Nas primeiras horas da manhã de 6 de fevereiro de 2023, enquanto a maioria das pessoas dormia, o sul e o centro da Turquia e o norte e o oeste da Síria foram sacudidos por uma sequência sísmica de devastação histórica. Às 04h17 do horário local, um tremor de magnitude 7,8 na escala momento começou a rasgar o solo a 34 quilômetros a oeste da cidade de Gaziantepe. A terra não parou de se mover por longos segundos que pareceram eternidade para quem estava acordado, e muitos não chegaram a acordar.
A geologia da região é complexa e há muito conhecida como zona de alto risco sísmico. A área fica nas proximidades de uma junção tripla entre as placas tectônicas da Anatólia, da Arábia e da África. A Falha Oriental da Anatólia, uma falha transformante de 700 quilômetros de comprimento, separa as placas da Anatólia e da Arábia e acumula tensões ao longo de séculos. Registros históricos mostram grandes terremotos nessa zona em 1789, 1795, 1872, 1874, 1875, 1893 e 2020, cada qual rompendo segmentos individuais da falha. Os segmentos Pazarcık e Amanos, envolvidos no evento de fevereiro de 2023, apresentam intervalos de recorrência que variam de 237 a 917 anos para sismos de magnitude 7,0 a 7,4, o que indica que uma longa acumulação de energia estava prestes a ser liberada.
O primeiro sismo foi registrado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos com magnitude 7,8, igualando o terremoto de Erzinjane de 1939 como o mais forte já documentado na história da Turquia. A ruptura estimada pelos especialistas se estendeu por aproximadamente 190 quilômetros de comprimento e 25 quilômetros de largura, embora alguns pesquisadores tenham sugerido que a fratura pode ter atingido mais de 300 quilômetros. A intensidade máxima na escala de Mercalli chegou ao grau XII, o mais alto possível. Os tremores foram sentidos a centenas de quilômetros de distância, em Israel, Líbano, Chipre e ao longo da costa turca do Mar Negro.
Cerca de nove horas após o primeiro impacto, a região foi atingida por um segundo sismo de magnitude 7,7, com epicentro a poucos quilômetros de Ekinözü, na província de Kahramanmaraş. Esse segundo evento rompeu ao longo de uma falha distinta, com dimensões estimadas de 120 quilômetros de comprimento e 18 quilômetros de largura. A sequência sísmica completa foi acompanhada por mais de 2.100 réplicas, várias delas de magnitude suficiente para causar danos adicionais a estruturas já enfraquecidas.
A destruição foi generalizada e brutal. Cidades como Gaziantepe, Kahramanmaraş, Adıyaman, Hatay e Malatya viram edifícios inteiros desabar em questão de segundos. A arquitetura local, em muitos casos, não estava preparada para absorver tremores dessa magnitude, e prédios residenciais se transformaram em pilhas de concreto e ferro. Na Síria, já devastada por anos de guerra civil, as cidades de Alepo, Latakia, Hama e Idlib sofreram colapsos adicionais sobre uma infraestrutura que já estava comprometida.
O esforço de resgate foi dificultado por uma tempestade de inverno que sobrepôs neve e frio intenso às ruínas. Temperaturas congelantes criaram um risco adicional de hipotermia para os sobreviventes presos sob os escombros, tornando cada hora de espera mais perigosa. Equipes de busca e salvamento de dezenas de países chegaram à região para ajudar as autoridades locais, que rapidamente se viram sobrecarregadas pela escala da catástrofe.
Até 9 de março de 2023, mais de 52 mil mortes haviam sido confirmadas: mais de 46 mil na Turquia e mais de 6 mil na Síria. Pelo menos outras 129 mil pessoas foram feridas. O número de desabrigados chegou a centenas de milhares, forçando a instalação de campos de emergência em meio ao inverno rigoroso. Os danos materiais na Turquia foram estimados em 100 bilhões de dólares, tornando o evento o quarto mais custoso em termos de destruição material na história sísmica registrada.
O contexto histórico da região ajuda a compreender a magnitude do que ocorreu. Alepo, na Síria, foi devastada por grandes terremotos em 1138 e em 1822; este último matou entre 20 mil e 60 mil pessoas. Em 1114, a cidade de Marash sofreu um terremoto que matou 40 mil. A memória geológica do território era, portanto, uma memória de catástrofes repetidas, e os registros mostravam que aquela falha já havia matado centenas de milhares de pessoas ao longo dos séculos.
A resposta internacional foi rápida em mobilização, mas enfrentou os obstáculos práticos de uma logística complexa em terreno destruído. Países de todos os continentes enviaram equipes de resgate, equipamentos e doações. A comunidade científica aproveitou o evento para aprofundar estudos sobre a falha anatoliana, especialmente sobre os segmentos que ainda não haviam rompido recentemente e que poderiam concentrar tensão acumulada. O sismo de 2023 foi o mais letal no mundo desde o terremoto no Haiti de 2010, que matou mais de 200 mil pessoas.
O evento deixou marcas profundas na política e na sociedade turca. Debates sobre corrupção na construção civil, descumprimento de normas antisísmicas e falhas na gestão de emergências ocuparam os jornais e as ruas durante meses. A tragédia ocorreu em momento politicamente sensível, poucos meses antes das eleições presidenciais turcas, e a resposta governamental foi objeto de intenso escrutínio. Para além da política, ficou o luto de uma região que perdeu em poucas horas o que havia construído em gerações.


