civilizacoes perdidas

The Shard

Maior arranha-céu de Londres, Reino Unido

7 min de leitura01/01/2024
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Poucas obras de arquitetura do século XXI causaram tanta controvérsia, admiração e fascínio quanto The Shard, o arranha-céu de vidro que emerge das margens do Tâmisa em Londres como um fragmento de cristal apontado para o céu. Com seus mais de 310 metros de altura, o edifício é o mais alto da Europa Ocidental e a segunda estrutura autônoma mais alta do Reino Unido — superada apenas pela estação de transmissão de Emley Moor, com 330 metros. Mas sua importância transcende os números: The Shard redefiniu a silhueta de Londres e reabriu o debate sobre o papel dos arranha-céus em cidades históricas.

A história do edifício começa no final dos anos 1990, quando o empresário londrino Irvine Sellar e seus sócios decidiram substituir as Southwark Towers, um bloco de escritórios de 24 andares construído no local em 1976, por algo radicalmente diferente. A inspiração chegou de um livro branco publicado pelo governo britânico que incentivava a construção de edifícios altos próximos a importantes nós de transporte — e o terreno junto à Ponte London Bridge era exatamente isso: um entroncamento de metrô, trens e ônibus no coração da capital. Sellar viajou a Berlim na primavera de 2000 para se encontrar com o arquiteto italiano Renzo Piano num restaurante. Segundo o próprio Sellar, Piano manifestou seu desprezo por arranha-céus convencionais durante o jantar e, em seguida, virou o cardápio ao avesso e esboçou ali mesmo uma escultura em forma de agulha emergindo do Tâmisa. Estava concebido The Shard.

O caminho até a aprovação do projeto foi longo e litigioso. Em julho de 2002, o então vice-primeiro-ministro John Prescott ordenou uma consulta pública após forte oposição de organismos patrimoniais como a Commission for Architecture and the Built Environment, a Royal Parks Foundation e a English Heritage, preocupados com o impacto visual do novo edifício sobre o patrimônio histórico londrino. A consulta ocorreu entre abril e maio de 2003, e em novembro do mesmo ano o governo anunciou a aprovação, com uma declaração que revelava os critérios adotados: Prescott aprovaria arranha-céus apenas de design excepcional, e a qualidade arquitetônica era condição inegociável para aceitar um edifício daquele porte.

O financiamento foi o próximo obstáculo. Em setembro de 2006, Sellar e seus sócios — a CLS Holdings e a CN Ltd, representando o Halabi Family Trust — garantiram um pacote de financiamento provisório de 196 milhões de libras da Nationwide Building Society e da Kaupthing Singer & Friedlander. Isso permitiu comprar o contrato de arrendamento das Southwark Towers de seus ocupantes, a empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers, que concluiu sua mudança em 2007. A demolição do edifício predecessor começou em setembro do mesmo ano.

O mercado financeiro global quase inviabilizou o projeto. Em setembro de 2007, a turbulência nos mercados de crédito ameaçou tornar The Shard um símbolo da teoria que associa a construção de arranha-céus a picos especulativos. Em novembro daquele ano, o contrato de construção foi adjudicado à construtora Mace por um preço fixo de no máximo 350 milhões de libras — cifra que subiria para perto de 435 milhões de libras em outubro de 2008, no auge da crise financeira global. A solução veio de uma direção inesperada: em janeiro de 2008, Sellar anunciou o apoio de um consórcio de investidores do Catar que pagou 150 milhões de libras por 80% do projeto. O consórcio incluía o Qatar National Bank, o QInvest, o Qatari Islamic Bank e a Barwa Real Estate. Em 2009, o Estado do Catar consolidou sua propriedade do complexo London Bridge Quarter — que inclui The Shard — por meio da aquisição das participações dos investidores privados cataris. Hoje, o edifício pertence conjuntamente ao Estado do Catar e à Sellar Property.

A demolição das Southwark Towers foi concluída no início de 2009, e a construção propriamente dita de The Shard teve início em 16 de março de 2009. O projeto de Renzo Piano especificava uma forma triangular irregular que se afunilava da base até o topo, revestida inteiramente de vidro — daí o nome "Shard", que em inglês significa "fragmento" ou "estilhaço". Cinco guindastes foram necessários para erguer a estrutura, quatro dos quais subiam junto com o edifício conforme ele crescia. Em março de 2010, o núcleo de concreto avançava cerca de três metros por dia. Em meados de junho daquele ano, o edifício já superava em altura o Guy's Hospital, vizinho de 143 metros. Em novembro de 2010, ao ultrapassar 235 metros, The Shard encerrou os dezoito anos de reinado do One Canada Square como o edifício mais alto do Reino Unido.

A estrutura foi concluída em abril de 2012, e o edifício foi inaugurado em 5 de julho do mesmo ano. A torre possui 72 andares habitáveis, distribuídos entre escritórios, restaurantes, um hotel de cinco estrelas, apartamentos residenciais e, nos andares mais altos, um terraço panorâmico e uma galeria de observação ao ar livre — a mais elevada do Reino Unido, com vista que alcança, em dias claros, mais de 60 quilômetros de distância.

Renzo Piano, famoso por obras como o Centro Pompidou em Paris e o Museu Whitney em Nova York, projetou The Shard com a intenção de criar um edifício que parecesse mudar conforme a luz do dia. O revestimento de vidro reflete o céu e as nuvens, tornando a torre visualmente diferente a cada hora — translúcida ao amanhecer, espelhada ao meio-dia, flamejante ao pôr do sol. A forma não é uma pirâmide regular, mas uma série de facetas assimétricas que convergem sem nunca se fechar completamente no topo, deixando o pináculo deliberadamente aberto, como se o edifício se dissolvesse no ar.

A recepção crítica oscilou entre a adoração e a hostilidade. Conservadores lamentaram o impacto sobre as vistas históricas da Catedral de São Paulo e da Torre de Londres. Modernistas celebraram a ousadia. O público londrinizado, pragmático como sempre, acabou adotando o edifício como mais um elemento reconhecível da paisagem urbana — o tipo de reconciliação que toda grande obra controversa eventualmente alcança quando o debate arrefece e o objeto permanece, silencioso e imponente, sobre o rio.

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