A música italiana perdeu, em 11 de julho de 2026, um de seus nomes mais elegantes e longevos. Morreu Peppino di Capri, nome artístico de Giuseppe Faiella, nascido em Capri em 27 de julho de 1939. Cantor e pianista de trajetória iniciada ainda no começo dos anos 1960, ele foi peça central na renovação da canção italiana e um artista que soube atravessar gerações sem perder o charme. Sua morte reacendeu a lembrança de sucessos que também fizeram história no Brasil.
A vocação nasceu em berço musical. O avô tocava em uma banda da ilha, e o pai mantinha uma loja de discos e instrumentos, além de tocar diversos instrumentos de sopro e corda em uma orquestra. Cercado por esse ambiente, o pequeno Giuseppe subiu a um palco improvisado ainda muito cedo, tocando piano diante das tropas americanas que ocupavam a ilha durante a guerra, quando tinha apenas quatro anos.
O estudo formal veio pouco depois, com aulas de piano em Nápoles sob a batuta de uma professora rigorosa. A relação, no entanto, não durou: o jovem preferiu se dedicar ao rock recém-importado dos Estados Unidos, o que levou a mestra a abandoná-lo. Foi seguindo esse instinto que ele começou a se apresentar em casas noturnas de Capri ao lado de um amigo baterista, em uma dupla que animava as noites da ilha.
A escalada rumo ao profissionalismo passou por concursos e formações de banda. Em meados dos anos 1950, o artista chegou à televisão em um programa de calouros, no qual terminou em primeiro lugar, embora ainda sem contrato de gravação. Pouco depois, reuniu amigos músicos e montou um grupo inspirado nas formações de jazz e swing americanas, colhendo bom público nas ilhas do golfo de Nápoles ao reinventar clássicos napolitanos e estrangeiros.
O nome que o mundo conheceria surgiu no fim daquela década. Após ser notado por um dirigente de uma gravadora durante uma apresentação, ele viajou a Milão para gravar. Foi ali que um companheiro sugeriu o apelido definitivo, derivado do diminutivo de Giuseppe, batizando também a banda. As primeiras gravações se inspiravam no rock americano do fim dos anos 1950, e ele chegou a espelhar a aparência de ídolos do gênero.
O sucesso não tardou. Ainda em seus primeiros compactos, uma das faixas se tornou um êxito da música italiana, e o primeiro álbum figurou entre os mais vendidos da estação. No ano seguinte, o artista reinterpretou canções de festivais e clássicos napolitanos, consolidando um repertório que unia tradição e modernidade. A partir de 1960, veio a consagração, com uma sequência impressionante de lançamentos e presença constante nas listas de mais tocadas.
Ao longo das décadas seguintes, Peppino di Capri se firmou como um dos grandes intérpretes de seu país. Foi o primeiro artista nacional a emplacar um sucesso com o ritmo do twist na Itália, no início dos anos 1960, e conquistou os principais festivais da canção italiana, vencendo o tradicional evento de San Remo por duas vezes e também o festival dedicado à música napolitana.
Sua fama ultrapassou as fronteiras europeias e encontrou eco especial no Brasil, onde canções suas conquistaram o público e permaneceram na memória afetiva de muitos ouvintes. Títulos que marcaram os anos 1960 e 1970 circularam por aqui e ajudaram a construir a imagem de um artista romântico, sofisticado e de melodias facilmente reconhecíveis.
Já em uma fase madura da carreira, ele representou seu país em um dos maiores concursos musicais do continente, no início dos anos 1990, cantando em napolitano e alcançando uma honrosa colocação. Foi mais uma demonstração de que sabia valorizar as raízes de sua terra natal mesmo diante de plateias internacionais, sem abrir mão da identidade que sempre o acompanhou.
Com a morte, encerra-se uma trajetória que começou entre as tropas em uma ilha ocupada e se estendeu por mais de seis décadas de palcos, gravações e festivais. Fica o legado de um artista que ajudou a modernizar a canção italiana sem romper com a tradição napolitana, e cujas melodias seguem despertando reconhecimento imediato em públicos de diferentes países e gerações.
