biografias

Sócrates

Filósofo grego do século V a.C.

6 min de leitura01/01/2024
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Nascido por volta de 470 a.C. no demo de Alópece, nos arredores de Atenas, Sócrates cresceu num período de efervescência intelectual e política que moldaria toda a civilização ocidental. Filho de Sofronisco, um escultor, e de Fainarete, uma parteira, ele aprendeu desde cedo o ofício do pai, embora os relatos antigos sugiram que suas mãos nunca foram muito habilidosas com o mármore. O que realmente o distinguia, mesmo na juventude, era uma curiosidade insaciável sobre a natureza das coisas e a condição humana.

Ao contrário dos sofistas de seu tempo, que cobravam generosamente por suas lições e se apresentavam como depositários do conhecimento, Sócrates recusava remuneração e declarava, com desconcertante insistência, que nada sabia. Essa aparente modéstia escondia, na verdade, um método revolucionário: em vez de proclamar verdades, ele fazia perguntas. Nas praças públicas, nos ginásios e nos mercados de Atenas, abordava generais, poetas, artesãos e políticos, interrogando-os sobre conceitos que imaginavam dominar completamente — o que é a coragem, o que é a justiça, o que é a piedade. Com frequência, ao fim do diálogo, o interlocutor descobria que suas certezas eram ilusórias.

Esse procedimento ganhou o nome de elenchus, ou método socrático. Seu funcionamento consistia numa sequência de perguntas e refutações que levava o outro a contradizer suas próprias afirmações, revelando inconsistências e abrindo espaço para uma compreensão mais genuína. Vinculado a isso estava o que Sócrates chamava de maiêutica, em referência direta ao ofício de sua mãe: assim como a parteira não gera o bebê mas auxilia no parto, o filósofo não implantava o saber no outro, mas ajudava o conhecimento a emergir de dentro do próprio interlocutor.

Na vida pessoal, Sócrates era casado com Xântipe, descrita pelas fontes antigas como temperamental e muito mais jovem do que ele. Juntos tiveram um filho chamado Lamprocles. Existem discussões entre os estudiosos sobre se Sócrates teria tido uma segunda companheira chamada Mirto, com quem teria gerado mais dois filhos, Sofronisco e Menexeno. Seja como for, a família ocupava um lugar secundário em sua existência; o verdadeiro lar de Sócrates eram as ruas e praças de Atenas.

Sua aparência física era, por todos os registros, o oposto do ideal grego: olhos salientes, nariz achatado, lábios grossos e uma barriga proeminente. Ele próprio fazia piadas a respeito disso. Mas seu poder de persuasão e a intensidade de seu olhar fascinavam a todos que se aproximavam. O jovem Alcibíades, um dos políticos mais brilhantes e controversos de Atenas, confessou que as palavras de Sócrates o comoviam como nada mais conseguia fazer.

Ao longo dos anos, Sócrates serviu ao exército ateniense em algumas das campanhas mais dramáticas da época, incluindo as batalhas de Potideia, Delium e Anfípolis, nas quais demonstrou tanto coragem física quanto equanimidade diante do perigo. Era capaz de suportar o frio descalço sobre a neve, passar noites inteiras em meditação imóvel e resistir ao vinho enquanto todos ao seu redor ficavam embriagados. Essa resistência às condições do mundo físico era, para ele, uma extensão natural do autodomínio filosófico.

O problema com Sócrates era precisamente o que o tornava extraordinário: ele não respeitava as convenções intelectuais nem as autoridades estabelecidas. Ao questionar publicamente a sabedoria de líderes e figuras respeitadas, acumulou inimigos poderosos. Em 399 a.C., quando tinha cerca de setenta anos, foi formalmente acusado por Meleto, Ânito e Lícon de impiedade religiosa — mais especificamente, de não reconhecer os deuses da cidade e de introduzir novas divindades — e de corromper a juventude ateniense.

O julgamento diante de um júri de quinhentos cidadãos foi um dos momentos mais dramáticos da história intelectual antiga. Na sua defesa, conhecida como a Apologia e registrada por Platão, Sócrates não implorou misericórdia nem recuou de suas posições. Ao contrário, insistiu que sua missão filosófica era um serviço à cidade, ordenado pelo próprio oráculo de Delfos, que o havia declarado o mais sábio dos homens justamente porque ele sabia que nada sabia. O júri o condenou à morte por uma margem estreita.

Mesmo após a condenação, quando amigos e discípulos prepararam tudo para que ele fugisse de Atenas — o que seria facilmente viável —, Sócrates recusou. O argumento que apresentou a Críton e aos demais é um dos textos mais tocantes da filosofia: fugir significaria trair as leis da cidade e renegar toda uma vida de ensino sobre a obediência à justiça. Se a lei estava errada, o caminho era a persuasão, não a fuga.

Na madrugada de sua execução, cercado por amigos e alunos, Sócrates bebeu a cicuta com uma calma que perturbou profundamente os presentes. Segundo o relato de Platão no diálogo Fédon, enquanto o veneno percorria seu corpo, ele continuou a conversar sobre a imortalidade da alma com serenidade e até certo humor. Seus últimos momentos foram, segundo os testemunhos, os de um homem que vivia exatamente o que havia ensinado.

Sócrates não escreveu nada. Toda a sua influência chegou até nós filtrada pelos olhos de outros — principalmente Platão e Xenofonte, mas também o comediógrafo Aristófanes, que o ridicularizou na peça As Nuvens. Essa ausência de escritos próprios é parte do paradoxo socrático: o pai de grande parte do pensamento ocidental deixou como legado não palavras gravadas, mas um método vivo, uma forma de interrogar o mundo que inspirou dois milênios e meio de filosofia. A ironia socrática, o imperativo do autoconhecimento sintetizado no "conhece-te a ti mesmo", a ideia de que uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida — tudo isso atravessou os séculos intacto, moldando desde os estoicos gregos até os filósofos existencialistas do século XX.

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