Georges Émile Jules Daressy nasceu em 19 de março de 1864, na pequena cidade francesa de Sourdon, e desde cedo demonstrou inclinação pelas línguas antigas e pela história das civilizações mediterrâneas. Sua formação acadêmica o conduziu naturalmente à egiptologia, área que na segunda metade do século XIX vivia um período de efervescência extraordinária, impulsionada pelas descobertas que revolucionavam a compreensão do Egito Antigo. Ao concluir seus estudos, Daressy se preparava para uma vida dedicada às areias e às pedras inscritas que guardavam os segredos de uma das maiores civilizações da Antiguidade.
Em 1887, Daressy chegou ao Cairo para integrar o quadro do Museu Egípcio, instituição que acumulava artefatos de valor incalculável e que precisava de profissionais capazes de catalogar, interpretar e preservar aquele patrimônio monumental. A missão era hercúlea: o acervo crescia a cada nova escavação, e a organização científica daqueles objetos exigia tanto conhecimento linguístico quanto sensibilidade arqueológica. Daressy mergulhou nessa tarefa com dedicação exemplar, tornando-se um dos pilares intelectuais do museu ao longo de mais de três décadas de serviço contínuo.
Entre as responsabilidades de maior envergadura que assumiu, duas se destacaram pela complexidade logística: a supervisão da transferência do acervo museal de Bulaque para Guizé, em 1891, e depois para a sede definitiva da instituição, em 1902. Mover centenas de peças frágeis, algumas com milhares de anos, sem causar danos e mantendo o rigor científico da catalogação, era uma empresa que exigia competência administrativa rara. Daressy coordenou esses processos com método e atenção, garantindo que nenhum objeto se perdesse ou fosse mal identificado durante as transferências.
Sua contribuição para o catálogo geral do Museu Egípcio foi prolífica e duradoura. Ao longo dos anos, ele foi responsável pela organização e descrição de inúmeras coleções, desde ostraca — fragmentos de cerâmica e pedra usados como suporte de escrita no Egito Antigo — até estatuetas de divindades, textos mágicos e animais mumificados. Cada volume que assinou representava anos de observação minuciosa, comparação filológica e esforço para colocar os artefatos em seu devido contexto histórico e ritual, tornando o acervo acessível a pesquisadores do mundo inteiro.
O trabalho de campo completava a dimensão museal de sua carreira. Daressy escavou em alguns dos sítios mais significativos do Egito, percorrendo tanto o sul do país quanto regiões menos exploradas. O Vale dos Reis, onde se encontram as tumbas dos faraós do Novo Reino, foi um de seus campos de escavação mais importantes, e seus trabalhos ali, realizados especialmente entre 1898 e 1899, renderam publicações detalhadas que se tornaram referências obrigatórias para a arqueologia egípcia. Medinet Habu, Carnaque, Luxor, Malcata e Abidos também receberam sua atenção metódica, cada sítio oferecendo novas peças para o mosaico da história egípcia que ele ajudava a reconstruir.
Uma das realizações que mais elevaram o nome de Daressy no campo científico foi o trabalho com a Placa de Madeira de Akhmim. Trata-se de um objeto singular, contendo cálculos matemáticos egípcios de grande interesse para a história da matemática antiga. Em 1901, ele foi o primeiro a publicar esse documento, trazendo-o ao conhecimento da comunidade acadêmica internacional. Cinco anos depois, em 1906, completou a tarefa ao oferecer a primeira tradução do texto, abrindo caminho para análises que revelariam a sofisticação dos métodos computacionais do Egito do Médio Império.
A produção bibliográfica de Daressy foi vasta e variada. Em francês, publicou guias explicativos das ruínas de Luxor e de Medinet Habu ainda na década de 1890, obras que serviam tanto ao pesquisador especializado quanto ao visitante culto que desejava compreender o que via. Outros volumes trataram de ostraca, de textos e desenhos mágicos, da fauna mumificada do Egito Antigo e dos caixões das cachettes reais — aquelas escondidas de múmias reais descobertas no final do século XIX. Em inglês, contribuiu com um estudo sobre a tumba da rainha Tiy, publicado em 1910 na série dedicada às escavações de Theodore Davis no Vale dos Reis.
Entre os documentos matemáticos que estudou, Daressy publicou em 1906 uma análise de cálculos egípcios do Médio Império, demonstrando como os escribas da época manipulavam frações e resolviam problemas aritméticos com uma lógica própria, bem diferente das convenções modernas, mas igualmente eficaz dentro de seu sistema. Esse trabalho inseriu o pesquisador francês no debate sobre a história da matemática pré-helenística, aproximando a egiptologia de outras disciplinas e ampliando o alcance de suas investigações.
Ao longo de sua carreira, Daressy publicou também uma breve descrição dos principais monumentos do Museu Egípcio, obra que chegou à sua terceira edição em 1925 e que demonstrava sua capacidade de síntese e comunicação com públicos distintos. Escrever para o grande público sem sacrificar o rigor científico era uma habilidade que poucos especialistas dominavam, e ele a exercitou com competência, contribuindo para popularizar o conhecimento sobre a civilização egípcia num período em que o interesse mundial pelo Egito crescia exponencialmente.
Georges Daressy faleceu em 28 de fevereiro de 1938, poucos dias antes de completar setenta e quatro anos. Sua vida foi inteiramente dedicada ao estudo e à preservação do patrimônio egípcio, num período em que a disciplina se estruturava como ciência e estabelecia os métodos que guiariam gerações posteriores. O legado que deixou está inscrito não apenas em seus livros e artigos, mas também na organização das coleções museais que ajudou a sistematizar, nos monumentos que ajudou a documentar e nas portas que abriu para o entendimento de documentos como a Placa de Madeira de Akhmim, que ainda hoje suscita o interesse de historiadores da matemática e da escrita antiga.