A história de Egan Bernal é uma das mais inspiradoras do ciclismo contemporâneo: um jovem de Zipaquirá, cidade colombiana conhecida pela sua catedral de sal, que partiu dos trilhos de bicicleta de montanha nos Andes para conquistar o mais prestigioso troféu do ciclismo de estrada mundial. Nascido em Bogotá em 13 de janeiro de 1997, Bernal cresceu numa família onde o ciclismo era herança paterna, e sua trajetória até o topo foi marcada por uma progressão acelerada que raramente se vê no esporte.
Seu pai, Alemán, havia sido ciclista de estrada na juventude, e foi ele quem colocou o pequeno Egan numa bicicleta pela primeira vez aos cinco anos. Aos oito, o menino disputou sua primeira corrida, venceu, e o prêmio foi uma bolsa de formação numa escola de ciclismo onde permaneceu por mais de um ano. Mais tarde, passou à tutela do ex-ciclista Fabio Rodríguez e da Fundação Mezuena, que moldaram suas primeiras etapas no esporte competitivo.
Nos anos entre 2011 e 2015, Bernal dedicou-se ao ciclismo de montanha, modalidade em que alcançou resultados que chamaram a atenção internacional. Em 2013, venceu o Campeonato Panamericano na categoria cadete de mountain bike em Tucumán, Argentina, e acumulou títulos na América Latina. Em 2014, surpreendeu o mundo ao conquistar a medalha de prata no Campeonato Mundial de Ciclismo de Montanha em categoria júnior em Hafjell, Noruega, ficando apenas atrás do dinamarquês Simon Andreassen numa competição em que poucos esperavam muito do jovem colombiano. Uma medalha de bronze no Campeonato Panamericano no mesmo ano completou uma temporada de revelação.
Em 2015, Bernal confirmou que 2014 não havia sido acidente. Venceu o Campeonato Pan-americano júnior em Cota, na Colômbia, superando uma fratura de clavícula que exigiu cirurgia apenas duas semanas antes da competição — um episódio que já revelava sua determinação fora do comum. Naquele ano, também ganhou as World Junior Series e obteve o bronze no Mundial de Ciclismo de Montanha em Vallnord, Andorra, chegando desta vez como o primeiro colocado no ranking mundial da categoria.
A transição para o ciclismo de estrada em 2016 foi resultado de uma visita à Europa no final da temporada anterior. Bernal foi apresentado a Gianni Savio, proprietário da equipe italiana Androni Giocattoli-Sidermec, e demonstrou seu talento numa prova de categoria júnior. Savio o contratou imediatamente por quatro temporadas, antes mesmo que o jovem completasse 19 anos e sem que ele tivesse qualquer experiência profissional em estrada. A decisão foi validada pelos exames fisiológicos que revelaram valores excepcionais de consumo máximo de oxigênio, o VO2Max, confirmando o potencial que a vista clínica de Savio havia identificado.
A adaptação à estrada não foi instantânea. Bernal confessou que na primeira corrida de 2016, numa etapa fria e chuvosa da A Méditerranéenne na França, pensou seriamente em abandonar. Mas os resultados chegaram rapidamente. Ao longo de 2016, venceu a classificação dos jovens em quatro corridas por etapas, incluindo o prestigioso Giro do Trentino, e conquistou a geral do Tour de Bihor na Romênia. Em 2017, uma série de atuações memoráveis na Tirreno-Adriático, na Settimana Coppi e Bartali e no Tour dos Alpes chamaram a atenção das melhores equipes do pelotão. Ganhou de forma categórica o Tour de Sabóia e o Tour de Sibiu, e foi ainda mais dominante no Tour do Porvenir, vencendo com ampla vantagem sobre seus rivais. A Team Sky, uma das formações mais poderosas do ciclismo mundial, moveu-se rapidamente para contratá-lo a partir de 2018.
Nas temporadas seguintes com a Sky, depois renomeada Ineos, Bernal foi ganhando espaço e experiência ao lado de campeões como Chris Froome e Geraint Thomas. Em 2019, chegou o momento que definiria sua carreira: o Tour de France. Com apenas 22 anos, Bernal tornou-se o primeiro latino-americano a conquistar a Volta da França, vencendo a corrida mais cobiçada do ciclismo mundial e entrando para a história do esporte. A vitória não foi apenas pessoal: foi um símbolo de que o ciclismo sul-americano havia chegado ao mais alto nível da modalidade. Do município de Zipaquirá, com suas montanhas e seus trilhos de bicicleta, saiu um campeão que faria o mundo inteiro pronunciar o nome de sua cidade.

