Quando Abderramão III ascendeu ao trono como emir de Córdoba, em 912, a Espanha muçulmana estava em frangalhos. Décadas de conflitos tribais entre as facções árabes que disputavam o poder, escaramuças incessantes com as populações de origem hispânica que resistiam ao domínio muçulmano e a crescente ameaça dos reinos cristãos do norte haviam enfraquecido profundamente a autoridade central do emirado. A maioria da população, composta por muçulmanos convertidos, cristãos em várias gradações de assimilação e grupos de origens diversas, ansiava por um governante forte que pudesse restaurar a ordem e garantir proteção contra a aristocracia árabe, principal núcleo de resistência ao novo emir. Com apenas vinte e dois anos e uma mistura de sangue árabe, berbere e hispânico-visigótico nas veias, Abderramão assumiu um desafio formidável.
O novo emir era neto de seu antecessor, o emir Abdalá, que lhe havia transmitido não apenas um trono fragilizado, mas também as ferramentas para restaurá-lo. Abderramão combinou uma política de mão firme contra os rebeldes com uma pragmática tolerância religiosa em relação às comunidades cristãs e judaicas que viviam sob seu governo, recrutando inclusive soldados cristãos para o exército mercenário com o qual enfrentaria seus adversários. Essa tolerância não era sinal de indiferença religiosa, mas de inteligência política: num território marcado pela diversidade, a repressão indiscriminada geraria resistência onde ela ainda não existia.
A principal ameaça externa que Abderramão enfrentava vinha dos fatímidas, a dinastia islâmica que havia se estabelecido no norte da África, no Egito e no Magrebe, e que reivindicava o califado para si, contestando a legitimidade de qualquer outra pretensão ao título de líder da comunidade muçulmana. Para lidar com essa ameaça, Abderramão adotou uma estratégia de apoio sistemático aos inimigos dos fatímidas no norte da África, financiando e armando suas facções rivais. Essa política de contenção foi complementada por um gesto de enorme alcance simbólico e político: em 16 de janeiro de 929, Abderramão proclamou o Califado de Córdoba, declarando-se sucessor do profeta Maomé e príncipe dos crentes, e adotando a alcunha Nácer Lidim Alá, que significa vencedor em nome de Alá.
Ao proclamar o califado, Abderramão rompeu definitivamente os vínculos que ainda o ligavam formalmente aos califas do Oriente, recusando reconhecer a autoridade dos governantes de Meca, Medina ou Bagdá sobre os muçulmanos de sua esfera de influência. A declaração conferiu a Córdoba um prestígio sem precedentes entre os muçulmanos que viviam na Europa e nas regiões do norte da África, transformando a cidade em sede de um poder religioso e político que rivalizava com os grandes centros do Islã. O efeito foi imediato: líderes norteafricanos enviaram embaixadas a Córdoba, e o Califado de Córdoba passou a existir como entidade internacional reconhecida ao lado do califado abássida de Bagdá e do califado fatímida.
A unificação do al-Ândalus sob a autoridade do novo califa exigiu décadas de campanhas militares contra os numerosos focos de resistência que persistiam em diversas regiões da Península Ibérica. Em 928, Abderramão conquistou Bobastro, o reduto montanhoso onde ibne Hafessune, o líder rebelde mais persistente, havia resistido por décadas ao poder de Córdoba. A mesma campanha permitiu a tomada de Badajoz, centro de poder dos Banu Maruane. Um ano antes de proclamar-se califa, empreendeu sua maior ofensiva, tomando Sevilha e Algeciras e consolidando o controle sobre o sul da Península. Em 933, caiu o último bastião de resistência em Toledo, cidade que por sua importância estratégica e simbólica havia sido o pomo da discórdia entre a autoridade central e os nobres revoltosos por décadas.
Além das campanhas contra os rebeldes internos, Abderramão também guerreou contra os reinos cristãos do norte da Península, que aproveitavam a debilidade do emirado para expandir seus territórios. Em campanhas militares que alternaram vitórias e derrotas, apoderou-se de Osma e de San Esteban de Gormaz, plazas-fortes que avançavam a fronteira muçulmana em direção ao norte e ameaçavam os reinos de Leão e Navarra. Essas incursões militares tiveram mais caráter intimidatório do que territorial, buscando manter os reinos cristãos em posição defensiva e evitar que eles constituíssem uma ameaça séria à estabilidade do califado.
O Califado de Córdoba que Abderramão construiu ao longo de meio século de reinado foi um dos grandes centros da civilização medieval. Córdoba tornou-se a cidade mais populosa da Europa ocidental de seu tempo, com uma população estimada em centenas de milhares de habitantes, um número que as maiores cidades do norte do continente levariam séculos para alcançar. Sua biblioteca, seus hospitais, suas escolas e seus mercados eram visitados por sábios, comerciantes e embaixadores de todos os cantos do mundo conhecido. A convivência, nem sempre harmoniosa mas frequentemente produtiva, entre muçulmanos, cristãos e judeus em Córdoba gerou uma efervescência intelectual que preservou e transmitiu textos filosóficos e científicos da Antiguidade que de outro modo poderiam ter se perdido.
Paradoxalmente, apesar da inegável magnitude histórica de seu reinado, há mais material biográfico disponível para os historiadores sobre seu antecessor Abderramão I do que sobre ele próprio. Sua vida está tão completamente entrelaçada com a história do Estado que governa que os cronistas árabes da época tenderam a registrar eventos públicos e militares com mais detalhes do que episódios da vida pessoal do califa. Abderramão III morreu em 961, após quase meio século no poder, deixando um califado unificado, próspero e respeitado que seu successor Alhakem II herdaria em condições de continuar o florescimento cultural que havia se tornado a marca distintiva de Córdoba no mundo medieval.
