civilizacoes perdidas

Moctezuma II

9º tlatoani de Tenochtitlán e governante da Tríplice Aliança Asteca

7 min de leitura01/01/2024
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Moctezuma II foi o nono tlatoani, ou imperador, do Império Asteca, e seu nome carrega até hoje o peso de uma das mais dramáticas viradas da história das Américas. Nascido por volta de 1466, era filho de Axayácatl e sobrinho do imperador Ahuitzotl, a quem sucedeu entre 1502 e 1503. Diferentemente de muitos de seus predecessores, que se destacavam antes de tudo como guerreiros, Moctezuma II era homem de temperamento contemplativo, letrado nas tradições nahuas, sacerdote e líder da Calmecac, a escola reservada às classes superiores. Essa formação religiosa e intelectual moldaria profundamente suas decisões nos anos seguintes.

Ao assumir o trono, Moctezuma II herdou um império já vasto, mas tratou de ampliá-lo ainda mais. Por meio de guerras sucessivas, expandiu os domínios astecas ao sul, incorporando regiões que hoje correspondem ao estado mexicano de Chiapas, chegando até Xoconosco e ao Istmo de Tehuantepec. Nesse processo, povos como os zapotecas e os yopis foram integrados — frequentemente à força — ao tecido tributário do império. Em seu apogeu, o Império Asteca sob Moctezuma II atingiu a maior extensão territorial que jamais alcançou.

No plano interno, o imperador promoveu reformas que concentraram ainda mais poder em suas mãos e nas das elites hereditárias. Aboliu a chamada classe dos quauhpilli, que permitia a guerreiros plebeus de destaque alcançar status nobiliárquico por mérito em batalha. Ao eliminar essa via de ascensão social, aprofundou o fosso entre os pipiltin, os nobres de sangue, e os macehualtin, o povo comum. Proibiu expressamente que plebeus trabalhassem nos palácios reais. Logo após assumir o poder, demitiu e executou vários dos conselheiros de seu antecessor, substituindo-os por homens de sua própria confiança — muitos deles ex-alunos da Calmecac. Para afastar-se simbolicamente do povo, criou elaborados rituais de distância e reverência que cercavam sua pessoa de uma aura quase divina.

Outra inovação notável foi a construção de um templo especial dentro do recinto do grande Templo de Huitzilopochtli, dedicado especificamente aos deuses das cidades conquistadas. Era uma forma de integrar religiosamente os povos dominados ao panteão asteca, ao mesmo tempo em que afirmava a superioridade de Tenochtitlán sobre Texcoco e Tlatelolco, as outras cidades da chamada Tríplice Aliança. Sob Moctezuma II, Tenochtitlán era, sem dúvida, a capital inconteste de todo o mundo mesoamericano.

Dois episódios militares marcam os limites de seu poder. Em 1515, o exército asteca venceu o general tlaxcalteca Tlahuicole, num duelo que era ao mesmo tempo combate e ritual. No mesmo período, uma nova tentativa de invadir os territórios dos Purépechas — povo que resistia com tenacidade no Michoacán — terminou em derrota, como já havia ocorrido nos tempos de seu pai Axayácatl. Os purépechas permaneceriam independentes, uma espinha cravada no flanco ocidental do império.

A chegada dos espanhóis alterou radicalmente o curso dos acontecimentos. Na primavera de 1519, relatórios chegaram a Tenochtitlán descrevendo estranhos seres que desembarcavam na costa do Golfo com animais enormes e armas que cuspiam fogo e trovão. Para Moctezuma II, profundamente imerso nas tradições religiosas nahuas, a notícia evocou algo perturbador: a profecia que anunciava o retorno de Quetzalcóatl, a serpente emplumada, deus criador e civilizador que havia partido para o oriente prometendo voltar num ano específico do calendário asteca. O conquistador Hernán Cortés, homem de barba escura como descrevia a lenda, chegava exatamente naquele tempo.

Moctezuma enviou embaixadores com dois conjuntos completos de roupas rituais — um pertencente ao deus Tlaloc, outro ao próprio Quetzalcóatl. Os emissários astecas viram Cortés e, interpretando seus traços físicos como os atributos divinos da serpente emplumada, vestiram-no com os ornamentos sagrados. A notícia chegou ao imperador e alimentou ainda mais a hesitação que marcaria sua resposta à invasão. Em seguida, Moctezuma tentou dissuadir o avanço espanhol por meios cada vez mais desesperados: enviou mais presentes de ouro, mandou mágicos e sacerdotes tentar deter os forasteiros com feitiços, e chegou a enviar um de seus embaixadores, Tzihuacpopoca, disfarçado de imperador. Nada funcionou. O ouro apenas aguçava o apetite dos conquistadores.

Em 8 de novembro de 1519, Moctezuma II desceu pessoalmente ao encontro de Hernán Cortés na entrada de Tenochtitlán. Segundo os relatos, presenteou o conquistador com flores colhidas de seu próprio jardim — a mais alta honra que podia oferecer. Cortés exigiu que fossem suspendidos os sacrifícios humanos; Moctezuma concordou. Os ícones astecas foram removidos dos templos e substituídos por imagens cristãs. O imperador chegou a declarar-se súdito do rei Carlos I da Espanha e a aceitar o batismo. Recebeu Cortés no palácio de Axayácatl com centenas de homens e milhares de aliados indígenas.

Após seis semanas de convivência tensa, uma disputa envolvendo um oficial asteca chamado Quetzalpopoca serviu de pretexto para Cortés capturar o próprio imperador. Moctezuma permaneceu prisioneiro dos espanhóis por vários meses. Em 1520, quando Pánfilo de Narváez chegou ao México enviado por Diego Velázquez para prender Cortés, este partiu para enfrentá-lo, deixando Pedro de Alvarado no comando em Tenochtitlán. Alvarado ordenou o massacre de nobres astecas durante a festa do deus Huitzilopochtli, desencadeando a revolta da população. Quando Cortés retornou, a situação estava irreversível.

A morte de Moctezuma II é cercada de versões contraditórias até hoje. Segundo os espanhóis, foi apedrejado pela própria população quando tentou, a mando de Cortés, pedir calma aos revoltados. Segundo fontes indígenas, foi assassinado pelos próprios espanhóis antes de abandonarem a cidade, na noite que ficou conhecida como a Noche Triste, em 30 de junho de 1520. Dois governantes astecas ainda tentaram resistir após sua morte — Cuitláhuac e depois Cuauhtémoc —, mas o império havia sido irremediavelmente abalado. Tenochtitlán caiu definitivamente em agosto de 1521.

O legado de Moctezuma II é campo de disputas históricas. Versões coloniais o retrataram como fraco, supersticioso e fatalista — um governante que entregou seu povo por crer em profecias. Estudiosos mais recentes oferecem leituras mais complexas: enxergam em suas ações a tentativa de um líder pragmático de ganhar tempo, entender o inimigo e evitar uma guerra para a qual seus guerreiros, por mais valentes que fossem, não estavam preparados diante de armas desconhecidas, cavalos e aliados indígenas numerosos que ansiavam por se libertar do domínio asteca. O próprio sistema de guerra florida, que visava capturar inimigos para o sacrifício em vez de destruí-los, mostrou-se fatal diante de europeus que lutavam para matar. Moctezuma II governou no momento mais difícil que qualquer estadista poderia imaginar: o choque entre dois mundos que nenhum dos dois havia previsto.

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