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Olympe de Gouges

Entre as figuras mais corajosas e visionárias que a Revolução Francesa produziu, Olympe de

4 min de leitura20/06/2026
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Entre as figuras mais corajosas e visionárias que a Revolução Francesa produziu, Olympe de Gouges ocupa um lugar singular. Nascida Marie Gouze em Montauban, no sudoeste da França, em 7 de maio de 1748, essa filha de açougueiro e lavadeira transformou-se numa das vozes mais incisivas de sua época — dramaturga, ativista, abolicionista e pioneira dos direitos femininos. Sua vida terminou sob a guilhotina em 3 de novembro de 1793, mas seus escritos atravessaram séculos e continuam sendo referência obrigatória no debate sobre igualdade e justiça.

A infância de Marie Gouze nada indicava o destino extraordinário que a aguardava. Criada numa família humilde, ela carregava uma convicção íntima de que seu pai biológico era o dramaturgo Jean-Jacques Lefranc de Pompignan, reconhecimento que nunca veio formalmente. Essa rejeição deixou marcas profundas e alimentou sua disposição em defender os direitos de crianças nascidas fora do casamento — uma causa que ela abraçaria com a mesma determinação das demais bandeiras que levantou ao longo da vida.

Casada cedo, em 1765, com Louis Aubry, com quem teve um filho chamado Pierre, ficou viúva pouco depois. Em 1770, transferiu-se para Paris, onde adotou o pseudônimo pelo qual entraria para a história. Na capital, sua notável beleza abriu algumas portas, mas foi a inteligência e a obstinação que a tornaram conhecida. Já em 1774, muito antes da tempestade revolucionária, escreveu uma peça de teatro antiescravagista intitulada L'Esclavage des Nègres. O assunto era explosivo demais e a autora era mulher — dois motivos suficientes para que a obra só fosse publicada quinze anos depois, em 1789, quando os ventos da revolução já varriam as ruas de Paris.

A partir de meados da década de 1780, Olympe aprofundou sua produção literária e política. Escreveu ensaios, manifestos e peças que abordavam temas como o direito ao divórcio e as relações afetivas fora do casamento — questões absolutamente transgressoras para os padrões morais da época. Quando a Revolução explodiu, ela se lançou com entusiasmo naquele momento que parecia prometer a realização dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. O desencantamento, porém, veio rapidamente: percebeu que a égalité proclamada pelos revolucionários não contemplava as mulheres no que dizia respeito a direitos políticos e civis.

Em 1791, ingressou no Cercle Social, associação dedicada à luta pela igualdade de direitos políticos e legais para as mulheres, que se reunia na casa de Sophie de Condorcet, conhecida defensora dos direitos femininos. Foi nesse ambiente que Olympe pronunciou sua frase mais célebre e de uma ironia cortante: "a mulher tem o direito de subir ao cadafalso; ela deve igualmente ter o direito de subir à Tribuna". Naquele mesmo ano, respondeu ponto a ponto à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão — documento fundador da república revolucionária — com a sua Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Nesse texto, ela denunciou o uso do termo "Homens" como suposto sinônimo de humanidade, que na prática excluía metade da população da esfera dos direitos.

Para Olympe, a opressão feminina era fruto de um "império tirânico" construído pelos homens em contradição com a natureza, que em todo o resto do mundo animal e vegetal operaria sob uma lógica de cooperação harmoniosa entre os sexos. Também escreveu o Contrato Social, em alusão direta à obra de Jean-Jacques Rousseau, propondo um modelo de casamento fundado na igualdade efetiva entre os parceiros — uma ideia revolucionária muito além do que os próprios revolucionários estavam dispostos a aceitar.

Sua produção dramática era igualmente combativa. Peças como L'esclave des noirs e Le marché des noirs denunciavam a exploração escravista; Le Couvent ou les væux forcés questionava o confinamento das mulheres em conventos; e textos como Les Démocrates et les Aristocrates convocavam ao patriotismo e ao debate político. No teatro, Olympe não estava sozinha — ao seu redor havia outras mulheres igualmente engajadas, como Théroigne de Méricourt, Sophie de Grouchy e Claire Lacombe, que frequentavam as sessões da Assembleia Constituinte para extrair material para suas obras.

O ambiente político, porém, tornava-se cada vez mais hostil. Ela se opôs publicamente à execução de Luís XVI, não por simpatia ao rei, mas por ser contrária à pena de morte em princípio. Em 1793, escreveu Les trois urnes, ou le salut de la Patrie, par un voyageur aérien, peça que propunha a realização de um plebiscito para que o povo escolhesse entre república indivisível, governo federalista e monarquia constitucional. Para os jacobinos, que já tinham guilhotinado uma rainha, a simples sugestão de colocar a monarquia como opção à consulta popular era intolerável. Olympe foi presa.

A mesma facção que havia exilado Sophie de Condorcet decidiu que não toleraria a militância de Olympe de Gouges. Em 2 de novembro de 1793, ela foi guilhotinada. Tinha quarenta e cinco anos e uma obra vasta, provocadora e incômoda. Seu assassinato revelou a contradição fundamental de uma revolução que pregava a liberdade enquanto silenciava as vozes que ousavam levar seus princípios a sério. Séculos depois, a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã é reconhecida como um dos documentos mais importantes da história do feminismo ocidental, e o nome Olympe de Gouges ressurge como símbolo de todas as que foram punidas por exigir aquilo que os homens chamavam de seus direitos.

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