Em novembro de 1935, o Brasil viveu quatro dias que deixariam marcas profundas na política nacional por décadas. Entre os dias 23 e 27 daquele mês, militares ligados à Aliança Nacional Libertadora e ao Partido Comunista do Brasil tentaram derrubar o governo de Getúlio Vargas por meio de levantes armados em três pontos do território: Natal, Recife e Rio de Janeiro. O episódio ficou conhecido como Intentona Comunista, nome que seus adversários cunharam para marcar o movimento com a pecha do fracasso e da ilegitimidade. Mas o que ocorreu naqueles dias foi muito mais complexo do que o rótulo sugere.
Para entender a Intentona Comunista, é preciso recuar alguns anos e observar o contexto no qual ela germinou. O Brasil da primeira metade da década de 1930 era um país tenso, marcado pela crise econômica global, pelo avanço do autoritarismo e pela efervescência de movimentos políticos que disputavam o futuro da nação. Desde a década de 1920, o movimento tenentista havia produzido uma geração de oficiais militares insatisfeitos com a velha ordem oligárquica, e muitos desses homens encontraram na ideologia comunista uma resposta para as contradições que a República não conseguia resolver. A confluência entre o tenentismo e o comunismo ganhou um rosto: o do capitão Luís Carlos Prestes.
Prestes era uma figura singular. Herói do tenentismo por ter liderado a Coluna que percorreu o interior do Brasil entre 1925 e 1927, ele havia se convertido ao comunismo e passado a dirigir o levante em articulação direta com a Internacional Comunista, o organismo moscovita que coordenava os partidos comunistas ao redor do mundo. Ao seu lado estavam militantes internacionais, entre eles a alemã Olga Benário, companheira de Prestes, o argentino Rodolfo Ghioldi e o alemão Arthur Ernest Ewert.
A Aliança Nacional Libertadora havia sido criada como um movimento de frente ampla, capaz de reunir operários, camponeses e até setores da burguesia progressista em torno de pautas anti-imperialistas e antifascistas. Mas em julho de 1935, Prestes publicou um manifesto convocando as massas ao assalto ao poder. O governo Vargas reagiu decretando a ilegalidade da ANL nos termos da Lei de Segurança Nacional, onze dias depois da publicação do texto. A organização passou à clandestinidade e a ação armada tornou-se o caminho escolhido pelos conspiradores.
O plano original previa que o levante começasse na madrugada de 27 de novembro de 1935. No entanto, razões locais forçaram a antecipação em dois estados. O primeiro estopim foi aceso em Natal, no Rio Grande do Norte, em 23 de novembro. A insurreição derrubou o governador Rafael Fernandes Gurjão, que precisou se asilar no Chile, e instalou um comitê popular revolucionário que permaneceu no poder por três dias. Tratou-se do primeiro e único governo comunista a se instalar no Brasil e, segundo registros da época, também o primeiro na América do Sul. O controle durou pouco: sem adesão de guarnições militares importantes, com o levante em Pernambuco sufocado e com tropas do Alagoas e da Paraíba se aproximando, os rebeldes fugiram de Natal em direção ao Seridó potiguar. Foram interceptados por forças legalistas na Batalha da Serra do Doutor e capturados. O total de mortos não chegou a vinte.
Em Pernambuco, o levante de 24 de novembro foi o mais violento dos três. Civis armados atacaram delegacias de polícia em Olinda e no Recife; parte da guarnição do 29º batalhão de caçadores se revoltou; e comunistas libertaram presos de uma cadeia em Jaboatão. No Largo da Paz, no centro do Recife, rebeldes instalaram metralhadoras no topo da torre de uma igreja para atirar contra as forças legalistas. O tiroteio naquele ponto durou 28 horas. O contra-ataque foi conduzido pelos capitães Malvino Reis Neto e Afonso de Albuquerque Lima, com o apoio de batalhões de caçadores. Somente nos combates do Recife, 720 pessoas morreram, número que faz do levante pernambucano o episódio mais sangrento daqueles dias.
No Rio de Janeiro, o levante ocorreu na data original, 27 de novembro, tendo como alvos a Escola Militar da Praia Vermelha e a Vila Militar. Os próprios organizadores reconheciam que, diante do fracasso nos demais estados, as chances de sucesso no Rio eram praticamente nulas. O movimento na capital foi interpretado por alguns historiadores como um gesto de lealdade dos conspiradores locais, uma recusa a abandonar os companheiros mesmo diante do inevitável.
As consequências da Intentona Comunista foram severas e de longo alcance. O governo Vargas explorou o episódio para justificar um endurecimento crescente do regime, que culminaria dois anos depois, em 1937, com o golpe do Estado Novo. Luís Carlos Prestes foi preso e permaneceu encarcerado por anos. Olga Benário, cidadã alemã, foi deportada para a Alemanha nazista e morreu em um campo de concentração. Centenas de militares e civis foram detidos, julgados e punidos.
A Intentona Comunista não conseguiu revolucionar o Brasil, mas transformou para sempre a política brasileira. O episódio alimentou décadas de anticomunismo oficial, serviu de argumento para a censura e a repressão e marcou gerações de militares que fariam desse evento um símbolo dos perigos que a esquerda representaria para a ordem nacional. Ao mesmo tempo, para os que estiveram do outro lado, os dias de novembro de 1935 permaneceram como prova de que havia quem estivesse disposto a arriscar tudo por uma ideia de país radicalmente diferente.



