Paulo Alberto Moretzsonh Monteiro de Barros nasceu em 3 de janeiro de 1936 no Rio de Janeiro, mas o mundo o conheceu pelo pseudônimo que ele mesmo escolheu: Artur da Távola. O nome era uma declaração estética, uma marca que condensava a postura do homem que buscava na linguagem e na cultura os instrumentos para compreender e transformar a realidade. Descendente de famílias ilustres por ambos os lados — pelo lado paterno, da tradicional família Monteiro de Barros, ligada à nobiliarquia brasileira desde os tempos coloniais, e pelo lado materno, de um avô sírio chamado André Koff que emigrou ao Brasil em 1900 —, Távola reunia em si a mistura de origens que define o Brasil contemporâneo.
Formado em direito e com uma trajetória acadêmica que incluiu a docência, Artur da Távola iniciou sua vida política em 1960, filiando-se ao PTN pelo estado da Guanabara. Dois anos depois, em 1962, foi eleito deputado constituinte pelo PTB. O caminho parecia promissor, mas a história do Brasil guardava uma inflexão traumática. Com o golpe militar de 1964, Távola teve seus direitos políticos cassados e precisou partir para o exílio. Viveu na Bolívia e no Chile entre 1964 e 1968, anos que testaram sua resiliência e aprofundaram suas convicções democráticas.
O retorno ao Brasil coincidiu com um período de intensa reorganização da esquerda democrática. Távola não ficou de fora desse processo. Tornou-se um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, e rapidamente se destacou como liderança parlamentar. Na Assembleia Constituinte de 1988, atuou como líder da bancada tucana e travou batalhas importantes pelo texto constitucional. Uma das suas principais bandeiras foi a defesa de alterações nas concessões de emissoras de televisão para permitir a criação de canais vinculados à sociedade civil, uma visão que estava décadas à frente do tempo. Naquele mesmo ano, tentou a prefeitura do Rio de Janeiro, mas não obteve sucesso nas urnas.
Sua trajetória parlamentar foi extensa e variada. Exerceu mandatos de deputado federal de 1987 a 1995, período em que se notabilizou não apenas pelos debates políticos, mas pela sofisticação intelectual que trazia à tribuna. Em 1995, foi eleito senador, cargo que exerceu até 2003. Nesse mesmo ano de 1995, chegou a presidir o PSDB, cargo que ocupou até 1996. A relação de Távola com o partido foi sempre marcada por uma independência de espírito que, eventualmente, criou tensões. Em 1999, anunciou que deixaria o PSDB em protesto contra duas decisões do governo Fernando Henrique Cardoso: a nomeação do ex-ministro do período Médici, Pratini de Moraes, para o Ministério da Agricultura, e a condecoração do presidente peruano Alberto Fujimori, acusado de graves violações de direitos humanos. Contudo, Távola nunca formalizou a saída e permaneceu no partido até seu falecimento.
Entre 2001 e 2002, por nove meses, assumiu a Secretaria de Cultura da cidade do Rio de Janeiro durante o mandato de Cesar Maia, cargo no qual pôde finalmente atuar diretamente na área cultural que sempre amou.
Paralelamente à política, Artur da Távola construiu uma sólida carreira jornalística e literária. Atuou como redator e editor em diversas revistas, especialmente na Bloch Editores, e foi colunista de televisão nos jornais Última Hora, O Globo e O Dia. Exerceu também a direção da Rádio Roquette-Pinto, uma das emissoras de rádio público mais tradicionais do Brasil. Publicou dezenas de livros de contos, crônicas, ensaios e opúsculos sobre os mais variados temas: de Vivaldi a Nara Leão, de Cruz e Sousa a Monteiro Lobato, do amor à morte. Seus prefácios foram assinados por nomes como Fernanda Montenegro, Pedro Bial, Carlos Vereza e Beth Faria.
Mas foi como divulgador de música erudita que Artur da Távola conquistou um público amplo e fidelíssimo. Seu programa "Quem Tem Medo de Música Clássica?", exibido na TV Senado, tornou-se um fenômeno de audiência improvável: um político-intelectual falando de Beethoven, Bach e Brahms para um público que raramente frequentava salas de concerto. A paixão de Távola pela música era genuína e comunicativa. Seu compositor predileto era Vivaldi, a quem dedicou quatro programas especiais apresentando "As Quatro Estações" em sua versão completa, executada pela Orquestra Filarmônica de Berlim. Com exclusividade, exibiu também apresentações da Orquestra Sinfônica Brasileira no Festival de Gramado ao longo dos anos de 2003 a 2007. Além da televisão, conduziu um programa de música na Rádio MEC.
Ao encerrar cada episódio do programa na TV Senado, Távola havia criado o hábito de deixar uma frase que marcava os espectadores, uma espécie de assinatura afetiva que condensava sua visão humanista da arte. O gesto era típico de alguém que entendia a cultura como conversa, não como monólogo.
As honrarias que recebeu ao longo da vida refletem a amplitude de sua atuação. Em 1994, foi agraciado com a Ordem do Rio Branco no grau de Oficial. Em 1995, recebeu a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal, a Ordem do Mérito Naval no grau de Grande Oficial e o Colar do Mérito Judiciário do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Também foi agraciado com a Ordem de Bernardo O'Higgins, do Chile. Em 1996, o presidente Fernando Henrique Cardoso o admitiu à Ordem do Mérito Militar no grau de Comendador especial.
Em 16 de junho de 2007, o antigo Palacete Garibaldi, na Tijuca, passou a se chamar Centro Municipal de Referência da Música Carioca Artur da Távola, homenagem em vida que ele certamente recebeu com a mesma elegância irônica que marcava sua personalidade pública.
Artur da Távola faleceu no Rio de Janeiro em 9 de maio de 2008, aos 72 anos. Deixou para trás uma obra bibliográfica que vai de "Mevitevendo", de 1977, a "Em Flagrante", de 2000, passando por reflexões sobre a telenovela brasileira, sobre a liberdade do ver e sobre o drama da sexualidade. Acima de tudo, deixou o exemplo de um intelectual que não se deixou capturar por nenhuma caixinha: foi político sem abrir mão da arte, foi escritor sem abrir mão da militância, foi professor de música clássica sem abrir mão da irreverência. No Brasil que frequentemente separa cultura e política como se fossem mundos incompatíveis, Artur da Távola foi a prova viva de que a síntese é possível.