biografias

Tarsila do Amaral

Pintora, ilustradora, cronista e tradutora brasileira

4 min de leitura20/06/2026
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Tarsila do Amaral nasceu em 1 de setembro de 1886 na cidade de Capivari, no interior do estado de São Paulo, em uma família de grandes proprietários de terras e produtores de café. Esse contexto de abundância material e relativa abertura intelectual lhe deu acesso a oportunidades raras para mulheres de sua época, e ela soube aproveitá-las com uma determinação que desafiaria os limites impostos pela sociedade brasileira do início do século XX.

Ainda adolescente, Tarsila viajou com os pais para a Espanha, onde seu talento para o desenho e a pintura logo chamou atenção. Ela chegou a frequentar a escola em Barcelona, onde se dedicava a copiar obras de arte que encontrava nos arquivos e museus locais. De volta ao Brasil, estudou com o pintor Pedro Alexandrino Borges em sua cidade natal, e mais tarde se matriculou na Académie Julian de Paris, onde conviveu com artistas europeus que a expuseram a correntes estéticas completamente diferentes das que conhecia.

A formação europeia foi decisiva, mas foi o retorno ao Brasil que transformaria Tarsila em uma artista singular. Em 1922, ao chegar a São Paulo vindo da Europa, ela foi apresentada a Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia, grupo que havia organizado, meses antes, a célebre Semana de Arte Moderna. Esse evento, realizado entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, sacudiu o ambiente artístico brasileiro ao propor uma ruptura com o conservadorismo que dominava as artes do país. Tarsila se juntou ao grupo, e juntos os cinco passaram a ser conhecidos como o Grupo dos Cinco.

O que unia esses artistas era a busca por uma identidade cultural genuinamente brasileira, que não fosse mera reprodução dos estilos europeus, mas que incorporasse elementos indígenas, populares e nacionais dentro de uma linguagem moderna. Para Tarsila, essa síntese tornaria-se obsessão criativa. Em um momento de autoconhecimento, ela escreveu para a família a partir de Paris em 1923: queria ser a pintora do Brasil, resgatar as memórias da infância na fazenda, transportar para a tela a menina que brincava com bonecas de palha. Essa declaração revelava não apenas uma ambição estética, mas uma postura política e cultural diante da arte.

Nesse período em Paris, Tarsila estudou com André Lhote, Fernand Léger e Albert Gleizes, absorvendo o cubismo, o futurismo e o expressionismo. Enquanto artistas europeus buscavam inspiração em culturas africanas e primitivas, ela voltou o olhar para o próprio Brasil. O resultado mais imediato dessa confluência foi a tela A Negra, pintada em 1923, que representa uma figura feminina negra com traços estilizados e geometrizados, em um fundo de formas abstratas. A obra marcou o surgimento de uma linguagem visual própria e corajosa.

De volta ao Brasil no final de 1923, Tarsila e Oswald de Andrade, seu companheiro à época, percorreram o país em busca de referências para a arte que queriam produzir. Esses deslocamentos forneceram matéria prima visual para muitas das pinturas subsequentes e levaram Tarsila a ilustrar o livro de poemas Pau Brasil, publicado por Oswald em 1924. O manifesto que deu nome ao livro propunha que os artistas brasileiros produzissem algo exclusivamente nacional, que pudesse ser exportado culturalmente assim como o pau-brasil o foi materialmente. Tarsila abraçou esse projeto com entusiasmo, e sua paleta de cores passou a incluir tons mais vibrantes, inspirados nas cores que ela havia amado na infância.

A fase que ficou conhecida como Pau-Brasil resultou em telas marcadas por paisagens rurais, figuras populares, vegetação tropical e uma luminosidade que raramente havia aparecido na pintura brasileira até então. Eram imagens que celebravam o Brasil sem romantizá-lo ingenuamente, mas também sem ironizá-lo. Era um olhar amoroso e ao mesmo tempo sofisticado sobre o país.

O momento de maior impacto na carreira de Tarsila viria com a pintura Abaporu, concluída em 1928 e oferecida como presente de aniversário a Oswald de Andrade. A tela representa uma figura humana desproporcionalmente grande, com pés enormes sobre o solo e um cacto ao fundo. A imagem causou um impacto imediato em Oswald, que nela viu o símbolo de um novo manifesto. Junto com a escritora Patrícia Galvão, conhecida como Pagu, ele redigiu o Manifesto Antropófago, publicado em 1928, que propunha a devoração simbólica da cultura estrangeira para transformá-la em algo novo e brasileiro. Tarsila havia, sem saber, criado a imagem fundadora de um dos movimentos estéticos mais originais da cultura brasileira do século XX.

Além da pintura, Tarsila atuou como desenhista, escultora, ilustradora, cronista e tradutora, demonstrando uma versatilidade intelectual que vai além do que sua obra visual poderia sugerir. Um dado raro e curioso sobre sua trajetória foi descoberto em novembro de 2021: uma composição musical em lá menor para voz e piano, intitulada Rondo D'Amour, atribuída a ela e datada do período entre 1913 e 1920, foi encontrada na casa de uma sobrinha-neta em Campinas. A partitura foi gravada em janeiro de 2022, revelando mais uma faceta de uma artista que nunca parou de surpreender.

Tarsila do Amaral morreu em São Paulo em 17 de janeiro de 1973, com oitenta e seis anos. Deixou uma obra que atravessa o tempo com a mesma força com que foi criada: colorida, radical, brasileira e profundamente humana. É considerada até hoje a pintora que mais profundamente soube traduzir as aspirações da identidade nacional em imagens, e uma das vozes mais originais do modernismo latino-americano.

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