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Myanmar

País da Ásia

7 min de leitura01/01/2024
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Myanmar, também conhecida historicamente como Birmânia, é um país do sudeste da Ásia continental que carrega em seu nome e em sua história a marca de tensões que vão da identidade nacional ao poder político. Com fronteiras compartilhadas com a China ao norte e nordeste, o Laos a leste, a Tailândia a sudeste, o Bangladesh e a Índia a noroeste, e banhada pelo Mar de Andamão e pelo Golfo de Bengala ao sul e sudoeste, Myanmar ocupa uma posição geográfica de extraordinária importância estratégica na região.

A própria questão do nome revela muito sobre a complexidade política do país. Os dois termos em uso — Myanmar e Birmânia — têm a mesma origem etimológica, derivada do nome local Bam-mā e da forma literária birmanesa Mijanmaːɐ. Em português, o país era historicamente chamado de Birmânia, nome que chegou ao idioma via francês e inglês. Em junho de 1989, a junta militar que controlava o país anunciou a mudança oficial do nome em inglês de Burma para Myanmar, renomeando também diversas cidades, incluindo a então capital Rangum, que passou a se chamar Yangon. A decisão foi politicamente controversa desde o início: grupos de oposição ao regime militar recusaram-se a adotar o novo nome, por não reconhecerem a legitimidade do governo para fazer tal alteração, e alguns países ocidentais como Estados Unidos e Reino Unido mantiveram o uso de Burma por décadas. As Nações Unidas e a União Europeia adotaram Myanmar como nome oficial.

A história de Myanmar é profundamente marcada pela diversidade étnica de sua população, que inclui a etnia birmanesa majoritária e dezenas de grupos menores, como karens, shans, kachins e outros, muitos dos quais habitam regiões de fronteira com longa tradição de autonomia. Essa diversidade moldou séculos de conflitos internos e negociações sobre a estrutura do estado. Antes da colonização britânica, o território foi palco de reinos poderosos como o de Pagan e o Império Konbaung, que chegou a invadir territórios vizinhos antes de ser enfraquecido pelas guerras anglo-birmanesas do século XIX.

O colonialismo britânico, que se consolidou completamente sobre a Birmânia em 1885, deixou marcas profundas na estrutura social e econômica do país. Os britânicos governaram a Birmânia como parte do Império Indiano até 1937, quando a separaram administrativamente da Índia como colônia independente. A segunda guerra mundial trouxe a ocupação japonesa, que inicialmente contou com a colaboração de líderes nacionalistas birmaneses que esperavam obter a independência. Com a derrota do Japão, a Birmânia negociou sua independência com a Grã-Bretanha, que foi proclamada em 4 de janeiro de 1948, com o nome oficial de União da Birmânia.

O período pós-independência foi imediatamente conturbado. O general Aung San, líder do movimento de libertação e figura central na negociação da independência, foi assassinado em julho de 1947, meses antes de a independência ser formalmente proclamada. O governo civil de U Nu tentou construir uma democracia multipartidária em meio a insurgências étnicas e comunistas que fragmentavam o território. Em 1962, o general Ne Win derrubou o governo num golpe de estado e inaugurou décadas de ditadura militar que moldaram o país até os dias atuais.

Em 4 de janeiro de 1974, uma nova constituição transformou o país na República Socialista da União da Birmânia, nome que durou até 23 de setembro de 1988. Nesse ano, uma onda de protestos populares sacudiu o regime. A líder da oposição democrática, Aung San Suu Kyi, filha do general Aung San, emergiu como símbolo da resistência. O movimento foi brutalmente reprimido pelos militares em setembro de 1988, com massacres que chocaram a comunidade internacional. Aung San Suu Kyi foi posta em prisão domiciliar e o país passou a ser governado pelo Conselho de Estado para a Paz e Desenvolvimento, presidido a partir de 1992 pelo general Than Shwe.

As eleições de 1990, convocadas pela própria junta, resultaram numa vitória esmagadora do partido de Aung San Suu Kyi, a Liga Nacional para a Democracia, mas os militares se recusaram a reconhecer os resultados e mantiveram o poder. Suu Kyi seria agraciada com o Prêmio Nobel da Paz em 1991, ainda detida em Rangum. Ao longo dos anos 1990 e 2000, o regime enfrentou sanções internacionais, isolamento diplomático e pressões crescentes. Em 2006, a capital foi transferida da histórica Rangum para a nova cidade de Nepiedó, num movimento que analistas interpretaram como parte de um plano de segurança militar.

A transição democrática gradual teve início ao longo da década de 2010. Aung San Suu Kyi foi liberada em 2010 e seu partido participou das eleições subsequentes. Em 2016, Htin Kyaw, braço direto de Suu Kyi, tomou posse como presidente eleito democraticamente — o primeiro governo civil em décadas. Myanmar parecia finalmente avançar em direção à normalização política, atraindo investimentos estrangeiros e reabrindo-se para a comunidade internacional.

Esse avanço, porém, seria interrompido. Após as eleições gerais de 2020, nas quais o partido de Aung San Suu Kyi obteve uma vitória clara em ambas as casas do parlamento, os militares birmaneses — o Tatmadaw — tomaram o poder novamente num golpe de estado realizado em fevereiro de 2021, prendendo Suu Kyi e líderes civis. O golpe provocou protestos massivos em todo o país, uma violenta repressão militar e o início de um conflito armado de larga escala entre as forças do regime e grupos de resistência. A situação humanitária se deteriorou rapidamente, gerando deslocamentos internos de massa e condenação internacional.

Do ponto de vista de recursos naturais, Myanmar é um país extraordinariamente rico: possui vastos depósitos de jade, pedras preciosas, petróleo, gás natural e grande potencial de energia solar, o maior de toda a sub-região do Grande Mekong. No entanto, a desigualdade na distribuição dessa riqueza é uma das mais acentuadas do mundo, com grande parte dos benefícios concentrada em mãos de aliados do establishment militar. Em 2020, o Índice de Desenvolvimento Humano classificava o país na 147ª posição entre 189 nações, reflexo de décadas de má governança e priorização dos gastos militares sobre os investimentos sociais.

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