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Guerra dos Segadores

A Guerra dos Segadores ou Sublevação da Catalunha foi um conflito bélico originado de uma

4 min de leitura01/01/2024
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A Catalunha do início do século XVII era um principado com tradições jurídicas e instituições próprias, inserido numa monarquia espanhola que buscava cada vez mais recursos humanos e financeiros para sustentar as guerras que travava na Europa. A longa conflagração conhecida como Guerra dos Trinta Anos, iniciada em 1618 e que engolfou praticamente todo o continente, colocou sobre os ombros das populações periféricas da coroa espanhola um fardo crescente de impostos, requisições e alojamentos forçados de soldados. Na Catalunha, esse fardo foi particularmente pesado, já que o território funcionava como zona de trânsito e base logística para as operações militares espanholas contra a França.

Ao longo dos anos anteriores a 1640, a tensão entre a população catalã e as tropas que aquartelavam na região acumulou-se em proporções explosivas. Os soldados, recrutados em outras partes da monarquia e frequentemente mal pagos, exigiam alimentos, abrigo e suprimentos das comunidades locais, muitas vezes por meios violentos. As autoridades do Principado, representadas pela Generalitat, o governo autônomo catalão, protestavam repetidamente junto a Madri, mas encontravam pouco eco nas instâncias centrais da coroa. O conde-duque de Olivares, principal ministro do rei Filipe IV, via na resistência catalã um obstáculo à sua política de centralização e unificação da monarquia hispânica.

A centelha que transformou essa tensão crônica em conflito aberto ocorreu durante as festividades do Corpus Christi, em 7 de junho de 1640, numa data que ficaria para sempre marcada na memória catalã como o Corpus de Sang, o Corpus de Sangue. Um grupo de trabalhadores rurais armados, conhecidos como segadors, que haviam chegado à cidade de Barcelona para participar das celebrações, entrou em confronto com soldados espanhóis. A violência espalhou-se rapidamente pelos bairros da cidade. No caos que se seguiu, o Conde de Santa Coloma, vice-rei da Catalunha e máxima autoridade do Principado em nome do rei espanhol, tentou fugir para um navio que o esperava no porto, mas foi alcançado e morto. As circunstâncias exatas de sua morte nunca foram completamente esclarecidas pelos historiadores.

A morte do vice-rei criou um vácuo de poder imediato e colocou a Generalitat diante de uma escolha impossível: submeter-se à inevitável represália militar de Filipe IV ou buscar proteção em outra potência. Pau Claris, presidente da Generalitat e principal figura política do Principado, convocou a Junta de Braços, o conselho composto pelos representantes dos três estamentos das Cortes Catalãs, e passou a organizar a defesa do território com os recursos disponíveis. A aliança com a França, inimiga declarada da Espanha, tornou-se rapidamente a única saída viável. Numa jogada de grande audácia política, Claris proclamou a República Catalã em janeiro de 1641, assumindo de fato a soberania sobre o Principado.

A proclamação republicana durou poucos dias. Pressionado pela ameaça militar iminente e pelos conselhos dos representantes franceses, Pau Claris optou por oferecer o título de Conde de Barcelona ao rei Luís XIII da França, que passou a ser chamado Luís I de Barcelona nos documentos oficiais catalães. A troca da proteção espanhola pela francesa era arriscada, mas naquele momento parecia a única forma de garantir a sobrevivência do Principado como entidade política autônoma. A vitória catalã na Batalha de Montjuïc, em 26 de janeiro de 1641, quando as forças combinadas de catalães e franceses derrotaram um exército espanhol às portas de Barcelona, deu novo fôlego à resistência. Poucos dias depois, Pau Claris morreu sob circunstâncias não esclarecidas, privando o movimento de seu líder mais carismático.

O conflito arrastou-se por mais de uma década, com a Catalunha dividida entre o domínio francês ao norte e a pressão espanhola ao sul. A população civil sofreu com as exigências de ambos os lados, e a violência dos exércitos que cruzavam o território causou destruição considerável. A paz de Vestfália, assinada em 1648, que encerrou a Guerra dos Trinta Anos no plano europeu, paradoxalmente complicou a situação catalã, pois a França, ao encerrar seu conflito principal com o império, passou a ter menos interesse em manter o esforço militar na Península Ibérica. Sem o apoio francês pleno, a posição da Generalitat tornou-se insustentável.

Em 1652, Barcelona capitulou diante do exército espanhol após um longo cerco. O rei Filipe IV, buscando uma saída negociada que evitasse maiores represálias e facilitasse a pacificação do Principado, confirmou as liberdades e privilégios tradicionais da Catalunha, as chamadas Constitucions. A Generalitat foi restaurada em suas funções, e a repressão contra os líderes da revolta foi mais limitada do que se poderia esperar diante da gravidade do conflito. A reconciliação, no entanto, não resolveu a questão de fundo: a Catalunha continuava inserida numa monarquia que buscava uniformização, e as tensões persistiriam nas décadas seguintes.

O desfecho mais duradouro e geograficamente significativo da Guerra dos Segadores não foi decidido nos campos de batalha da Catalunha, mas sim na mesa de negociações. O Tratado dos Pirenéus, assinado em 1659 entre a França e a Espanha para encerrar a guerra que as duas potências travavam desde 1635, estabeleceu uma nova fronteira que cortou o Principado ao meio. A Espanha cedeu à França o condado de Rossilhão e a metade norte do condado de Cerdanha, territórios que até então faziam parte integrante do Principado. Esses territórios, onde se falava catalão e cujas populações tinham identidade catalã, foram incorporados ao reino francês, dando início a um processo de assimilação linguística e cultural que levaria séculos. A linha divisória traçada em 1659 tornou-se a fronteira franco-espanhola que persiste até hoje.

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