Nos anos que se seguiram à devastação da Primeira Guerra Mundial, a comunidade internacional se viu diante de uma pergunta urgente: como garantir que tamanha tragédia jamais se repetisse? A resposta tomou forma em Versalhes, nos arredores de Paris, onde em 28 de abril de 1919 as potências vencedoras reuniram-se para negociar os termos do pós-guerra. Desse encontro nasceu a ideia de uma organização capaz de arbitrar conflitos e preservar a paz — a Sociedade das Nações, também conhecida internacionalmente pelo nome inglês League of Nations.
A proposta que deu vida à organização havia sido esboçada meses antes, em 8 de janeiro de 1918, quando o presidente americano Woodrow Wilson enviou ao Congresso dos Estados Unidos uma mensagem que ficaria conhecida como os Quatorze Pontos. O documento propunha bases para a reorganização das relações internacionais no pós-guerra, e seu último ponto previa especificamente a criação de uma associação geral de nações. Wilson se tornou o grande defensor da Sociedade, e seu envolvimento pessoal nas negociações de Versalhes foi intenso. Em 28 de junho de 1919, o Tratado de Versalhes foi assinado, e os seus trinta primeiros artigos constituíam o Pacto da Sociedade das Nações, que naquele dia recebeu a adesão de 44 Estados.
A ironia maior dessa fundação foi justamente o papel dos próprios Estados Unidos. Woodrow Wilson, o maior entusiasta da organização, viu o Senado de seu país recusar-se a ratificar o Tratado de Versalhes, impedindo a adesão americana ao organismo que ele havia ajudado a conceber. A ausência de uma das maiores potências mundiais comprometeu a credibilidade e o alcance da Sociedade desde o início. Outros países também ficaram de fora da criação: Alemanha, Turquia e a União Soviética foram inicialmente excluídas. A Alemanha só ingressou em setembro de 1926, após o Tratado de Locarno de 1925. A URSS e a Turquia aderiram somente em 1934. Os Estados Unidos nunca se tornaram membros plenos, participando apenas de organismos afiliados.
O Conselho da Sociedade das Nações se reuniu pela primeira vez em Paris em 16 de janeiro de 1920, apenas seis dias após a entrada em vigor do Tratado de Versalhes. Poucos meses depois, em novembro de 1920, a sede da organização transferiu-se para Genebra, na Suíça, cidade que se tornaria sinônimo de diplomacia internacional ao longo do século. A estrutura da Sociedade compreendia quatro órgãos principais: o Secretariado, chefiado por um Secretário-Geral e responsável pela administração cotidiana; o Conselho, que atuava como poder executivo e começou com quatro membros permanentes — Inglaterra, França, Itália e Japão — além de membros rotativos com mandato de três anos; a Assembleia, aberta a todos os membros, na qual cada Estado tinha direito a até três representantes e um voto; e o Tribunal Permanente de Justiça Internacional. Qualquer ação exigia votação unânime no Conselho e maioria na Assembleia, o que tornava as decisões difíceis de alcançar.
Os idiomas oficiais eram o francês, o inglês e, a partir de 1920, o espanhol. Uma proposta curiosa ganhou fôlego nos primeiros anos: a adoção do esperanto como idioma de trabalho. Em 1921, Lord Robert Cecil sugeriu seu ensino nas escolas públicas dos países-membros. Um relatório encomendado sobre o tema foi apresentado dois anos depois recomendando exatamente isso, e onze delegados o apoiaram. A resistência mais contundente veio da França, cujo delegado Gabriel Hanotaux argumentou que o francês já desempenhava o papel de língua internacional e não deveria ser preterido. A proposta não avançou.
A Sociedade também nunca adotou um símbolo oficial. Um concurso internacional realizado em 1929 não chegou a uma conclusão aceita pelos membros. Somente em 1939, às vésperas de sua dissolução efetiva, surgiu um emblema semioficial: duas estrelas de cinco pontas dentro de um pentágono azul, representando os cinco continentes e as cinco raças da humanidade, com o nome da organização em inglês e francês. Esse símbolo foi usado na Feira Mundial de Nova Iorque de 1939 e 1940, mas nunca ganhou o status oficial que jamais foi concedido.
A Sociedade conseguiu alguns êxitos em sua fase inicial, mediando disputas menores e estabelecendo normas de cooperação internacional em áreas como saúde pública, trabalho e comunicações. Contudo, sua incapacidade de agir com eficácia diante das grandes crises da década de 1930 foi sua condenação. Quando Adolf Hitler iniciou a rearmamento alemão em violação ao Tratado de Versalhes e, posteriormente, desencadeou a Segunda Guerra Mundial em setembro de 1939, ficou evidente que a organização havia fracassado em seu objetivo central. Ela se tornou letra morta por volta de 1942, ainda que formalmente existisse.
Em 18 de abril de 1946, a Sociedade das Nações realizou sua última sessão em Genebra, transferindo formalmente suas responsabilidades, ativos e experiência institucional para a recém-criada Organização das Nações Unidas. A ONU, fundada em 1945, incorporou as lições do fracasso de seu predecessor e tentou corrigir suas falhas estruturais, dotando o Conselho de Segurança de mecanismos de coerção mais robustos. A Sociedade das Nações permanece na história como a primeira tentativa concreta de criar um governo mundial multilateral, uma ideia imperfeita em sua execução, mas revolucionária em sua concepção.
