Existem lugares no mundo capazes de reescrever completamente a forma como a humanidade compreende a si mesma. Çatalhüyük, um imenso assentamento neolítico localizado no sul da Anatólia, na atual Turquia, é um desses lugares. Com uma história que se estende de aproximadamente 7500 a.C. até 5600 a.C., esse sítio arqueológico extraordinário oferece uma janela rara para o cotidiano de uma das maiores comunidades humanas que já existiram antes do surgimento das civilizações clássicas. Em julho de 2012, a UNESCO reconheceu sua importância ao incluí-lo na lista do Patrimônio Mundial da Humanidade.
Situado a cerca de 140 quilômetros do vulcão de duplo cone do Monte Hasan, com vista para a Planície de Konya próxima à atual cidade de Konya — a antiga Icônio — o local se apresenta hoje como um tel, isto é, um monte artificial formado pelo acúmulo de camadas de construção humana ao longo de milênios. O monte oriental, que concentra o núcleo principal do sítio, chegou a se elevar cerca de 20 metros acima da planície durante o período de ocupação mais intensa. Há também um monte menor a oeste e os vestígios de um assentamento bizantino a algumas centenas de metros a leste, o que revela que aquela região exerceu atração sobre populações humanas em períodos distintos da história.
Uma das características mais intrigantes de Çatalhüyük é o modo como as suas edificações eram organizadas. As casas eram construídas com tijolos crus e dispostas de forma tão compacta que não havia ruas entre elas. A circulação entre os moradores se dava pelos telhados, e as entradas para o interior das residências eram feitas por aberturas no alto, provavelmente por meio de escadas de madeira. Essa configuração singular criava uma espécie de cidade-colmeia, densa e profundamente integrada, onde a divisão entre espaço público e privado era radicalmente diferente do que se conhece nas cidades modernas ou mesmo nas antigas.
O interior das habitações revela uma organização cuidadosa da vida doméstica. Cada casa possuía plataformas que serviam a múltiplas funções, como dormir, sentar e trabalhar. O espaço era dividido de forma clara entre áreas consideradas limpas, destinadas ao repouso, ao armazenamento e ao preparo de alimentos, e áreas sujas, voltadas para atividades mais pesadas. Um fogão completava o ambiente. O que mais impressiona os pesquisadores, contudo, é a prática funerária ali adotada: os mortos eram enterrados dentro das próprias casas, sob as plataformas que provavelmente serviam de camas, e dispostos em posição fetal. Essa convivência entre vivos e mortos sob o mesmo teto aponta para um sistema de crenças profundamente enraizado no espaço doméstico.
As paredes internas das casas eram cobertas por murais superpostos em várias camadas, alguns de caráter figurativo e outros compostos por padrões repetidos. Ao longo das escavações, foram encontradas também inúmeras esculturas em osso e argila, muitas delas representando figuras femininas cujo significado ainda gera debate entre os especialistas. Para alguns, essas figuras seriam representações de uma deusa, enquanto outros as interpretam como imagens propiciatórias relacionadas à fertilidade.
A dimensão religiosa de Çatalhüyük é talvez o aspecto mais fascinante e controverso do sítio. O arqueólogo James Mellaart, responsável pelas primeiras grandes escavações do local a partir de 1958 e pelas campanhas realizadas entre 1961 e 1965, argumentou que as estatuetas femininas encontradas em abundância representavam uma divindade feminina central no sistema de crenças dos habitantes. Confeccionadas em materiais variados como mármore, xisto, calcita, basalto, alabastro e argila, essas figuras eram numericamente muito superiores às representações masculinas, as quais, segundo Mellaart, sequer pareciam ter grande importância ritual.
Uma das peças mais notáveis encontradas no sítio ficou conhecida como Cibele da Anatólia: trata-se de uma figura feminina sentada num trono, ladeada por duas leoas. Esse objeto foi descoberto num compartimento de armazenamento de grãos, o que para Mellaart sugeria uma função protetora, voltada para a guarda da colheita e do suprimento alimentar da comunidade. Já as imagens de touros, também presentes no sítio, eram interpretadas como representações do princípio masculino subordinado ao feminino, com os chifres do animal associados à Lua e contrastados com o Sol, símbolo da Grande Deusa.
Do ponto de vista arqueológico, as escavações revelaram 18 camadas sucessivas de construções, cada uma representando um período distinto da ocupação humana. A camada mais antiga pode ser datada de aproximadamente 7100 a.C., enquanto a mais recente, no Monte Oeste, é posterior e corresponde a cerca de 5600 a.C. Essa estratigrafia rica permite aos pesquisadores acompanhar as transformações culturais e arquitetônicas ocorridas ao longo de quase dois milênios de ocupação contínua.
O canal do rio Çarşamba, que outrora corria entre os dois montes do sítio, e a argila aluvial sobre a qual o assentamento foi construído sugerem que a escolha do local não foi aleatória. Aquele terreno era propício à agricultura primitiva, o que pode ter sido um dos fatores que atraíram e mantiveram uma população significativa naquele ponto da planície anatoliana durante tantos séculos.
Çatalhüyük permanece como um dos registros mais valiosos da vida humana no período em que as primeiras grandes comunidades sedentárias começavam a moldar a civilização. Sua arquitetura incomum, suas práticas funerárias domésticas, sua rica produção artística e sua aparente devoção a um panteão com forte presença feminina fazem desse sítio uma fonte inesgotável de perguntas sobre as origens da cultura, da religião e da organização social humana.
