Martinho da Vila é um dos nomes mais emblemáticos da música popular brasileira, um artista que transcende os limites do samba para se tornar um ícone cultural. Nascido Martinho José Ferreira em 12 de fevereiro de 1938, na pequena Duas Barras, interior do Rio de Janeiro, ele carregou desde cedo a herança de uma infância marcada pela vida rural, filho de lavradores da Fazenda do Cedro Grande. Com apenas quatro anos, mudou-se para a capital fluminense, onde cresceu nos arredores da Serra dos Pretos-Forros. Essa dualidade entre o campo e a cidade sempre esteve presente em sua obra, seja nas letras que homenageiam as tradições ou na melodia que ecoa a alma do povo brasileiro. Anos depois, ao reencontrar as raízes em uma homenagem da prefeitura de Duas Barras, descobriu que a fazenda onde nascera estava à venda. Sem hesitar, adquiriu o imóvel, transformando-o no que chama carinhosamente de "meu off-Rio", um refúgio longe da agitação carioca.
A trajetória profissional de Martinho da Vila começou longe dos palcos. Antes de se dedicar à música, ele trabalhou como auxiliar de químico industrial, formação obtida em um curso intensivo do SENAI. Mais tarde, ingressou no Exército Brasileiro, onde atuou como sargento burocrata, exercendo funções de escrevente e contador. Essas experiências, embora distantes da arte, moldaram sua disciplina e organização, habilidades que seriam fundamentais em sua carreira musical. Em 1970, após dez anos no Exército, Martinho pediu baixa para se lançar como músico profissional. Essa decisão marcou o início de uma jornada que o levaria a se tornar um dos principais nomes do samba brasileiro, rompendo barreiras que muitos artistas da época não conseguiam transpor.
O grande salto de Martinho para a fama ocorreu no cenário competitivo dos festivais de música. Em 1967, participou do III Festival da Record com a canção "Menina Moça", ainda sem grande repercussão. No entanto, foi em 1968, na quarta edição do mesmo festival, que sua carreira decolou com "Casa de Bamba", um samba que se tornaria um clássico atemporal. O sucesso da música abriu portas para seu primeiro álbum, lançado em 1969, que já demonstrava a amplitude de seu talento. Além de "Casa de Bamba", o disco incluía outras obras-primas como "O Pequeno Burguês", "Quem é Do Mar Não Enjoa" e "Prá Que Dinheiro", consolidando Martinho como um compositor de mão cheia e um dos maiores vendedores de discos do Brasil. Seu nome rapidamente se associou a uma nova geração de sambistas que renovaram o gênero, combinando tradição e inovação.
Sua trajetória comercial é tão impressionante quanto sua contribuição artística. Martinho da Vila foi o segundo sambista a ultrapassar a marca de um milhão de cópias vendidas com o álbum "Tá Delícia, Tá Gostoso", lançado em 1995 — atrás apenas de Agepê, que alcançou esse feito em 1984. O reconhecimento do público se estendeu também a outros grandes nomes da música, como Zeca Pagodinho, Simone e Alcione, que gravaram versões de suas canções ou o homenagearam em tributos. Em 2013, sua relevância foi celebrada com o lançamento do segundo volume da série Sambabook, dedicado a ele, após João Nogueira receber a homenagem original no ano anterior. Mais recentemente, seu álbum "Negra Ópera" foi eleito pela Associação Paulista de Críticos de Arte como um dos 50 melhores álbuns nacionais de 2023, atestando sua capacidade de se reinventar sem perder a essência.
A parceria com a filha Mart’nália resultou em um dos momentos mais emocionantes de sua carreira recente: a turnê "Pai e Filha – A última grande turnê de Martinho da Vila", anunciada em março de 2026. Com 30 datas espalhadas pelo Brasil, o espetáculo estreia em 30 de maio no Rio de Janeiro, prometendo ser um encontro histórico entre duas gerações de sambistas. Essa união familiar no palco reflete não apenas a herança musical transmitida, mas também a cumplicidade de um artista que, mesmo aos 88 anos, continua a inspirar. Martinho sempre foi um defensor da cultura popular, e essa turnê é mais uma prova de que sua arte transcende gerações.
Além da música, Martinho da Vila construiu uma vida pessoal rica e multifacetada. Pai de oito filhos — entre eles Mart’nália, Tunico da Vila e Maíra Freitas — e avô de dez netos, ele só se casou oficialmente em 1993, aos 55 anos, com Clediomar Corrêa Liscano, 33 anos mais nova, que conheceu durante a gravação de um videoclipe. Antes disso, teve uma filha, Maíra, com a porta-bandeira Rita Freitas. Essa trajetória familiar, marcada por encontros e desencontros, revela um homem que, apesar da fama, manteve uma vida privada intensa e humana. Seu amor pelo Vasco da Gama também é uma marca registrada: o clube de coração inspirou duas de suas canções, e a paixão pelo time é tão conhecida quanto sua arte. Essa conexão emocional com o esporte reflete o caráter popular e acessível de um artista que nunca se afastou das raízes.
Martinho também se destacou no ativismo político e cultural. Filiado ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB) desde 2005, o sambista sempre usou sua voz para defender causas sociais e a justiça. Em 2009, sua trajetória ganhou as telas com o documentário "O Pequeno Burguês – Filosofia de Vida", que retrata não só sua carreira, mas também os valores que o guiam. Em 2012, ele ainda participou da série "Meu Anjo", interpretando a si mesmo, demonstrando sua versatilidade e disposição para explorar novos formatos de arte. Essas iniciativas reforçam sua imagem como um artista engajado, que entende a cultura como um instrumento de transformação social.
Surpreendendo a todos, Martinho da Vila ingressou na faculdade de Relações Internacionais aos 79 anos, na Universidade Estácio de Sá. Seu objetivo era entender melhor "as relações internacionais em termos históricos, na teoria", aproveitando sua experiência como Embaixador Cultural de Angola e da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Frequentou as aulas presencialmente, cumpriu todas as exigências do curso até o terceiro ano, mas optou por não concluir a graduação, pois o último ano seria voltado para a preparação profissional — algo que, segundo ele, não fazia parte de seus planos. Essa decisão reflete sua curiosidade insaciável e a vontade de aprender continuamente, um traço que poucos artistas de sua geração compartilham.
Os prêmios e condecorações recebidos por Martinho da Vila são um testemunho de sua importância para a cultura brasileira. Entre eles, destacam-se títulos como Cidadão Carioca, Comendador da República, Medalha Tiradentes e a Ordem do Mérito Cultural. Em 1991 e 1993, foi agraciado com o Prêmio Shell de Música Popular Brasileira e cinco Prêmios Sharp na categoria samba. Em 2014, foi indicado ao Grammy Latino, e em 2016 ganhou o prêmio na categoria Melhor Disco de Samba com "De Bem com a Vida". A Universidade Federal do Rio de Janeiro ainda lhe concedeu o título de Doutor Honoris Causa. Além disso, foi nomeado Embaixador Cultural de Angola e da CPLP, reconhecido por sua contribuição à lusofonia. Em 2019, recebeu o Prêmio Lusofonia em Portugal, consolidando seu legado como um dos maiores embaixadores da música brasileira no mundo. Essas honrarias não apenas celebram sua carreira, mas também reafirmam seu papel como um guardião das tradições culturais, especialmente do samba, gênero que ajudou a popularizar e eternizar.