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Dimitri Sensaud de Lavaud

Inventor e aviador brasileiro

7 min01/01/2024
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Dimitri Sensaud de Lavaud é um dos maiores inventores da história que o Brasil praticamente esqueceu. Nascido em 18 de setembro de 1882 na cidade espanhola de Valladolid, filho do Barão Evariste Sensaud de Lavaud, engenheiro cerâmico e nobre francês oriundo da região do Limousin, e de Alexandrine Bogdanoff, de ascendência russa, Dimitri carregava no sangue uma mistura de culturas e uma herança intelectual que moldaria sua trajetória extraordinária. O pai conheceu a mãe russa nas imediações do Mar Negro, durante uma de suas inúmeras viagens profissionais pela Europa e pelo Oriente. Antes de se fixar em Valladolid, onde montou uma fábrica de cerâmica e uma fazenda, o Barão Evariste havia residido na Turquia, na Suíça e na Grécia, deixando rastros de empreendimentos industriais em cada paragem.

A família chegou ao Brasil em 1898, quando Dimitri tinha 16 anos, estabelecendo-se na então vila de Osasco, nos arredores de São Paulo, atraída pelas oportunidades de negócios que a região oferecia no início da industrialização brasileira. Foi nesse ambiente de efervescência econômica que o jovem Dimitri começou a desenvolver suas aptidões. Autodidata por vocação e necessidade, ele absorveu sozinho conhecimentos de engenharia que geralmente exigiam anos de formação acadêmica formal. Sua curiosidade era insaciável: além dos livros técnicos, cultivava o futebol, o xadrez, a esgrima, a equitação e realizava travessias náuticas pelo Rio Tietê, de Osasco até São Paulo, em embarcações construídas com as próprias mãos. Esse hábito de construir o que precisava, sem depender de terceiros, seria a marca de toda a sua vida criativa.

Desde a adolescência, Dimitri acompanhou com fascinação os experimentos com balões que eram realizados na França, sua terra natal por direito sanguíneo. Havia uma circunstância que aguçava ainda mais seu interesse: as mais importantes pesquisas de aviação naquela época eram conduzidas por um brasileiro, Alberto Santos Dumont. Isso certamente despertou no jovem Dimitri a convicção de que um homem determinado, sem os recursos de uma grande nação industrial, poderia contribuir para o avanço da humanidade voadora. Aos 26 anos, já no início do século XX, ele começou a realizar projetos e cálculos para realizar seu sonho mais ambicioso: projetar e construir um avião.

O resultado desse trabalho solitário e obstinado foi o aeroplano batizado de "São Paulo", que Dimitri Sensaud de Lavaud projetou, construiu e pilotou com suas próprias mãos. Em 7 de janeiro de 1910, em Osasco, o aparelho levantou voo, realizando o que os registros históricos consideram o primeiro voo de uma aeronave na América Latina. Esse feito, que deveria ter consagrado Dimitri como um dos grandes pioneiros da aviação mundial, foi em grande medida ignorado pela historiografia brasileira e internacional, enterrado sob décadas de silêncio e esquecimento. Enquanto Santos Dumont era celebrado no Brasil e na França, Dimitri permanecia na obscuridade, apesar de ter atingido a mesma fronteira do possível humano.

Mas a aviação era apenas uma das frentes de atuação desse inventor prodígioso. Entre as suas contribuições mais significativas para a engenharia industrial está a invenção do processo de fundição centrífuga para tubos metálicos, uma técnica que revolucionou a fabricação de tubulações ao eliminar soldas e pontos de fraqueza, tornando os tubos mais resistentes e uniformes. Esse processo foi adotado industrialmente em vários países e continua sendo a base de segmentos inteiros da indústria metalúrgica até hoje. Nessa área, como em outras, Dimitri não era um teórico: era um inventor que entendia a aplicação industrial de cada ideia.

Outra contribuição de impacto duradouro foi o pioneirismo no desenvolvimento de uma transmissão automática para automóveis, uma tecnologia que Dimitri concebeu e patenteou décadas antes de se tornar padrão nos veículos modernos. O automóvel que projetou reunia inovações notáveis para a época: câmbio automático, volante ajustável e chassis em liga de alumínio, muito mais leve do que o aço convencional. Dois de seus livros sobre dinâmica automotiva, publicados em 1927 — "Les vitesses critiques d'une voiture automobile" e "Dandinement, shimmy et pseudo-shimmy d'une voiture automobile" —, foram posteriormente mencionados pela NASA como trabalhos de relevância e inteligência excepcionais, o que demonstra que seu rigor intelectual transcendia as fronteiras do tempo e das disciplinas.

Na aviação, suas contribuições foram além do primeiro voo. Dimitri desenvolveu a hélice de passo variável, mecanismo que permite ajustar o ângulo das pás durante o voo para otimizar a eficiência em diferentes condições, e trabalhou em um dos primeiros motores turbojato funcionais do mundo, desenvolvido em 1937, quando a aviação a jato ainda estava em sua infância. Ao longo de toda a sua vida, registrou mais de 1.200 patentes em diversas áreas do conhecimento, um número que coloca seu nome ao lado dos maiores inventores da história moderna, embora poucos o reconheçam assim.

Em 1916, Dimitri naturalizou-se brasileiro. Pouco depois, transferiu-se para o Canadá por alguns anos, antes de se estabelecer definitivamente na França a partir dos anos 1920, onde continuou sua atividade inventiva. A vida que parecia transcorrer entre laboratórios e escritórios de patentes teve um capítulo sombrio durante a Segunda Guerra Mundial. Dimitri foi preso injustamente na França sob acusação de colaboracionismo com os alemães, uma acusação que o mergulhou na humilhação e no sofrimento. Foi apenas com a intervenção da diplomacia brasileira que ele conseguiu provar sua inocência e ser libertado, mas o episódio comprometeu seus últimos anos.

O Barão Evariste Sensaud de Lavaud, pai de Dimitri, faleceu em Santos em 2 de outubro de 1913, conforme noticiado pelo Correio Paulistano na edição seguinte. Dimitri estava com 31 anos quando perdeu o pai, tendo já dado seus primeiros e fundamentais passos como inventor. Ele próprio faleceu em Paris em 21 de abril de 1947, aos 64 anos, com seus restos mortais descansando na França. Uma biografia em francês, "Dimitri Sensaud de Lavaud: Un ingénieur extraordinaire", publicada por Alain Cerf em 2009 com farta documentação e fotografias, é uma das poucas obras dedicadas a resgatar sua memória.

O nome de Dimitri Sensaud de Lavaud permanece estranhamente ausente dos livros didáticos brasileiros e das narrativas sobre pioneiros da aviação e da engenharia mundial. Um homem que realizou o primeiro voo da América Latina, que inventou processos industriais ainda em uso no século XXI, que antecipou tecnologias automotivas e aeronáuticas décadas antes de sua adoção universal, merece ocupar um lugar de destaque na história da ciência e da inovação. O Brasil tem uma dívida simbólica com esse inventor extraordinário que fez história em solo brasileiro e carregou a cidadania brasileira com orgulho até o fim de sua vida.

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