Em 1913, quando o cinema europeu e americano já acumulava quase duas décadas de experiência e experimentação técnica, a Índia britânica deu ao mundo seu primeiro longa-metragem, obra que não apenas inaugurou uma tradição cinematográfica que se tornaria a mais produtiva do planeta, mas que o fez com ambição artística e temática notáveis. Raja Harishchandra, dirigido por Dhundiraj Govind Phalke, ou simplesmente Dadasaheb Phalke como ficou para a história, é uma janela para um momento de criação extraordinário, em que uma cultura milenar descobriu um novo modo de contar suas histórias mais antigas.
Phalke era um artista e tipógrafo treinado nas artes gráficas, familiarizado com a estética visual indiana tradicional e profundamente influenciado pelo trabalho do pintor Raja Ravi Verma, cujas obras haviam popularizado entre o público indiano representações vívidas dos personagens mitológicos e épicos do subcontinente. Quando Phalke assistiu a um filme no cinema pela primeira vez, não enxergou apenas entretenimento: viu um veículo incomparável para levar as narrativas sagradas e heroicas da tradição indiana a um público muito mais vasto do que qualquer teatro ou pintura poderia alcançar. Partiu para a Inglaterra aprender as técnicas cinematográficas e voltou para a Índia determinado a fazer seu filme.
A escolha do tema não foi casual. Harishchandra é um personagem de enorme significado na tradição hinduísta, mencionado tanto no Ramayana quanto no Mahabharata, os dois grandes épicos da literatura indiana. Ele é o paradigma da integridade absoluta e da fidelidade à verdade, qualidades que os hindus denominam satya e que são consideradas virtudes supremas. A história de Harishchandra é, em essência, uma narrativa sobre o preço da honra e a recompensa da incorruptibilidade diante das maiores adversidades.
No filme, o rei Harishchandra, interpretado por D.D. Dabke, é retratado como soberano justo e devotado, ensinando seu filho Rohitashva, interpretado por Bhalchandra Phalke, filho do próprio diretor, a manejar o arco e a flecha na presença da rainha Taramati. Seus súditos o pedem para organizar uma expedição de caça, e é durante essa caçada que o destino do rei se transforma de maneira irreversível. Ao ouvir os gritos de mulheres em apuro, Harishchandra chega a um local onde o sábio Vishvamitra, interpretado por Gajanan Sane, realiza um ritual sagrado chamado yajna para invocar os três poderes da Triguna Shakti. Sem intenção, o rei interrompe a cerimônia no momento mais crítico, liberando as forças invocadas antes que Vishvamitra pudesse controlá-las.
Para apaziguar a ira do sábio ofendido, Harishchandra oferece o que tem de mais valioso: seu próprio reino. Devolvido ao palácio, comunica à rainha Taramati o que aconteceu, e logo o sábio aparece para exigir mais ainda. Vishvamitra envia o rei, a rainha e o jovem príncipe Rohitashva para o exílio e impõe a obrigação de pagar uma dakshina, uma dívida sagrada. No exílio, as provações se amontoam com uma crueldade implacável. Rohitashva morre, e Harishchandra, incapaz de custear os ritos fúnebres, envia Taramati pedir ao rei Dom que providencie uma cremação gratuita.
Mas as provações não terminam. Enquanto a rainha está a caminho, Vishvamitra a incrimina falsamente pelo assassinato do príncipe de Kashi. Taramati é levada a julgamento, declara-se culpada diante da pressão das circunstâncias e é condenada a ser decapitada. A execução recai sobre as mãos do próprio Harishchandra. O momento em que o rei, devastado, levanta a espada sobre a cabeça de sua esposa é o ápice dramático do filme: a integridade absoluta exige que ele cumpra a sentença mesmo diante do ser que mais ama no mundo.
É nesse instante extremo que o Senhor Shiva aparece, satisfeito com a prova de incorruptibilidade que testemunhou. Vishvamitra revela então que toda a sequência de desgraças foi uma provação deliberada, um teste da virtude de Harishchandra. O sábio devolve o reino ao rei, Rohitashva é trazido de volta à vida e o equilíbrio moral do universo é restabelecido. É uma narrativa que ressoa com a estrutura das provas divinas presente em muitas tradições religiosas do mundo, mas aqui carregada com a estética e a teologia específicas do hinduísmo.
A produção de Raja Harishchandra foi um feito técnico considerável para as condições da Índia de 1913. Phalke rodou o filme com equipe pequena, enfrentando dificuldades que incluíam a resistência cultural de muitas famílias em deixar parentes do sexo feminino atuarem. Anna Salunke, o ator que interpretou a rainha Taramati, era de fato um homem, prática que persistiu nos primeiros anos do cinema indiano, espelhando tradições teatrais locais onde papéis femininos eram habitualmente desempenhados por homens.
O legado de Raja Harishchandra transcende seu valor histórico como primeiro longa-metragem indiano. Ele estabeleceu a mitologia hinduísta como fonte privilegiada da narrativa cinematográfica no subcontinente, padrão que o cinema indiano manteve por décadas. Dadasaheb Phalke tornou-se o pai do cinema indiano, nome que a Índia honra até hoje com os Prêmios Dadasaheb Phalke, a mais alta distinção do cinema nacional entregue pelo governo indiano.

