para expandir as bases comunistas no norte da China e consolidar o apoio popular nas regiões rurais que o Kuomintang ignorava. Quando o Japão foi derrotado em 1945, a guerra civil recomeçou com intensidade renovada. Apoiado por um campesinato que havia sofrido durante décadas de exploração, o Exército de Libertação Popular de Mao foi derrotando sistematicamente as forças de Chiang até que, em outubro de 1949, Mao proclamou a fundação da República Popular da China da Praça Tiananmen, em Pequim. Chiang Kai-shek e os remanescentes do Kuomintang fugiram para a ilha de Taiwan.
Nos primeiros anos da nova república, Mao implementou uma reforma agrária que redistribuiu terras dos latifundiários para os camponeses, ao mesmo tempo em que se aliou à União Soviética de Stalin e enviou tropas para a Guerra da Coreia. A industrialização avançou, a alfabetização se expandiu e a mortalidade infantil caiu. Mas a política doméstica logo tomou cursos catastróficos.
Em 1958, Mao lançou o Grande Salto em Frente, uma campanha de industrialização e coletivização acelerada que ignorou as realidades da produção agrícola chinesa. As metas absurdas impostas aos camponeses, combinadas com desastres naturais e a relutância dos funcionários locais em reportar falhas ao centro, produziram a maior fome da história registrada: entre 1959 e 1961, estima-se que morreram de fome entre quinze e quarenta e cinco milhões de pessoas, com as estimativas mais aceitas apontando para cerca de trinta a trinta e cinco milhões. O desastre forçou Mao a recuar temporariamente das posições de liderança operacional.
Mas em 1966, sentindo seu legado ameaçado pelos reformistas que haviam tentado corrigir os erros do Grande Salto, Mao desencadeou a Revolução Cultural. Mobilizando os jovens Guardas Vermelhos, ele lançou um ataque à tradição, à educação formal, à religião e a tudo que representasse a antiga ordem — incluindo membros do próprio partido. Universidades foram fechadas, professores foram humilhados e mortos, relíquias históricas foram destruídas, e o país mergulhou num caos que durou uma década. Estima-se que a Revolução Cultural causou diretamente centenas de milhares de mortes e afetou a vida de dezenas de milhões de pessoas.
Mao morreu em 9 de setembro de 1976, em Pequim, com oitenta e dois anos, vítima de esclerose lateral amiotrófica. Seu corpo foi embalsamado e exposto permanentemente no Mausoléu da Praça Tiananmen. Dois anos depois, Deng Xiaoping assumiu a liderança e iniciou reformas econômicas que abandonaram a maior parte do maoísmo — embora o Partido Comunista Chinês tenha adotado a fórmula oficial de que Mao foi "setenta por cento correto e trinta por cento errado". Para os que sobreviveram ao Grande Salto e à Revolução Cultural, essa aritmética soa como um eufemismo de proporções históricas.
