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Francisco II das Duas Sicílias

Francisco II (em italiano: Francesco d'Assisi Maria Leopoldo; Nápoles, 16 de janeiro de 18

7 min de leitura01/01/2024
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Francesco d'Assisi Maria Leopoldo nasceu em Nápoles em 16 de janeiro de 1836, filho único do rei Fernando II das Duas Sicílias e de sua primeira esposa, Maria Cristina de Saboia, que morreu ao dar à luz. Criado sem a presença da mãe e à sombra de um pai forte e autoritário, Francisco cresceu num ambiente de corte que o manteve deliberadamente distante dos assuntos de Estado e das questões militares, uma lacuna que se revelaria fatal quando o peso da história caiu sobre seus ombros. Era um jovem de temperamento profundamente religioso e dúctil, marcado por uma piedade sincera que contrastava vivamente com a ferocidade que os tempos exigiam.

Em 1859, Francisco ascendeu ao trono das Duas Sicílias com a morte do pai e, no mesmo ano, casou-se com Maria Sofia da Baviera, irmã da famosa imperatriz Elisabeth da Áustria, a "Sissi". O casal formava um contraste curioso: Francisco, tímido e devoto, e Maria Sofia, corajosa, extrovertida e de temperamento guerreiro. Conta-se que o matrimônio foi consumado apenas um mês após a cerimônia, graças à intervenção mediadora de um padre, tamanha era a reserva do novo rei. O que Maria Sofia lhe faltava em timidez, sobraria em coragem durante o cerco que se aproximava.

Apesar do breve reinado, Francisco II ensaiou reformas de alcance considerável. Concedeu maior autonomia às comunas, emitiu anistias políticas, reduziu impostos territoriais e tarifas alfandegárias, ampliou a rede ferroviária com linhas que conectavam Nápoles a Foggia e a Palermo a Messina e Catânia, e ordenou a compra de trigo no exterior para combater a carestia que assolava seu reino. Em 1862, já no exílio em Roma, ainda enviou uma soma generosa aos napolitanos atingidos por uma erupção do Vesúvio. Eram gestos de um governante que, em outras circunstâncias, poderia ter passado à história de forma mais benevolente.

Mas as circunstâncias que o aguardavam eram as do Risorgimento, o movimento de unificação italiana que varria a península com a força de uma maré imparável. Em maio de 1860, Giuseppe Garibaldi e seus mil voluntários desembarcaram na Sicília, num golpe de audácia militar que impressionou o mundo. A resposta das forças borbônicas foi, em muitos momentos, desconcertante: na Batalha de Calatafimi, cerca de três mil soldados napolitanos bateram em retirada após uma escaramuça inicial. Quando Garibaldi cruzou para a Calábria, aproximadamente dez mil soldados das Duas Sicílias se renderam sem que um único tiro fosse disparado. Era como se o reino simplesmente se desmontasse por dentro.

Francisco II tentou manobras políticas de última hora, anunciando a adoção de uma constituição e a bandeira tricolor italiana, mas essas concessões chegaram tarde demais e pareceram desesperadas. Sua tentativa de aliança com o primo Vítor Emanuel II de Saboia foi recusada de forma seca. Enquanto isso, o conde de Cavour, arquiteto da unificação italiana, movia suas peças com frieza: deu ordens secretas ao general Cialdini para avançar com o exército piemontês em direção a Nápoles enquanto publicamente afirmava neutralidade.

Seguindo o conselho de ministros que já haviam secretamente acertado com os piemonteses, Francisco abandonou Nápoles sem combater, facilitando a conquista de Garibaldi. Mas em Gaeta, praça-forte à beira-mar, o rei e a rainha fizeram uma última resistência. Por três meses, de novembro de 1860 a fevereiro de 1861, os exércitos garibaldino e piemontês sitiaram a cidade num cerco progressivamente mais apertado. Maria Sofia percorreu as muralhas sob bombardeio, animando os soldados com uma coragem que conquistou a admiração até dos inimigos. Francisco, ao lado da esposa, encontrou numa derrota honrada a dignidade que não encontrara na batalha aberta. A capitulação de Gaeta, em 13 de fevereiro de 1861, marcou o fim do Reino das Duas Sicílias e o início do exílio.

Em Roma, Francisco II foi hóspede do Papa Pio IX no Palácio do Quirinal antes de se instalar no Palácio Farnese. Por anos tentou organizar focos de resistência armada em seu antigo reino, sem sucesso. Com a entrada das tropas unitárias em Roma em 1870, mudou-se para Paris, onde viveria com grande parcimônia porque o Reino de Itália havia confiscado todos os bens dos Bourbons. O governo italiano propôs devolver as propriedades em troca da renúncia formal às pretensões ao trono, mas Francisco respondeu com uma frase que resumia seu caráter: "A minha honra não se vende". No Natal de 1869, o casal teve uma filha, Maria Cristina, que morreu com apenas três meses de vida. Francisco II faleceu em 27 de dezembro de 1894, nas termas de Arco, no Trentino, então território austríaco, aos 58 anos, sem jamais ter pisado novamente no solo do reino que perdera. Era o quinto e último soberano a ocupar o trono de Nápoles, e com ele encerrou-se um capítulo de séculos da história dos Bourbons no sul da Itália.

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