Erguida às margens orientais do rio Tigre, no coração da antiga Assíria, Nínive foi uma das cidades mais extraordinárias que o mundo antigo já conheceu. Seu nome atravessou milênios e culturas, aparecendo registrado em acadiano, hebraico, grego, latim e árabe, testemunho de sua importância para povos de origens e épocas muito distintas. Onde outrora se erguiam palácios e muralhas imponentes, hoje existe a cidade de Mossul, no norte do Iraque, e o nome do estado que a abriga ainda carrega a memória da antiga metrópole assíria: Ninawa.
A cidade não nasceu como uma capital imperial. Suas origens remontam à confluência de vários vilarejos ao longo do Tigre, e sua posição geográfica privilegiada foi determinante para o que ela viria a se tornar. Situada em um ponto nodal das grandes rotas comerciais que ligavam o Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico, Nínive reunia o Oriente e o Ocidente em um único espaço. Por ali circulavam mercadorias, ideias e riquezas, e a cidade cresceu absorvendo tudo isso. Sua área central chegou a abranger cerca de 1.800 acres, circunscritos por uma muralha de tijolos de aproximadamente doze quilômetros de extensão.
As primeiras referências históricas a Nínive datam de por volta do século XVIII antes da era cristã, quando a cidade já figurava como um importante centro de culto à deusa Ishtar. A influência de seu templo era tão grande que, no século XIV a.C., a estátua da divindade foi enviada ao faraó egípcio Amenófis III, a pedido do rei de Mitani, soberanos que então controlavam a região. Por séculos, Nínive permaneceu sob o domínio do reino de Mitani, até que os monarcas assírios de Assur a conquistaram em meados daquele mesmo século. A partir daí, o destino da cidade passou a se entrelaçar definitivamente com o destino do povo assírio.
Mesmo sob domínio assírio, Nínive demorou a receber atenção arquitetônica significativa. Foram os soberanos neo-assírios, especialmente a partir do reinado de Assurnasirpal II, entre 883 e 859 antes da era cristã, que deram início a uma expansão construtiva sem precedentes. Cada monarca subsequente deixou sua marca, erguendo palácios, templos dedicados a divindades como Sin, Nergal, Shamash e Nabu, e reformando o que os predecessores haviam construído. A cidade foi crescendo em glória e em proporção.
O ápice desse processo chegou com Senaqueribe, que assumiu o trono por volta do ano 700 a.C. e transformou Nínive na metrópole mais esplêndida de seu tempo. Sob seu comando, novas avenidas foram abertas, quarteirões foram planejados com cuidado e, sobretudo, foi erguido o que ele próprio chamou de "palácio sem rival". O conjunto arquitetônico tinha dimensões totais de cerca de 503 metros e abrigava ao menos 80 salas, muitas delas revestidas de esculturas elaboradas. A fundação do palácio era de blocos de calcário e tijolos de barro, com 22 metros de altura, e o total de material empregado chegou a aproximadamente 160 milhões de tijolos. As paredes superiores acrescentavam outros 20 metros ao conjunto.
As entradas principais do palácio eram guardadas por figuras colossais esculpidas em pedra, entre elas touros alados e leões com cabeças humanas, pesando cerca de 30 mil quilos cada. Essas obras eram transportadas de pedreiras distantes e içadas a 20 metros de altura, presumivelmente por meio de rampas. Cerca de 3.000 metros de painéis em baixo relevo decoravam as paredes internas, documentando batalhas, cerimônias e até os próprios processos de construção. Em uma das cenas, 44 homens rebocam uma estátua colossal enquanto três supervisores dirigem a operação. As inscrições do próprio Senaqueribe revelam um monarca orgulhoso e implacável: em seus textos, ele descreve sem remorso o saque de cidades, o desfile de despojos de guerra e o destino cruel dos povos submetidos.
A grandiosidade de Nínive não se limitava à arquitetura. A cidade contava com um sistema elaborado de abastecimento hídrico composto por 18 canais que traziam água das colinas próximas. Um aqueduto monumental, com seções encontradas em Jerwan, a cerca de 65 quilômetros de distância, complementava essa infraestrutura. No auge de sua população, a cidade abrigava mais de 100 mil habitantes, talvez chegando a 150 mil, o que a tornava três vezes mais populosa que Babilônia na mesma época e uma das maiores concentrações humanas do mundo antigo.
Nínive também guardava um imenso acervo intelectual. Grandes quantidades de tabletes cuneiformes foram encontrados em suas ruínas, incluindo a célebre biblioteca real que reunia textos literários, científicos e religiosos de toda a Mesopotâmia. A Epopeia de Gilgamesh, um dos mais antigos poemas narrativos da humanidade, foi preservada em sua forma mais completa justamente nos tabletes de Nínive.
Mas o esplendor não durou. Por volta de 633 antes da era cristã, o Segundo Império Assírio começou a dar sinais de enfraquecimento. Povos que há muito viviam sob o jugo assírio passaram a pressionar as fronteiras. Os medos atacaram a cidade e, ao se aliarem aos caldeus e aos sussianos, por volta de 625 a.C., tornaram o fim inevitável. Em 612 antes da era cristã, Nínive foi tomada e arrasada até o chão. A população que não conseguiu fugir foi massacrada ou deportada. Arqueólogos modernos encontraram esqueletos não enterrados espalhados pelo sítio, vestígios silenciosos de uma catástrofe que encerrou o Império Assírio de forma definitiva. Os vencedores dividiram entre si as províncias que um dia obedeceram à cidade às margens do Tigre.
O local permaneceu abandonado por séculos. A cidade voltou a ser mencionada apenas em 627 da era cristã, quando uma batalha entre o Império Romano do Oriente e o Império Sassânida foi travada em suas proximidades. Com a conquista árabe em 637, a região entrou em uma nova fase histórica. Hoje, os montículos antigos de Kouyunjik e Nabī Yūnus se misturam aos subúrbios de Mossul, e as ruínas que emergem do solo continuam a revelar fragmentos de uma civilização que, em seu tempo, não tinha rival no mundo.
