São Paulo do início do século XX era um canteiro em ebulição permanente: fábricas erguendo chaminés sobre várzeas que antes serviam de pastagem, bairros operários nascendo à sombra dos palacetes da elite cafeeira, e uma infraestrutura urbana que não conseguia acompanhar a velocidade de uma industrialização que parecia não ter freio. Nesse cenário de caos criativo e necessidade urgente de ordem, um engenheiro nascido em 23 de agosto de 1891 dedicaria toda sua vida a pensar a cidade como problema a ser resolvido — e como promessa a ser cumprida. Luís Inácio Romeiro de Anhaia Melo, filho de Luis Anhaia de Melo, um dos pioneiros da indústria têxtil paulista, viria a tornar-se o pai do ensino arquitetônico paulistano.
Sua formação inicial se deu na Escola Politécnica de São Paulo, onde se graduou em Engenharia e Arquitetura em 1913. Ainda estudante, caiu nas graças de Francisco de Paula Ramos de Azevedo, o arquiteto mais influente de São Paulo naquele momento, de cuja equipe fez parte após a formatura. A experiência prática ao lado de um profissional de tamanha envergadura moldou não apenas suas habilidades técnicas, mas também sua consciência sobre o peso social da arquitetura.
A vocação docente logo se manifestou. Em 1918, iniciou a carreira de professor na Escola Politécnica, tornando-se mestre no ano seguinte e alcançando a cátedra em 1926, regendo as disciplinas de Composição Arquitetônica, Estética e Urbanismo. Ensinava tanto engenheiros civis quanto arquitetos em formação, posição que lhe permitia influenciar a maneira como uma geração inteira enxergaria o espaço construído. Não era um professor comum: era alguém que acreditava genuinamente que o urbanismo tinha responsabilidades éticas e humanas inegociáveis.
Sua estreia na política municipal chegou em 1920, quando foi eleito vereador pela cidade de São Paulo, cargo que exerceu até 1923 após obter 6.263 votos como quarto candidato mais bem votado. A experiência parlamentar o aproximou das decisões que moldavam concretamente o tecido urbano, dando substância prática às suas convicções teóricas. Membro do Partido Democrata, Anhaia Melo era politicamente identificado com as forças que apoiariam a Revolução de 1930.
Com a instauração do governo provisório do interventor João Alberto Lins de Barros, foi nomeado prefeito de São Paulo em 6 de dezembro de 1930, cargo que ocupou até 25 de julho de 1931 — e brevemente de novo, entre 14 de novembro e 4 de dezembro do mesmo ano. Como prefeito, voltou-se para as questões que lhe eram mais caras: determinou recuos mínimos entre edificações, estabeleceu índices máximos de aproveitamento dos terrenos para conter o adensamento desordenado e promoveu estudos sobre o sistema viário e a canalização de rios. Tentou introduzir instrumentos legais para evitar o crescimento clandestino da cidade — iniciativas vanguardistas para a época, mesmo que nem sempre bem recebidas. Durante sua gestão, foi alvo de manifestação de alunos da Escola Politécnica que repudiavam sua vinculação ao governo revolucionário, episódio que revelava as tensões políticas do período.
Em 1941, assumiu a direção das obras da Catedral de São Paulo, responsabilizando-se pela construção da cúpula e de parte das torres. No mesmo ano, foi nomeado Secretário de Viação e Obras Públicas do Estado, encarregado de implantar um novo plano rodoviário. Manteve o cargo até novembro de 1943, quando pediu exoneração em protesto contra a repressão policial a uma manifestação estudantil contra a ditadura Vargas no Largo São Francisco — gesto que revelava um homem disposto a sacrificar a conveniência pessoal em nome de princípios.
A obra mais duradoura de Anhaia Melo, no entanto, foi a fundação, em 1948, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, a FAU-USP, da qual se tornou o primeiro diretor. A criação da FAU representou uma ruptura deliberada com o modelo da Escola Politécnica: enquanto esta formava engenheiros-arquitetos, a nova faculdade propunha formar arquitetos-urbanistas — profissionais cujo olhar partiria da cidade como totalidade habitada, e não apenas como problema técnico de engenharia. A distinção parecia sutil, mas suas implicações eram profundas: garantia ao campo da arquitetura uma autonomia intelectual própria, com metodologias e perspectivas independentes das ciências exatas.
Em 1955, fundou o Centro de Pesquisas e Estudos Urbanísticos — o CPEU — junto à FAU-USP, instituição que se tornaria um polo de formação de quadros técnicos e de produção de conhecimento sobre as metrópoles brasileiras, especialmente durante a ebulição urbanística dos anos 1950 e 1960. Acumulou ainda as funções de diretor da Escola Politécnica (1930), diretor da Faculdade de Filosofia da USP (1941), presidente da Comissão da Cidade Universitária (1948) e vice-reitor da USP (1954). Publicou obras de referência como Problemas de Urbanismo (1929), O Plano Regional de São Paulo (1954) e Urbanismo Positivo e Urbanismo Negativo: As Modernas Cidades Inglesas (1955).
A filosofia urbanística que defendia era ao mesmo tempo técnica e humanista. Não pretendia negar a metrópole nem deter seu crescimento, mas intervir nos processos de concentração demográfica e industrial que geravam desigualdade. Acreditava que o urbanista tinha o dever de adequar a cidade à "escala humana" — reduzindo distâncias entre moradia, trabalho e lazer, tornando a vida coletiva mais digna e agradável. Influenciado pela prática urbanística americana, advogava pela elaboração de planos reguladores e pela regulamentação específica para desapropriações urbanas, instrumentos que enxergava como indispensáveis à gestão racional das cidades.
Luís Inácio Romeiro de Anhaia Melo morreu em São Paulo em 16 de janeiro de 1974, no mesmo dia em que morreu Aldo Bonadei — uma coincidência histórica que reuniu dois nomes fundamentais da modernidade cultural paulistana. A biblioteca da FAU-USP, criada junto com a faculdade em 1948, tornou-se uma das mais importantes bibliotecas universitárias da América Latina na área de arquitetura, urbanismo e design, guardando entre seus acervos a memória do homem que sonhou com uma cidade à medida do ser humano.
