tragedias

SS Laurentic (1908)

Navio britânico

7 min de leitura01/01/2024
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Na madrugada gelada de 25 de janeiro de 1917, ao norte da Irlanda, o navio de guerra britânico Laurentic encontrou seu fim de forma violenta e rápida. Duas minas navais colocadas pelo submarino alemão U-80 selaram o destino de centenas de homens que mal tiveram tempo de processar o que estava acontecendo antes de serem tragados pelo Atlântico Norte congelante. Com eles, afundou também uma das maiores cargas de ouro já transportadas por um navio de guerra, e os esforços para recuperar esse tesouro se tornariam uma das histórias de salvamento marítimo mais longas e tenaces da história.

A trajetória do Laurentic havia começado de forma muito mais promissora. Construído para a Dominion Line mas adquirido pela White Star Line antes de ser concluído, ele foi lançado ao mar em 1908 e partiu em sua viagem inaugural em 29 de abril de 1909, levando 1.057 passageiros de Liverpool para a Cidade de Quebec. O navio tinha uma particularidade técnica notável: enquanto seu navio irmão, o Megantic, foi construído com dois propulsores e motores convencionais de expansão quádrupla, o Laurentic recebeu uma configuração experimental com três hélices. Os dois propulsores externos eram acionados por motores de expansão tripla de quatro cilindros, enquanto a terceira hélice central era impulsionada por uma turbina a vapor de baixa pressão. Esse arranjo se provou mais eficiente e econômico e foi adotado nos navios da Classe Olympic, incluindo o famoso Titanic.

O Laurentic acumulou episódios memoráveis ao longo de sua carreira civil. Em 1910, ganhou notoriedade quando o inspetor-chefe Walter Dew, da Polícia Metropolitana de Londres, utilizou a velocidade do navio para chegar ao Canadá antes do suspeito de assassinato Hawley Harvey Crippen, que fugia a bordo do SS Montrose. Foi uma das primeiras capturas criminais em que o telégrafo sem fio e a velocidade dos navios modernos foram usados para interceptar um fugitivo no oceano. Em abril de 1912, o capitão John Mathias relatou ter passado próximo ao local onde o Titanic havia afundado alguns dias antes, vigiando atentamente, mas sem encontrar corpos ou destroços.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, o Laurentic foi convertido em cruzador mercante armado e equipado com sete canhões. Em outubro de 1914, ainda sob o comando do capitão Mathias, ele integrou um comboio de 32 navios que transportou 35 mil soldados canadenses para a Europa. Em dezembro do mesmo ano, partiu para Serra Leoa a fim de participar da Campanha de Kamerun, e nos anos seguintes patrulhou águas ao redor de Singapura, Rangum, Hong Kong e Halifax. O destino do capitão Mathias seria trágico: em novembro de 1916, durante a viagem de volta para Liverpool com oficiais da Marinha Canadense, ele foi acidentalmente atingido por uma viga de aço ao tentar apagar um incêndio de carvão e morreu quatro dias depois, com o crânio fraturado, dois dias antes da chegada ao porto.

Em 23 de janeiro de 1917, o Laurentic partiu de Liverpool sob o comando do novo capitão, Reginald Norton. A bordo estavam cerca de 479 passageiros, a maioria oficiais navais, além de uma carga secreta: aproximadamente 43 toneladas de barras de ouro destinadas a financiar a compra de munições no Canadá e nos Estados Unidos. Em 25 de janeiro, o navio fez uma parada não programada na base naval de Buncrana, na Irlanda, para desembarcar quatro passageiros com sintomas de febre amarela. Ao anoitecer, levantou âncora em direção ao Farol de Fanad, onde seria escoltado por um contratorpedeiro. O tempo estava rigoroso e uma nevasca comprometia a visibilidade, mas o capitão Norton decidiu avançar sem a escolta, mesmo diante de relatos de que um submarino alemão havia sido avistado na região.

A decisão custaria caro. Menos de uma hora depois de sair de Buncrana, o navio atingiu duas minas colocadas pelo U-80. Uma delas explodiu próximo à sala de máquinas, cortando a energia do navio e fazendo-o tombar 20 graus. A combinação de escuridão e forte inclinação tornou quase impossível baixar os botes salva-vidas em ordem. Sem energia, as bombas de porão eram inúteis e o navio afundou em menos de uma hora.

Os sobreviventes que conseguiram embarcar nos botes enfrentaram temperaturas que chegavam a 13 graus negativos. Muitos remaram em direção ao Farol de Fanad, enquanto outros eram resgatados por barcos de pesca locais. Na manhã seguinte, encontraram-se cenas de horror: homens congelados até a morte em seus botes, com as mãos ainda agarradas aos remos. Dos 475 passageiros a bordo no momento do naufrágio, apenas 121 sobreviveram e 354 pereceram.

A recuperação do ouro tornou-se uma obsessão britânica que durou décadas. Uma equipe de mergulhadores iniciou os trabalhos ainda durante a guerra, operando em condições extremamente difíceis. O naufrágio a uma profundidade razoável e o deslizamento progressivo das barras no interior do casco tornaram o trabalho lento e perigoso. A maior parte do ouro foi recuperada ao longo dos anos, mas em 2017 ainda restavam 20 barras no fundo do mar, silencioso testemunho de uma noite de janeiro em que a guerra e o inverno se uniram para apagar centenas de vidas com a eficiência brutal que define os grandes naufrágios da história.

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