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Aldo Bonadei

Pintor brasileiro

4 min01/01/2024
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Na São Paulo dos anos 1930, uma cidade que crescia às pressas entre chaminés de fábricas e cafés fervilhantes de debates, surgiu um grupo de pintores que transformaria o modo de enxergar a arte brasileira. O Grupo Santa Helena, formado em sua maioria por imigrantes e filhos de imigrantes que trabalhavam como artesãos durante o dia e pintavam à noite, tinha entre seus membros um nome que se destacava pela formação mais erudita: Aldo Cláudio Filipe Bonadei, nascido em São Paulo em 17 de junho de 1906, numa família descendente de imigrantes italianos de classe média.

Bonadei não era apenas pintor. Desde jovem, demonstrou interesse disperso e fértil por diferentes linguagens: a poesia o atraía tanto quanto a tela, e o teatro e a moda também faziam parte do seu universo criativo. Essa multiplicidade viria a definir uma carreira que cruzou os limites das artes visuais com naturalidade e consistência, tornando-o uma das personalidades mais complexas da cena modernista paulistana.

Sua formação artística começou sob orientação rigorosa. Entre 1923 e 1928, foi aluno de desenho do pintor Pedro Alexandrino Borges, artista respeitado no ambiente acadêmico paulista, paralelamente frequentando o ateliê do pintor Antonio Rocco. Eram tempos de aprendizado metodizado, de domínio do traço e da composição antes de qualquer experimentação. Em 1929, um encontro decisivo: tornou-se amigo de Amadeo Scavone, professor de arte que ampliaria seu horizonte intelectual.

O mergulho mais profundo na tradição europeia veio entre 1930 e 1931, quando Bonadei viajou à Itália para estudar na Academia de Belas Artes de Florença. Ali, trabalhou com o pintor Felice Carena e seu assistente Ennio Pozzi, ambos ligados ao movimento novecento — corrente que, na Itália do período entre guerras, buscava reconciliar a modernidade com a tradição clássica. Bonadei dedicou-se intensamente ao desenho da figura humana, especialmente ao nu, desenvolvendo um rigor formal que distinguiria seu trabalho dos colegas do Grupo Santa Helena, muitos dos quais tinham formação predominantemente autodidata.

De volta ao Brasil no início dos anos 1930, integrou-se ao Grupo Santa Helena com a postura de quem trazia bagagem europeia sem perder o olhar sobre o cotidiano paulistano. O grupo se reunia no edifício Santa Helena, no Largo do Paiçandu, e desenvolvia uma pintura voltada para temas urbanos e suburbanos: paisagens de bairro operário, retratos de gente simples, cenas domésticas desprovidas de glamour. Bonadei participou também da Família Artística Paulista e do Sindicato dos Artistas Plásticos, comprometendo-se com a organização coletiva da classe.

Entre 1939 e 1941, integrou o Grupo Cultura Musical, criado pelo psiquiatra Adolpho Jagle, que promovia reuniões de artistas e intelectuais em torno de debates culturais e experiências estéticas. Foi nesse período que Bonadei começou a explorar a abstração, dando os primeiros passos em direção a uma linguagem que romperia com a figuração que marcara sua formação. Essas experiências iniciais com o abstrato o colocariam, mais tarde, entre os pioneiros da arte abstrata no Brasil — contribuição que só ganhou pleno reconhecimento com o distanciamento histórico.

A atividade docente foi outro eixo central de sua vida. Em 1949, passou a lecionar na Escola Livre de Artes Plásticas, a primeira escola de arte moderna de São Paulo, e no mesmo período participou do Grupo Teatro de Vanguarda. Em 1950, deu um passo empreendedor ao fundar, junto com Odetto Guersoni e Bassano Vaccarini, a Oficina de Arte — a O. D. A. —, espaço que visava reunir ensino e produção artística numa perspectiva experimental.

Nos anos finais da década de 1950, Bonadei expandiu sua atuação para o campo dos figurinos teatrais e cinematográficos. Assinou os figurinos para as peças Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, e Casamento Suspeitoso, de Ariano Suassuna, ambas encenadas pela Companhia Nydia Lícia-Sérgio Cardoso. A escolha não era casual: figurinos teatrais exigem sensibilidade para a dramaticidade, para a forma e para a narrativa visual — competências que Bonadei acumulara ao longo de décadas de trabalho plástico. No cinema, desenhou figurinos para dois filmes dirigidos por Walter Hugo Khoury: Fronteiras do Inferno, de 1958, e Na Garganta do Diabo, de 1959.

Aldo Bonadei morreu em São Paulo em 16 de janeiro de 1974, encerrando uma trajetória de quase cinquenta anos de produção ininterrupta. Sua obra ocupa lugar singular na história da arte brasileira: formado nos rigores da Academia europeia, ele cruzou esse aprendizado com a experiência coletiva do Grupo Santa Helena e com a inquietação experimental que o levou à abstração. Não foi um revolucionário ruidoso, mas um artista meticuloso que avançou por dentro das formas, expandindo seus limites sem jamais perder o senso de ofício.

Seu papel como um dos pioneiros da arte abstrata no Brasil é hoje reconhecido como uma das contribuições mais consistentes da modernidade artística paulistana. Numa cena dominada por nomes como Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti, Bonadei construiu um percurso mais silencioso, porém igualmente necessário — o do artista que amadurece lentamente, acumula linguagens e termina por abrir caminhos que outros percorreriam depois.

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