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Guerra Civil de El Salvador

A Guerra Civil de El Salvador foi uma guerra civil em El Salvador, entre 1979 e 1992, que

4 min de leitura01/01/2024
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El Salvador, o menor país da América Central, foi palco de um dos conflitos armados mais intensos e prolongados do hemisfério ocidental no século XX. A Guerra Civil de El Salvador durou mais de doze anos, de 1979 a 1992, deixando em seu rastro entre sessenta e oitenta mil mortos, cerca de trinta mil assassinados extrajudicialmente, nove mil desaparecidos, um milhão de desabrigados e outro milhão de exilados. Metade da população sofreu desnutrição durante o conflito, e cerca de duas mil pessoas morreram de inanição. Os números são de uma amplitude que torna difícil a compreensão plena do sofrimento que representam.

Os antecedentes do conflito remontavam a décadas de desigualdade estrutural, concentração de terra nas mãos de uma oligarquia cafeeira conhecida como as "catorze famílias", e a exclusão sistemática da maioria rural e urbana da vida política e econômica. O país havia experimentado uma sequência de governos militares que sufocavam qualquer oposição organizada, enquanto a polarização social se aprofundava. Na segunda metade da década de 1970, diferentes organizações guerrilheiras de esquerda foram surgindo como resposta a essa realidade, inspiradas em parte pelo triunfo sandinista na Nicarágua em 1979 e em parte pelas próprias condições de miséria e repressão da sociedade salvadorenha.

O marco formal do início da guerra civil é frequentemente localizado no golpe de Estado de 15 de outubro de 1979, que levou ao poder a Junta Revolucionaria de Gobierno. O novo regime prometia reformas, mas rapidamente revelou-se incapaz de controlar as forças mais conservadoras do exército e dos grupos paramilitares de direita, que passaram a executar oponentes políticos com impunidade crescente. Os assassinatos de manifestantes pelo próprio governo nos meses seguintes ao golpe consolidaram a percepção de que a via pacífica para a mudança estava fechada.

O assassinato do arcebispo de San Salvador, Óscar Romero, em 24 de março de 1980, durante a celebração de uma missa, tornou-se o símbolo mais poderoso das atrocidades do período. Romero havia se transformado em uma voz crítica incansável das violações de direitos humanos cometidas pelas forças de segurança e pelos esquadrões da morte, denunciando publicamente os assassinatos de camponeses, sindicalistas e militantes de organizações sociais. Sua morte, seguida pelo massacre de quarenta e duas pessoas em seu funeral, precipitou a escalada para uma guerra civil em larga escala. Ao contrário do que esperavam seus assassinos, Romero tornou-se em morte ainda mais influente do que fora em vida.

Em 1980, as principais organizações guerrilheiras de esquerda uniram-se para formar a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, a FMLN, batizada em homenagem a Agustín Farabundo Martí, líder comunista executado após a revolta camponesa de 1932. A coalizão reunia cinco organizações com diferentes origens ideológicas e táticas, mas com o objetivo comum de derrubar o governo e construir uma alternativa socialista. Nos primeiros anos da guerra, a FMLN chegou a controlar grandes extensões dos departamentos de Morazán e Chalatenango, no norte e no leste do país, estabelecendo em algumas regiões um poder paralelo ao Estado.

O governo salvadorenho recebeu suporte financeiro, militar e de inteligência substancial dos Estados Unidos, que via o conflito através da lente da Guerra Fria e temia que uma vitória da FMLN criasse um segundo Cuba na América Central. Bilhões de dólares em ajuda americana fluíram para San Salvador ao longo dos anos 1980, financiando o exército, as forças de segurança e, indiretamente, os grupos paramilitares de direita. A FMLN, por sua vez, recebia apoio de Cuba e tinha o beneplácito da União Soviética, embora o suporte concreto soviético ao conflito salvadorenho fosse mais limitado do que o propaganda anticomunista americana sugeria.

As táticas empregadas pelas forças governamentais foram responsáveis pela esmagadora maioria das atrocidades do conflito. As Nações Unidas estimaram que 85% das violações de direitos humanos durante a guerra foram cometidas pelas forças de segurança salvadorenhas, enquanto a FMLN era responsável por aproximadamente 5% das atrocidades. Massacres como o de El Mozote, em dezembro de 1981, onde soldados do exército assassinaram centenas de civis em uma aldeia do departamento de Morazán, tornaram-se emblemas da brutalidade da contra insurgência governamental. A escala e a sistemática natureza dessas violações levariam, décadas mais tarde, a esforços de justiça transicional e à beatificação de Óscar Romero pelo Vaticano.

A guerra se prolongou mesmo diante da evidente insolubilidade militar do conflito. Nem o governo nem a FMLN conseguia uma vitória decisiva. A guerrilha demonstrava enorme capacidade de resistência e adaptação, realizando ataques espetaculares como o que incapacitou temporariamente grande parte da Força Aérea em 1989 e uma grande ofensiva sobre a capital no mesmo ano. O governo, por sua vez, com o apoio americano, mantinha controle suficiente sobre o território para impedir a tomada do poder pela FMLN.

O colapso da União Soviética no início dos anos 1990 alterou fundamentalmente o cálculo estratégico de ambos os lados. A FMLN perdeu o enquadramento ideológico que havia sustentado parte de sua legitimidade internacional, e os Estados Unidos reduziram o interesse em financiar indefinidamente um conflito que não havia produzido uma vitória definida. Negociações que haviam avançado e recuado ao longo dos anos anteriores finalmente chegaram a um acordo. Em 16 de janeiro de 1992, na Cidade do México, foram assinados os Acordos de Paz de Chapultepec, encerrando formalmente doze anos de guerra e permitindo que a FMLN se transformasse em partido político e participasse das eleições como qualquer outra força.

O impacto cultural e artístico do conflito transcendeu as fronteiras de El Salvador. Em 1986, o cineasta estadunidense Oliver Stone lançou o filme "Salvador", no qual expôs sua leitura crítica do conflito, denunciando o apoio americano a grupos paramilitares e celebrando a figura de Óscar Romero. O filme, embora mal recebido nas bilheterias americanas, foi indicado ao Oscar em duas categorias e tornou-se um clássico do gênero thriller político. Em 2004, o diretor Luis Mandoki lançou "Voces Inocentes", baseado na história real de Oscar Torres, que aos doze anos foi alvo de recrutamento forçado pelo exército, retratando o horror do recrutamento infantil em meio ao conflito.

O legado da guerra civil salvadorenha é de transformação dolorosa. O conflito forçou reformas institucionais, reduziu o poder autônomo das forças armadas e abriu o sistema político para a competição democrática real. A FMLN tornaria-se, nas décadas seguintes, uma das principais forças políticas do país, chegando à presidência em 2009 com Mauricio Funes. Mas o trauma acumulado por uma sociedade que perdeu dezenas de milhares de pessoas, deslocou um milhão e viu a violência normalizada em suas instituições continuou a assombrar El Salvador muito depois que os últimos acordos foram assinados.

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