tragedias

Domingo Sangrento (1905)

Massacre em São Petersburgo

5 min01/01/2024
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Nos primeiros dias de janeiro de 1905, São Petersburgo vivia uma tensão crescente. Uma greve deflagrada na fábrica Putilov em dezembro do ano anterior havia se espalhado pela cidade com velocidade impressionante, atraindo a adesão de simpatizantes de outros setores e elevando o número de trabalhadores paralisados a cerca de 80 mil pessoas. Em 8 de janeiro, a capital do Império Russo acordou sem eletricidade e sem jornais, com todas as áreas públicas declaradas fechadas pelas autoridades. O cenário era de uma cidade à beira do abismo.

Nesse clima sufocante, o padre ortodoxo russo George Gapon, que há anos se interessava pelas condições de vida das classes trabalhadoras, organizou uma procissão pacífica em direção ao Palácio de Inverno. Gapon não era um revolucionário comum: havia colaborado com Sergei Zubatov, funcionário da Okhrana — a temida polícia secreta czarista — numa tentativa de criar organizações de trabalhadores que canalizassem o descontentamento sem ameaçar o regime. Mas a petição que redigiu para apresentar ao czar Nicolau II era profundamente política. O documento pedia melhores condições de trabalho, salários justos, redução da jornada para oito horas diárias e a condenação das horas extras forçadas pelos donos das fábricas. Além das demandas trabalhistas, a petição exigia o fim da Guerra Russo-japonesa — conflito que consumia recursos e vidas — e a introdução do sufrágio universal.

Na noite anterior, o czar deixou a cidade e foi para Czarskoe Selo. Tropas foram posicionadas ao redor do Palácio de Inverno e em pontos estratégicos da capital, mas a multidão que se reunia nos pontos de concentração desconhecia tanto a ausência do czar quanto o aparato militar que a aguardava.

No domingo, 9 de janeiro de 1905, trabalhadores e suas famílias se reuniram em seis locais distintos na cidade. Conduzidos pelo padre Gapon, portavam ícones religiosos e entoavam hinos e canções patrióticas, entre elas o célebre "Deus Salve o Czar". A atmosfera era de uma procissão devocional, não de uma insurreição: tratava-se de súditos buscando audiência com o soberano, crentes de que o czar, ao ser informado de seu sofrimento, agiria em seu favor. Uma multidão estimada em mais de três mil pessoas — embora relatos da época apontem cifras bem mais elevadas, chegando a dezenas de milhares no total das concentrações — avançou sem interferência inicial em direção ao palácio.

O que se seguiu marcou para sempre a história do Império Russo. Os soldados do exército posicionados nas proximidades do palácio primeiro dispararam tiros de advertência e, em seguida, abriram fogo diretamente contra a multidão. Gapon foi alvo de tiros perto do Arco do Triunfo de Narva; cerca de quarenta pessoas ao seu redor morreram, mas ele sobreviveu ileso. A neve das ruas de São Petersburgo tingiu-se de vermelho. O pânico tomou conta dos manifestantes, e a confusão gerou mortes adicionais pelo pisoteamento. Desordem civil e saques explodiram por toda a cidade no rastro da violência.

O número exato de vítimas permanece objeto de controvérsia histórica. As autoridades czaristas assumiram oficialmente 930 mortos e 333 feridos; fontes da oposição alegavam mais de quatro mil mortos; estimativas modernas apontam para pelo menos mil pessoas entre mortos e feridos. O próprio czar Nicolau II, ao saber do ocorrido, descreveu o dia como "doloroso e triste", embora estivesse ausente da cidade e não tivesse dado a ordem para abrir fogo. Isso não impediu que toda a culpa recaísse sobre ele perante a opinião pública.

A repercussão foi imediata e devastadora para a legitimidade do regime. A imagem do czar como "pai do povo" — cultivada por séculos de tradição política russa — foi irreparavelmente destruída naquele domingo. O embaixador britânico classificou o evento como um impulso poderoso para as atividades revolucionárias no país. O escritor Liev Tolstói foi profundamente abalado pelo episódio. Gapon, que havia escapado milagrosamente, deixou a Rússia às pressas. Ao retornar em outubro, foi assassinado por ordem da Organização de Combate do Partido Social-Revolucionário, depois que revelou a um amigo estar trabalhando como informante da Okhrana.

O Domingo Sangrento é considerado pelos historiadores o estopim direto da Revolução Russa de 1905, que se desdobraria ao longo daquele ano em greves, motins e insurreições por todo o império, culminando no Manifesto de Outubro, pelo qual Nicolau II foi forçado a conceder uma constituição e um parlamento. Estudiosos como Lionel Kochan, em seu livro sobre a Rússia em revolução, argumentam que os acontecimentos daquele 9 de janeiro foram também peças fundamentais na cadeia de eventos que levaria à grande Revolução de 1917, quando a dinastia Romanov seria varrida do poder definitivamente. O massacre que começou como uma procissão de fé se transformou na faísca que incendiaria um império.

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