brasil

Coluna Prestes

Movimento armado tenentista no Brasil, 1925–1927

4 min de leitura20/06/2026
Anúncio

Entre 1924 e 1927, uma coluna de cerca de mil e quinhentos homens atravessou o Brasil de ponta a ponta, percorrendo aproximadamente vinte e cinco mil quilômetros por treze estados, sem jamais ser definitivamente derrotada em campo. A Coluna Prestes, oficialmente designada 1.ª Divisão Revolucionária, ficou conhecida também como Coluna Miguel Costa-Prestes e tornou-se um dos episódios mais extraordinários da história militar e política brasileira, símbolo da resistência tenentista contra o regime oligárquico da República Velha.

O movimento nasceu da insatisfação de militares de baixa patente com o governo de Artur Bernardes e com o sistema político dominante, a chamada política do café com leite, que alternava o poder entre as oligarquias de São Paulo e de Minas Gerais. Os tenentes que encabeçaram o levante não defendiam um governo militar: ao contrário, suas bandeiras eram civis e progressistas. Exigiam a implementação do voto secreto, a defesa do ensino público, a obrigatoriedade do ensino secundário para todos, além do fim da miséria e da injustiça social. Era, portanto, uma expressão de revolta das classes médias contra o domínio das elites agrárias que controlavam a política nacional.

O estopim da Coluna veio na esteira da Revolta Paulista de 1924. Em 28 de outubro daquele ano, na região das Missões, no Rio Grande do Sul, o capitão Luís Carlos Prestes liderou o levante do 1.º Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo. Outros batalhões e cavalarias se rebelaram simultaneamente em cidades gaúchas como São Luiz Gonzaga, São Borja e Uruguaiana, sob o comando de oficiais como Pedro Gay, Rui Zubaran e Juarez Távora. Antônio de Siqueira Campos, que havia retornado clandestinamente do exílio em Buenos Aires, também participou das primeiras ações.

As forças governistas reagiram com grande volume de homens. Em dezembro de 1924, cerca de catorze mil soldados marcharam sobre São Luiz Gonzaga com o objetivo de cercar os rebeldes. A estratégia de Prestes, porém, mostrou-se superior: seus homens estavam dispersos ao redor da cidade, e a mobilidade constante que ele chamava de "guerra de movimento" permitiu que a Coluna rompesse o cerco sem ser percebida. Em janeiro de 1925, no confronto da Ramada, as tropas rebeldes venceram apesar de perdas significativas — cinquenta mortos e cem feridos — e continuaram a marcha em direção ao norte do Rio Grande do Sul.

A travessia do Rio Uruguai custou quase todos os cavalos da Coluna, que avançou a pé por Santa Catarina. No Paraná, os rebeldes venceram batalhas táticas importantes, como a manobra da linha Separação, em que Prestes conseguiu colocar duas colunas legalistas em confronto direto entre si. Em abril de 1925, as forças paulistas remanescentes da Revolta de 1924 foram incorporadas à Coluna em Foz do Iguaçu, consolidando a 1.ª Divisão Revolucionária sob o comando compartilhado de Prestes e do general Miguel Costa. Os quatro destacamentos operacionais ficaram nas mãos de Siqueira Campos, João Alberto Lins de Barros, Cordeiro de Farias e Djalma Dutra.

A marcha avançou para o Mato Grosso, passando pelo território paraguaio para evitar o cerco. No interior do país, os rebeldes enfrentaram os legalistas em combates no Mato Grosso, percorreram a serra do Paranã, entraram em Minas Gerais e voltaram a Goiás, sempre adotando a táctica de dispersão e mobilidade que impedia os governistas de travar um confronto decisivo. Em um desses episódios, os revoltosos dividiram-se em pelotões que plantavam pistas falsas para despistar as tropas que os perseguiam.

A composição social da Coluna merece atenção especial. Embora liderada por oficiais militares, a maioria dos soldados era formada por trabalhadores rurais, muitos analfabetos ou semianalfabetos, recrutados ao longo da marcha nas regiões por onde passavam. Aproximadamente cinquenta mulheres participaram da expedição, quase todas originárias do Destacamento Gaúcho, e algumas chegaram a combater ao lado dos rebeldes. Essa diversidade conferia ao movimento uma dimensão popular que transcendia o perfil estritamente militar.

Após dois anos e meio de marcha, sem jamais alcançar os objetivos políticos que haviam motivado o levante, a Coluna cruzou a fronteira para a Bolívia em fevereiro de 1927, encerrando formalmente o movimento em território estrangeiro. A derrota, porém, foi relativa. A Coluna havia demonstrado que o governo oligárquico não era invencível, que havia resistência organizada no país e que as reivindicações dos tenentes encontravam eco em amplas parcelas da população.

O legado da Coluna Prestes só ficaria claro nos anos seguintes. Ao enfraquecer o prestígio do governo Artur Bernardes e ao expor as contradições da República Velha, o movimento abriu caminho para a Revolução de 1930, que pôs fim à política do café com leite e inaugurou uma nova fase da história brasileira. Luís Carlos Prestes, por sua vez, tornaria-se uma das figuras políticas mais controversas e influentes do século XX no Brasil, adotando posições cada vez mais à esquerda e se convertendo posteriormente ao comunismo. A epopeia da marcha, contudo, permanece como uma das páginas mais fascinantes já escritas sobre coragem, resistência e a capacidade de um pequeno grupo de homens de desafiar o poder de um Estado inteiro.

Anúncio
Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium

Histórias Relacionadas