civilizacoes perdidas

Catarina de Siena

Santa dominicana italiana, doutora da Igreja e teóloga (1347–1380)

7 min01/01/2024
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Caterina Benincasa veio ao mundo em 25 de março de 1347, na cidade de Siena, no coração da Toscana, exatamente no período em que a Europa mergulhava no terror da Peste Negra. Era filha de Jacopo Benincasa, um tintureiro que administrava seus negócios com a ajuda dos filhos, e de Lapa Piacenti, mulher de fé intensa que havia dado à luz mais de duas dezenas de filhos, muitos dos quais não sobreviveram à infância. Catarina e sua irmã gêmea Joana nasceram como as últimas filhas de um parto gemelar tardio, quando Lapa tinha cerca de quarenta anos. Joana foi entregue a uma ama e faleceu ainda muito cedo; Catarina, amamentada pela própria mãe, cresceu com saúde robusta e uma alegria tão contagiante que a família lhe deu o apelido de Eufrosina, nome que deriva da palavra grega para alegria.

Desde a mais tenra infância, Catarina revelava uma interioridade religiosa fora do comum. Segundo o relato de seu confessor e biógrafo, Raimundo de Cápua, ela teria tido sua primeira visão de Jesus Cristo aos cinco ou seis anos de idade, enquanto retornava a pé de uma visita com o irmão. Na visão, Cristo aparecia entronizado em majestade, acompanhado pelos apóstolos Pedro, Paulo e João. A experiência foi tão marcante que, aos sete anos, a menina já havia pronunciado um voto interior de consagração a Deus, traçando para si mesma um destino que não admitia desvio.

A adolescência trouxe os conflitos inevitáveis com uma família que desejava vê-la casada. Quando tinha dezesseis anos, a morte de sua irmã mais velha, Boaventura, e a pressão dos pais para que assumisse o papel de noiva do viúvo da irmã colocaram Catarina diante de uma crise existencial. Sua resposta foi radical: iniciou um jejum prolongado e cortou os próprios cabelos compridos, gesto simbólico de recusa a qualquer tentativa de torná-la mais atraente para um casamento que não desejava. O pai, ao perceber a determinação inabalável da filha, cedeu e permitiu que ela vivesse segundo sua própria vocação.

Catarina ingressou no Mantellato, a associação local dos terciários dominicanos, superando a resistência inicial das irmãs, que até então só aceitavam viúvas em seus quadros. Naquela casa, aprendeu a ler, viveu períodos de intensa reclusão e silêncio e desenvolveu uma vida interior de extraordinária profundidade. Por volta de 1368, quando tinha vinte e um anos, descreveu em cartas o que chamou de casamento místico com Jesus, uma experiência espiritual que a tradição cristã registrou como um dos episódios fundadores de sua santidade e que se tornou tema recorrente na arte religiosa medieval e renascentista.

Marcada por fenômenos místicos como o estigma e visões frequentes, Catarina foi se tornando conhecida além das fronteiras de Siena. Sua fama de santidade atraía doentes, pobres e penitentes que buscavam seu conselho e sua presença. Ela respondia com uma caridade prática e uma coragem que impressionavam: visitava hospitais, cuidava de leprosos e defendia os condenados. Mas seu papel histórico mais decisivo estava prestes a se manifestar num palco muito mais amplo do que as ruas de Siena.

O papado vivia, naquele período, uma situação de profunda anomalia. Desde o início do século XIV, com o pontificado de Clemente V, os papas haviam se instalado em Avinhão, no sul da França, sob influência crescente da coroa francesa. Décadas de papado avinhonês haviam alimentado o ressentimento das populações italianas e abalado a autoridade moral da Igreja. Catarina se lançou nessa questão política e religiosa com uma energia que surpreendia para uma mulher de sua condição. Ditou cartas incisivas ao papa Gregório XI, tratando-o com uma franqueza que poucos ousavam usar com o chefe da Igreja universal, exortando-o a retornar a Roma, a sede histórica do papado.

Em 1376, Catarina foi pessoalmente a Avinhão como embaixadora de Florença — cidade que estava em conflito com o papado — para negociar a paz. Sua influência sobre Gregório XI foi documentada e decisiva: o papa retornou a Roma em 1377, encerrando o longo período avinhonês. A cidade, que havia acolhido os pontífices por décadas, assistiu à partida do papa com uma mistura de consternação e admiração pela mulher sienesa que havia conseguido o que diplomatas e príncipes não alcançaram.

A morte de Gregório XI, em 1378, e a subsequente eleição do papa Urbano VI abriram um novo ciclo de crise. Catarina exortou Urbano a moderar seu temperamento intransigente e a agir com prudência, mas ele não a ouviu. A rigidez do novo pontífice levou parte do Colégio de Cardeais a eleger um antipapa, Clemente VII, instalando o Grande Cisma do Ocidente — uma divisão que dilacerou a Igreja por quase quarenta anos. Catarina se dedicou então a enviar cartas a príncipes, cardeais e governantes de toda a Europa, defendendo a obediência ao papa legítimo e alertando para os perigos da divisão cristã.

Em seus últimos anos, Catarina se instalou em Roma, a convite do próprio Urbano VI, para auxiliar na defesa de sua causa. Ali, esgotada por décadas de penitências severas, por uma atividade epistolar e diplomática descomunal e por uma saúde que havia sido posta à prova incontáveis vezes, ela morreu em 29 de abril de 1380, com apenas trinta e três anos. O papa Urbano VI presidiu seu funeral e mandou que fosse sepultada na Basílica de Santa Maria sopra Minerva, em Roma.

O reconhecimento de sua excepcionalidade cresceu com o tempo e assumiu dimensões cada vez mais universais. Desde 1866, Catarina de Siena é padroeira da Itália, ao lado de São Francisco de Assis. Em 1970, o papa Paulo VI a proclamou Doutora da Igreja, um dos títulos mais elevados que o catolicismo confere a seus teólogos e místicos, tornando-a uma das poucas mulheres a receber essa distinção. Em 1999, João Paulo II a nomeou uma das seis padroeiras da Europa, ao lado de São Bento, dos Santos Cirilo e Metódio, de Santa Brígida da Suécia e de Santa Teresa Benedita da Cruz. A menina que nasceu no ano da peste, na cidade de Siena, havia se tornado uma das figuras mais influentes do catolicismo medieval e uma referência permanente da espiritualidade cristã.

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