Jorge Mario Bergoglio, mais conhecido como Papa Francisco, foi o 266.º líder da Igreja Católica, ocupando o trono de São Pedro de 2013 até sua morte em 2025. Natural de Buenos Aires, na Argentina, ele se tornou o primeiro papa nascido no Hemisfério Sul, o primeiro jesuíta a assumir o cargo e o primeiro pontífice em mais de mil anos a não ser europeu. Esses marcos históricos refletiam não apenas sua trajetória pessoal, mas também uma Igreja que buscava se aproximar de realidades até então pouco representadas no Vaticano. Sua eleição, anunciada com a tradicional fumaça branca em março de 2013, surpreendeu muitos ao romper com séculos de tradição, sinalizando uma nova era para a instituição.
Filho de imigrantes italianos, Bergoglio cresceu em um bairro humilde de Buenos Aires, filho de um ferroviário e de uma dona de casa. A infância foi marcada pela simplicidade e pelo esporte — torcedor fanático do San Lorenzo, time de futebol local, ele lembrava com carinho dos tempos em que, aos dez anos, vibrava com os gols da equipe. Aos vinte anos, enfrentou um grave problema de saúde, perdendo um pulmão em uma cirurgia, o que, segundo relatos, aproximou ainda mais sua família da fé. Na adolescência, chegou a ter um relacionamento sério, chegando a pedir a mão de sua namorada em casamento. Quando ela recusou, Bergoglio considerou a possibilidade de seguir a vida religiosa, decisão que o levou, aos 21 anos, a ingressar na Companhia de Jesus, a ordem dos jesuítas, conhecida por seu rigor intelectual e compromisso social.
Sua formação como jesuíta foi marcada por uma trajetória acadêmica sólida, embora nem sempre linear. Contrariando boatos que circularam na imprensa, Bergoglio não cursou química na Universidade de Buenos Aires, mas obteve um diploma técnico na área antes de se dedicar à filosofia e à teologia. Estudou em instituições jesuítas, lecionou literatura e psicologia em colégios da ordem e, aos 33 anos, foi ordenado padre. Sua carreira dentro da Companhia de Jesus teve um ponto alto em 1973, quando, aos 36 anos, tornou-se superior provincial na Argentina, cargo de grande responsabilidade em um período político conturbado no país. Mais tarde, retornou à vida acadêmica como reitor de uma faculdade de filosofia e teologia, consolidando uma reputação de líder sábio e próximo aos jovens.
O episcopado de Bergoglio começou em 1992, quando foi nomeado bispo auxiliar de Buenos Aires pelo Papa João Paulo II. Em menos de uma década, ascendeu ao posto de arcebispo da cidade, uma das dioceses mais importantes da América Latina. Seu estilo discreto e seu foco na pastoral entre os mais pobres contrastavam com o perfil de muitos líderes eclesiásticos da época. Em 2001, o Papa polonês o elevou ao cardinalato, um reconhecimento de sua influência crescente na Igreja sul-americana. Como cardeal, Bergoglio manteve uma postura crítica em relação às desigualdades sociais, uma posição que, mais tarde, seria central em seu ministério papal.
A eleição de Bergoglio como papa em março de 2013 ocorreu em um momento de crise para a Igreja Católica, abalada por escândalos de abusos sexuais e pela necessidade de renovação. Escolhido pelos cardeais durante o conclave, ele surpreendeu ao optar por não residir nos aposentos papais do Palácio Apostólico, preferindo uma modesta casa de hóspedes no Vaticano. Essa decisão simbolizava sua intenção de aproximar a Igreja das pessoas comuns, afastando-se do luxo e da burocracia que, para muitos, haviam distanciado a instituição de seus fiéis. Seu nome de pontífice, Francisco, em homenagem ao santo de Assis, reforçava essa mensagem de humildade, paz e cuidado com a criação.
Ao longo de seu pontificado, o Papa Francisco se destacou por uma doutrina social progressista, mas sem abrir mão dos dogmas católicos. Defendeu mudanças climáticas como uma questão moral, lançando a encíclica *Laudato si’*, que ecoou além das fronteiras da Igreja ao abordar a crise ambiental com urgência. Em temas sociais, condenou o capitalismo predatório e o consumismo, enquanto mantinha posições tradicionais sobre o aborto, o casamento e o celibato clerical. Sua diplomacia foi marcada por gestos históricos, como a mediação que restaurou as relações entre Estados Unidos e Cuba após mais de meio século de hostilidades, e seu apoio aos refugiados, especialmente durante as crises migratórias na Europa e na América Central.
Um aspecto marcante de seu papado foi a luta contra os abusos sexuais dentro da Igreja. Francisco implementou normas estritas, obrigando as dioceses a reportar casos e responsabilizando líderes que os encobrissem. Essa postura, embora ainda criticada por alguns por ser considerada lenta em alguns casos, representou um avanço significativo em relação ao passado. Além disso, o papa se posicionou contra o neonacionalismo crescente no mundo, alertando para os perigos do populismo e do isolacionismo, e reafirmou a importância do diálogo inter-religioso, especialmente com o judaísmo e o islamismo.
O legado de Bergoglio é, acima de tudo, o de um papa que procurou humanizar a Igreja. Sua vida, desde a infância em um bairro operário até o trono de Pedro, mostrava que a fé não estava dissociada das realidades terrenas. Ele falava várias línguas com fluência, embora admitisse dificuldades com o inglês, e seu estilo direto, por vezes coloquial, aproximava os fiéis de Roma. Mesmo após sua morte, em abril de 2025, o impacto de seu pontificado permaneceu, especialmente entre os jovens e os marginalizados, que viram nele uma voz de esperança. Francisco deixou para trás não apenas uma Igreja mais transparente, mas também um exemplo de como a liderança espiritual pode ser exercida com compaixão e firmeza.