No sertão do Rio Grande do Norte, onde o sol rachava a terra e a escassez de água ditava o ritmo da vida, um padre nascido na Fazenda Serra Branca tornou-se a voz mais persistente pela dignidade de um povo acostumado a sobreviver com muito pouco. Expedito Sobral de Medeiros, que o mundo chamaria de Monsenhor Expedito, veio ao mundo em 13 de dezembro de 1916, numa localidade que então pertencia ao município de Santana do Matos e mais tarde seria vinculada a São Rafael. Desde cedo, a fé e o senso de missão moldaram seu caráter.
Ainda criança, Expedito se mudou com a família para Lajes, onde as primeiras marcas da vocação religiosa começaram a aparecer. Aos onze anos, ingressou no Seminário de São Pedro, em Natal, dando os primeiros passos num caminho que jamais abandonaria. Em 1934, transferiu-se para o seminário de Fortaleza, no Ceará, onde aprofundou a formação teológica e sacerdotal. Em novembro de 1939, aos 23 anos, foi ordenado padre numa cerimônia realizada na capela do Paço Episcopal, pelas mãos de Dom Marcolino Dantas. Celebrou sua primeira missa na Capela do Colégio Marista, em Natal, e a segunda em Ceará-Mirim, onde seus pais residiam à época.
Os primeiros anos de ministério o levaram a conhecer o sertão em suas múltiplas faces. Iniciou como coadjutor na paróquia de Caicó, ao lado do então monsenhor Walfredo Gurgel, antes de seguir para Taipu, Touros, Jardim do Seridó e São Rafael. Cada comunidade por onde passou deixou marcas em sua sensibilidade pastoral. Dois anos após a ordenação, foi designado para a Paróquia de São Paulo Apóstolo, em São Paulo do Potengi — e ali fincou raízes para o restante da vida, permanecendo como pároco por 56 anos ininterruptos.
Em São Paulo do Potengi, Monsenhor Expedito não se limitou à liturgia dominical. Sua presença no município foi de um agente social ativo, alguém que compreendia que fé e vida não podiam ser separadas nas condições precárias do semiárido. Nas décadas de 1950 e 1960, incentivou a formação de sindicatos rurais, grupos de jovens e grupos estudantis, mantendo estreita ligação com a Juventude Agrária Católica. Sua atuação pastoral foi pioneira no estado, antecipando e influenciando o que viria a se consolidar nas Comunidades Eclesiais de Base pelo interior do Brasil. O padre Jospe Marins registraria essa experiência no livro São Paulo do Potengi/RN: Uma Experiência Pioneira de Renovação Paroquial, obra que ganhou segunda edição em 2024, prova de que a memória desse trabalho não esvaneceu.
A orientação do Concílio Vaticano II chegou ao sertão potiguar com o rosto de Monsenhor Expedito. A ideia de que a Igreja deveria sair de suas paredes e caminhar junto ao povo encontrou nele um executor convicto. Reuniões comunitárias, formação de lideranças populares e o envolvimento com trabalhadores rurais faziam parte de uma pastoral que enxergava o pobre como sujeito da história — não apenas destinatário de caridade, mas protagonista de transformação.
Foi nesse contexto que a questão da água tomou proporções centrais em sua trajetória. A escassez hídrica era, no sertão, uma forma de servidão: quem não tinha água dependia de quem a controlava, submetendo-se a condições humilhantes de trabalho e sobrevivência. A virada, segundo registros do Comitê da Bacia Hidrográfica Piancó-Piranhas-Açu, teria ocorrido em 1953, quando um trabalhador rural implorou ao sacerdote: "monsenhor, tira nós dessa escravidão." A frase ecoou por décadas na memória do padre e orientou décadas de luta por soluções estruturais ao problema hídrico.
Monsenhor Expedito passou a defender com insistência a construção de adutoras e sistemas permanentes de abastecimento — não cisternas individuais nem carros-pipa improvisados, mas infraestrutura capaz de garantir água de forma contínua a comunidades inteiras. Essa visão, à época considerada ambiciosa demais, ganhou o apelido que o sacerdote carregaria para sempre: "Profeta das Águas." A alcunha refletia tanto a persistência quanto a capacidade de enxergar além do presente imediato, de acreditar que o sertão poderia ser diferente.
A concretização mais simbólica desse sonho veio nos anos 1990. A política estadual de recursos hídricos do Rio Grande do Norte foi instituída pela Lei nº 6.908, de 1º de julho de 1996, que criou o Sistema Integrado de Gestão de Recursos Hídricos do estado. Em 14 de maio de 1999, no governo de Garibaldi Alves Filho, foi inaugurada a Adutora Monsenhor Expedito — batizada em homenagem ao sacerdote ainda em vida. O sistema captava água da Lagoa do Bonfim e de poços próximos, percorrendo mais de 300 quilômetros de tubulação para abastecer 30 municípios, entre eles São Paulo do Potengi, Santa Cruz, Tangará, Bom Jesus, São Pedro e São Tomé. Tornou-se um dos principais sistemas de abastecimento do estado.
Monsenhor Expedito morreu em Natal em 16 de janeiro de 2000, poucos meses após ver a adutora que levava seu nome em pleno funcionamento. Morreu com a consciência de que a escravidão da seca, da qual aquele trabalhador rural falara meio século antes, havia sido combatida com obras concretas. Tinha 83 anos e deixava atrás de si 56 anos de pároco numa única paróquia — um recorde de dedicação e enraizamento comunitário.
O legado que deixou foi reconhecido em múltiplas dimensões. Além da adutora, seu nome foi dado à Praça da Matriz de São Paulo do Potengi, que passou a ser chamada Praça Monsenhor Expedito, com uma estátua em sua homenagem instalada no local. Sua trajetória foi objeto de dissertação de mestrado de Dom Jaime Vieira Rocha — intitulada Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros: um arauto da dignidade humana no sertão potiguar, defendida na Universidade Católica de Pernambuco em 2012 — e de homenagens públicas promovidas pela Arquidiocese de Natal. Em 2021, o lançamento do livro de Dom Jaime reacendeu o interesse por sua figura.
A história de Monsenhor Expedito é, acima de tudo, a história de um homem que levou a sério o papel da Igreja junto ao povo mais pobre. Não se contentou com a consolação espiritual quando via que a vida material exigia transformação. Numa região marcada pela desigualdade e pela violência das secas, soube articular fé e ação, oração e reivindicação, paciência e persistência. O sertanejo que pediu para ser tirado da escravidão recebeu, décadas depois, água encanada — e o padre que ouviu aquele pedido tornou-se, para sempre, o Profeta das Águas.

