civilizacoes perdidas

Reino de Cuxe

Antigo reino africano

5 min de leitura20/06/2026
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Às margens do Nilo, entre a primeira e a sexta catarata do grande rio, floresceu por mais de um milênio uma das civilizações africanas mais complexas e duradouras da Antiguidade. O Reino de Cuxe, situado ao sul de Assuão na região que hoje corresponde ao Sudão, emergiu das cinzas do colapso da Era do Bronze e foi capaz de transformar a dinâmica de poder de toda a região nordestina da África, chegando ao ponto de conquistar o próprio Egito e governar os faraós da época por quase um século inteiro.

As primeiras sociedades organizadas na área que viria a ser Cuxe antecederam até mesmo a Primeira Dinastia do Egito, que data de aproximadamente 3100 a.C. Por volta de 2500 a.C., os egípcios começaram a avançar para o sul em direção à Núbia, mas essa expansão foi interrompida pelo declínio do Médio Império egípcio. Quando recomeçou, por volta de 1500 a.C., encontrou resistência organizada. Os historiadores ainda debatem se essa resistência partiu de múltiplas cidades-Estado independentes ou de um poder centralizado, e se o conceito de Estado surgiu ali de forma autônoma ou foi assimilado do Egito. O que se sabe é que os egípcios eventualmente venceram e fizeram da região uma colônia, erguendo fortalezas durante o reinado de Tutmés I. Somente no século XI a.C., quando disputas internas enfraqueceram o Egito, os núbios derrubaram o regime colonial e fundaram um reino independente com sede em Napata.

A fundação do Reino de Cuxe propriamente dita é atribuída ao período em torno de 980 a.C., quando Napata se consolidou como capital. A unificação das tribos núbias é creditada ao rei Alara, que reinou entre 780 e 755 a.C. e foi reverenciado por seus sucessores como o fundador da dinastia. Mas foi com o rei Piiê que o reino alcançou sua dimensão mais grandiosa. Filho do rei Cáchita e de Xepenupete I, Piiê utilizou tanto a força militar quanto as manobras políticas para avançar sobre o Egito. Apresentando-se como devoto do deus Amom, conseguiu que Xepenupete I adotasse sua irmã Amenirdis I como herdeira do cargo de Esposa do Deus Amom, o que garantia o controle cuxita sobre Tebas sem necessidade de violência direta. Piiê tornou-se o segundo faraó da XXV dinastia, conhecida na história como a "dinastia dos faraós negros".

Os sucessores de Piiê — Xabaca, Xabataca e Taraca — mantiveram o domínio sobre o Egito e chegaram a expandir sua influência até as regiões da Palestina, controlando assim uma faixa territorial que se estendia do atual Sudão ao Levante mediterrânico. Essa expansão colocou Cuxe em rota de colisão com outro poder em ascensão: a Assíria. Quando os assírios invadiram o Egito em 671 a.C., o domínio cuxita começou a recuar. O último rei cuxita a tentar retomar o controle do Egito foi Tantamani, que foi definitivamente derrotado em 664 a.C. Dois anos depois, em 656 a.C., Psamético I reunificou o Egito sob a XXVI dinastia e encerrou qualquer pretensão cuxita sobre aquele território. Em 591 a.C., os egípcios cruzaram a fronteira em sentido contrário e saquearam e incendiaram a própria capital Napata, impondo uma humilhação ao antigo rival.

A resposta ao ataque egípcio foi, paradoxalmente, um rejuvenescimento. Os reis cuxitas transferiram a capital para Meroé, uma cidade situada mais ao sul e que oferecia vantagens que Napata não possuía. A data exata da transferência não é conhecida com precisão, mas há evidências de que a mudança foi estimulada por fatores econômicos e estratégicos: Meroé possuía vastas florestas que alimentavam os altos-fornos da cidade, tornando-a um centro de produção de ferro de grande importância. Além disso, a chegada de mercadores gregos à região abriu rotas comerciais pelo Mar Vermelho que reduziam a dependência do eixo nilótico, ampliando o alcance comercial do reino de maneira significativa.

Em torno de 300 a.C., os soberanos cuxitas passaram a ser sepultados em Meroé em vez de Napata, o que muitos historiadores interpretam como o reflexo de uma ruptura com o clero da antiga capital. O cronista grego Diodoro Sículo narra a história de um governante meroítico chamado Ergamenes que teria desafiado os sacerdotes, inaugurando uma nova era de maior autonomia política dos reis em relação à hierarquia religiosa. Enquanto isso, Napata continuou a existir como centro religioso, onde os reis ainda eram coroados e os ritos tradicionais eram mantidos, mesmo que a vida política e econômica tivesse migrado para o sul.

O período meroítico ficou conhecido pelos geógrafos gregos como "Etiópia", nome que mais tarde seria associado ao território abissínio. A civilização meroítica desenvolveu uma escrita própria, o meroítico, que ainda não foi totalmente decifrada pelos pesquisadores modernos, tornando grande parte de sua literatura e de seus registros inacessíveis ao conhecimento contemporâneo. Esse mistério linguístico é um dos muitos aspectos que conferem ao Reino de Cuxe um caráter de enigma histórico ainda em processo de desvendamento.

O declínio final do reino veio de dentro. Após séculos de relativa estabilidade, rebeliões internas enfraqueceram progressivamente as estruturas do Estado meroítico. No século IV da era cristã, o reino perdeu força e se desintegrou, encerrando uma história que durou aproximadamente mil e trezentos anos. O Império de Axum, situado na outra margem do Mar Vermelho, foi um dos atores do período final dessa história, tendo conquistado Cuxe brevemente sob o rei Ezana por volta do ano 330. A queda de Cuxe marcou o fim de uma das mais longevas civilizações da África antiga, cujos faraós de pele escura governaram o Egito, cujos ferreiros moldaram o continente e cujos reis levaram o nome de uma terra bíblica ao coração do mundo antigo.

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