Abu Tamim Maade Almostancir nasceu no Cairo em 5 de julho de 1029 e se tornaria um dos governantes mais singulares de toda a história islâmica medieval. Filho do califa Ali Azair, foi declarado sucessor do pai quando contava apenas oito meses de vida, e ascendeu ao trono fatímida aos sete anos de idade. Seu califado se estenderia por mais de sessenta anos — o mais longo califado islâmico já registrado —, mas esse tempo não seria de esplendor: seria, em grande medida, uma saga de decadência, fome, saques e humilhações que transformaria o Egito fatímida em um estado à beira do colapso.
Nos primeiros anos de seu reinado, o poder efetivo estava nas mãos de sua mãe, que conduziu os assuntos do estado em nome do jovem califa. O início do governo foi marcado por alguma estabilidade, especialmente durante a administração de Ali ibne Amade Jarjarai, um vizir habilidoso cujo período no cargo foi considerado uma época de prosperidade para o Egito. Jarjarai morreu em 1044 e foi sucedido por administradores progressivamente menos competentes. A partir de 1058, mais de quarenta vizires se alternaram no poder em apenas quinze anos, o que resultou no total esgotamento do tesouro califal e na fragmentação da autoridade central.
O período mais dramático do reinado de Almostancir foi a grande carestia que assolou o Egito entre 1065 e 1072. A seca e o caos administrativo devastaram a economia agrícola. Ao mesmo tempo, rivalidades militares entre soldados turcos e sudaneses irromperam em conflito aberto, com batalhas registradas em 1062 e novamente em 1067, terminando com a vitória dos turcos. As tribos nômades berberes do Baixo Egito agravaram ainda mais a situação ao realizar sistematicamente saques no interior rural e destruir os canais de irrigação ao longo das margens do Nilo, comprometendo as bases da agricultura egípcia.
Os relatos da época descrevem um cenário de miséria quase bíblica. Os estábulos do califa, que chegaram a abrigar mais de dez mil animais, ficaram reduzidos a três cavalos magros. Segundo as crônicas, chegou um momento em que o próprio Almostancir era o único homem em todo o Cairo que ainda possuía um cavalo, e quando saía a cavalo pela cidade, seus cortesãos o seguiam a pé. Seu guarda-costas pessoal, diz-se, chegou a desmaiar de fome enquanto o escoltava pelas ruas da capital. Distritos inteiros da cidade ficaram abandonados quando as epidemias que se seguiram à fome varreram a população.
Os mercenários turcos que dominavam o exército aproveitaram o caos para drenar sistematicamente o que restava do tesouro imperial. Obras de arte, joias e itens preciosos do palácio foram vendidos a preços irrisórios para satisfazer suas demandas. Esmeraldas avaliadas em mais de trezentos mil dinares foram adquiridas por um general turco por apenas quinhentos dinares. Em um período de apenas quinze dias, em 1068, artigos estimados em mais de trinta milhões de dinares foram liquidados para pagar os soldados. A preciosa biblioteca do palácio, que havia sido aberta ao público e era uma das grandes atrações intelectuais do Oriente Médio, foi saqueada: livros foram rasgados, jogados fora ou usados como lenha.
A situação chegou ao ponto mais extremo quando o general turco Nácer Adaulá marchou contra o Cairo, incendiou parte do antigo bairro de Fostate e venceu os defensores da cidade. Ao invadir o palácio, encontrou Almostancir refugiado em seus aposentos completamente despojados de decoração, atendido por apenas três escravos e sustentado pelos dois pães que as filhas de um gramático chamado Ibn Babshand lhe enviavam diariamente. A imagem do califa mais longevo do islã reduzido a essa condição permaneceu como símbolo máximo da degradação do califado fatímida.
Os turcos vitoriosos mantiveram Almostancir no poder, mas apenas como figura decorativa. Tratavam-no com desprezo explícito e aumentaram seus salários em mais de vinte vezes ao nível anterior. Nácer Adaulá se tornou um tirano que oprimia tanto seus inimigos quanto seus próprios aliados, e acabou assassinado em 1074. Sua morte, no entanto, não trouxe alívio: sem uma autoridade central forte, as diversas facções turcas passaram a se comportar como salteadores, e a cidade mergulhou em novo caos.
A salvação do califado viria de uma direção inesperada. Badre Aljamali, um estadista de origem armênia que havia sido comprado como escravo pelo emir sírio Jamal Adaulá e posteriormente se tornara mameluco, governador de Acre e comandante militar, foi chamado para reorganizar o Egito. Em 1074, assumiu o posto de Comandante das Forças, cargo que acumulou ao de Chefe dos Missionários e de fato tornou-se o verdadeiro governante do califado, embora Almostancir permanecesse formalmente como califa. Aljamali governou com mão firme até sua morte em 1094, e durante esse período patrocinou obras monumentais que ainda existem no Cairo, incluindo a Mesquita de Juyushi, os portões Bab al-Futuh, Bab al-Nasr e Bab Zuweila.
A morte de Badre Aljamali e a morte de Almostancir coincidiram no mesmo ano de 1094, encerrando um capítulo singular da história islâmica. O filho de Aljamali, Lavendálio, sucedeu ao pai e elegeu como novo califa o jovem Almostali, preterindo Nizar, o filho mais velho de Almostancir. Nizar se revoltou, foi derrotado em 1095, e seus seguidores, liderados por Haçane Açafá, fugiram para o oeste e fundaram uma comunidade ismailita que se tornaria famosa nos séculos seguintes.
O legado intelectual do reinado, mesmo em meio à turbulência política, não foi desprezível. Muaiade Fildine de Xiraz, um erudito ismailita nascido em 1000 na cidade de Xiraz, serviu a Almostancir como missionário e teólogo, alcançando o mais alto posto da hierarquia religiosa fatímida. Em seus escritos filosóficos e teológicos, elevou a doutrina ismaelita a seu ponto mais sofisticado, ensinando na Casa da Sabedoria do Cairo até sua morte em 1078. O reinado de Almostancir, portanto, foi ao mesmo tempo o mais longo e um dos mais contraditórios da história islâmica: marcado pela destruição material e pela paralisia política, mas também por contribuições intelectuais que atravessaram séculos.
