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Museu Afro-Brasileiro

Museu cultural em Salvador, Bahia

4 min01/01/2024
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No coração histórico de Salvador, numa cidade que carrega mais do que qualquer outra no Brasil as marcas profundas da diáspora africana, existe uma instituição que se dedica a preservar, estudar e divulgar essa herança: o Museu Afro-Brasileiro, conhecido pela sigla MAFRO. Inaugurado em 7 de janeiro de 1982, o museu nasceu de um esforço coletivo que envolveu diferentes esferas do poder público e da academia. A cerimônia de abertura foi conduzida pela então diretora do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia, Yeda Pessoa de Castro, uma linguista pioneira no estudo das línguas africanas no Brasil. Sua fundação foi fruto de um acordo formal entre os Ministérios das Relações Exteriores e da Educação e Cultura do Brasil, o governo do estado da Bahia, a prefeitura de Salvador e a própria universidade, demonstrando desde o início o caráter institucional e o compromisso político com a memória afrodescendente.

O MAFRO é um órgão suplementar da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, mas ocupa fisicamente um espaço pertencente a outra unidade acadêmica: a Faculdade de Medicina da Bahia. Essa faculdade histórica está localizada no Terreiro de Jesus, no Centro Histórico de Salvador, uma área tombada como Patrimônio Mundial pela UNESCO e que já em si é um testemunho vivo da formação colonial e afro-brasileira da cidade. Caminhar pelo Terreiro de Jesus é atravessar séculos de história, e o museu ali inserido funciona como uma âncora da memória africana no tecido urbano mais antigo do país.

A figura de Pierre Verger é inseparável da história do MAFRO. Fotógrafo e pesquisador francês naturalizado brasileiro, Verger dedicou décadas de sua vida a documentar e compreender as conexões culturais entre o oeste africano e o Brasil, especialmente a Bahia. Ele foi o primeiro organizador do museu, trazendo para a instituição o rigor etnográfico e a perspectiva de quem havia percorrido as rotas da diáspora em ambas as direções. Seu trabalho no MAFRO representou o encontro entre a erudição europeia e a profunda imersão nas culturas afro-brasileiras, resultando numa curadoria que ia muito além do exótico ou do folclórico para alcançar a complexidade real dessas civilizações.

O acervo do MAFRO é rico e diversificado, cobrindo desde objetos ligados ao trabalho e à tecnologia de origem africana até peças relacionadas à arte e às práticas religiosas. Entre as peças de maior impacto estão os objetos ligados ao candomblé, a religião de matriz africana mais enraizada na Bahia, que preservou na diáspora elementos das tradições religiosas iorubás, fon e banto trazidas pelos escravizados através do Atlântico. A coleção inclui instrumentos rituais, vestimentas sagradas, representações de divindades e objetos de culto que permitem ao visitante compreender a sofisticação espiritual e simbólica dessas tradições.

A peça que talvez seja a mais impressionante do museu, e que confere ao MAFRO um lugar único no panorama museológico brasileiro, é o conjunto de 27 painéis em cedro esculpidos pelo artista Jorge Amado de Oliveira Caldas, internacionalmente conhecido pelo pseudônimo Carybé. Nascido na Argentina mas profundamente ligado à Bahia e ao candomblé, Carybé passou décadas se dedicando a representar artisticamente os orixás, as divindades do panteão afro-brasileiro, tornando-se um dos maiores intérpretes visuais dessa religiosidade. Os 27 painéis instalados no MAFRO representam os orixás do candomblé baiano, cada um com suas características, símbolos, cores e atributos específicos. Em madeira de cedro esculpida com maestria, Carybé transformou a teologia afro-brasileira em arte monumental, criando uma das obras mais significativas da cultura brasileira do século XX.

A proposta institucional do MAFRO vai além da simples exposição de objetos. Desde sua fundação, o museu se propõe a ser um centro ativo de defesa e divulgação da cultura afro-brasileira, contribuindo para combater o apagamento histórico sofrido pela população negra e para valorizar as contribuições africanas à formação cultural do Brasil. Essa missão tem dimensão política evidente num país onde a herança escravista ainda produz desigualdades profundas e onde a memória africana foi sistematicamente subestimada ou distorcida por séculos de colonialismo cultural.

O museu também serve como espaço de pesquisa acadêmica, integrado que está à estrutura da Universidade Federal da Bahia. Pesquisadores de diversas áreas, desde a antropologia e a história até as artes e a linguística, encontram no acervo do MAFRO material primário inestimável para compreender a formação afro-brasileira. Essa articulação entre preservação do patrimônio, pesquisa científica e educação pública distingue o MAFRO de um simples repositório de objetos e o posiciona como um agente ativo na produção e transmissão do conhecimento sobre as culturas africanas e afro-brasileiras.

Localizado numa das cidades que mais preservou as tradições africanas no Brasil, cercado pela arquitetura colonial do Centro Histórico e próximo a terreiros, igrejas barrocas e mercados populares que misturam o sagrado africano ao cotidiano urbano, o Museu Afro-Brasileiro ocupa um lugar simbólico e físico de enorme significado. Ele é, ao mesmo tempo, um arquivo da memória da diáspora, um espaço de afirmação identitária e um convite permanente à compreensão das raízes profundas que conectam o Brasil ao continente africano.

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