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Guerra dos Farrapos

Revolta republicana no sul do Brasil em 1835–45

4 min de leitura20/06/2026
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Poucos conflitos na história do Brasil combinaram tantos elementos ao mesmo tempo: ideais republicanos, ressentimentos econômicos acumulados, disputas por autonomia regional e um conjunto de lideranças que ficaria gravado na memória coletiva do Rio Grande do Sul. A Guerra dos Farrapos, também chamada de Revolução Farroupilha ou Revolta Farroupilha, foi uma ruptura que durou quase uma década — de 20 de setembro de 1835 a 1 de março de 1845 — e deixou marcas que o tempo não apagou.

O conflito nasceu na então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, mas suas raízes eram mais profundas do que uma simples disputa regional. O Brasil vivia sob uma constituição centralizadora, promulgada em 1824, que deixava as províncias com pouquíssima autonomia. Os liberais defendiam um modelo de estado com maior descentralização, e esse embate entre o poder imperial e as elites provinciais criava tensão em várias partes do país. No Rio Grande do Sul, essa tensão tinha um componente econômico muito específico que a tornava particularmente inflamável.

A economia gaúcha da época girava em torno do charque e do couro, produtos destinados sobretudo ao mercado interno brasileiro. Enquanto províncias como São Paulo e Bahia exportavam açúcar e café para o exterior e colhiam os frutos dessa inserção no comércio internacional, o Rio Grande do Sul alimentava os escravizados nas minas de Minas Gerais e nas plantações de cana do Nordeste. Esse charque rio-grandense precisava competir com produtos similares vindos da Argentina e do Uruguai, importados a preços menores graças a um câmbio que favorecia o produto estrangeiro. As charqueadas locais clamavam por tarifas protecionistas, mas o governo imperial não tinha interesse em encarecer a alimentação da mão de obra escravizada das regiões mais prósperas do centro e do norte do país.

Havia ainda uma ferida aberta: a Guerra da Cisplatina, que resultou na perda do território que hoje é o Uruguai. Naquele conflito, o comando militar havia sido entregue ao Marquês de Barbacena, um homem da corte imperial tido como despreparado para o cargo, em detrimento de candidatos locais experientes. O episódio concentrou em um só fato o ressentimento dos gaúchos diante do descaso do governo central. Somava-se a isso a imposição de presidentes de província pelo Império, contrariando a orientação política da própria Assembleia Legislativa provincial.

A revolta começou em 20 de setembro de 1835 e rapidamente ganhou força. Entre seus líderes estavam figuras como o general Bento Gonçalves da Silva, o general Davi Canabarro, o coronel Onofre Pires e o general Gomes Jardim, além de outros militares e políticos que tinham em comum o ideal republicano e o desejo de maior autonomia. A influência ideológica de italianos refugiados da Carbonária, como o cientista e tenente Tito Lívio Zambeccari e o jornalista Luigi Rossetti, deu ao movimento um caráter cosmopolita incomum para um conflito regional. Entre os estrangeiros envolvidos, destacou-se o capitão Giuseppe Garibaldi, que embora não pertencesse à Carbonária havia participado de movimentos republicanos na Itália e que no Brasil ficaria conhecido por suas façanhas navais e terrestres ao lado dos farrapos.

O movimento extrapolou as fronteiras do Rio Grande do Sul. A Revolução declarou a independência da Província como República Rio-Grandense e chegou a expandir seu alcance para a costa catarinense, onde foi proclamada a República Juliana, em Laguna, e ao planalto de Lages. A revolta inspirou outros movimentos em diferentes partes do Brasil: a Revolução Liberal de São Paulo, em 1842, e a Sabinada, na Bahia, em 1837, guardavam conexões ideológicas com o que acontecia no sul. Os farrapos também mantinham laços com as repúblicas recém-formadas na região do Rio da Prata e com províncias argentinas como Corrientes e Santa Fé.

Um dos aspectos mais contraditórios da Revolução Farroupilha é a questão da escravidão. Embora o conflito tenha envolvido exércitos compostos também por homens negros que aspiravam à liberdade, a maioria dos líderes farrapos eram proprietários escravistas. A abolição nunca foi um objetivo central do movimento, e os mesmos caudilhos que pregavam a república e a liberdade defendiam a manutenção do trabalho escravo como pilar de sua economia. Essa ambiguidade marca profundamente a interpretação histórica da guerra.

Bento Manuel Ribeiro, uma das figuras mais intrigantes do conflito, lutou em ambos os lados ao longo da guerra. Num momento estava com os rebeldes, noutro com as forças imperiais. Sua trajetória ilustra bem a complexidade das lealdades e interesses em jogo num conflito que, apesar do vocabulário republicano, tinha raízes muito concretas na disputa por poder e recursos.

A guerra terminou em 1845 com um acordo de paz que concedeu anistia aos rebeldes e algumas concessões à província, sem que a independência fosse reconhecida. O Rio Grande do Sul voltou ao seio do Império, mas o legado da Revolução Farroupilha ficou. O 20 de setembro tornou-se feriado estadual, celebrado até hoje com desfiles, cavalgadas e uma memória coletiva que transforma os farrapos em símbolo de identidade gaúcha. A guerra que durou quase dez anos se converteu, no imaginário regional, em algo muito maior do que um conflito armado: virou mito fundador.

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