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Jogo do bicho

Bolsa de apostas

5 min de leitura02/08/2026
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O jogo do bicho é uma das formas de loteria ilegal mais emblemáticas do Brasil, um fenômeno cultural que transcende as fronteiras do entretenimento para se tornar um dos pilares do submundo econômico do país. Surgido no Rio de Janeiro no final do século XIX, o jogo se baseia em uma associação entre números e 25 animais, cada um vinculado a quatro dezenas. A aposta pode ser feita em um único bicho, em uma combinação de números ou em grupos específicos, e os resultados são divulgados diariamente. Embora não seja regulamentado, sua estrutura é tão disseminada que muitos apostadores confiam na integridade do sistema, sustentado por jargões como "vale o escrito" e "ganhou, leva", que garantem a credibilidade dos resultados mesmo sem fiscalização oficial.

A origem do jogo está ligada ao Jardim Zoológico de Vila Isabel, fundado pelo empresário João Batista Viana Drummond em 1888. Em 1890, ele obteve permissão para explorar jogos lícitos no zoológico, criando um sistema de bilhetes sorteados com imagens de animais. O primeiro sorteio ocorreu em 3 de julho de 1892, com o avestruz como vencedor. O sucesso foi imediato, atraindo desde a elite até as classes populares, que viam no jogo uma forma de diversão e, ocasionalmente, de ascensão financeira. No entanto, o crescimento acelerado e a falta de controle levaram as autoridades a enxergar o jogo como um problema social, culminando na sua proibição em 1895, após pressão popular e aumento das apostas clandestinas.

Apesar da repressão inicial, o jogo do bicho não desapareceu; ao contrário, adaptou-se. Proibido no Rio de Janeiro em 1895 e criminalizado em todo o território nacional pelo decreto-lei de 1946, o jogo se reorganizou como uma atividade ilegal, estruturada em redes informais lideradas por "banqueiros do bicho". Esses personagens, muitas vezes com ligações a setores poderosos, transformaram a loteria em um negócio milionário, empregando uma vasta rede de vendedores e cobradores. A popularidade do jogo se manteve graças à sua acessibilidade e à sensação de confiabilidade transmitida por seus operadores, que garantiam resultados transparentes dentro de seus próprios padrões.

A relação entre o jogo do bicho e o poder público sempre foi marcada por uma dança complexa entre tolerância, repressão seletiva e corrupção. Ao longo do século XX, a atividade se consolidou como um empreendimento capitalista, com cartelização de apostas, unificação de critérios de sorteio e até mesmo investimentos em lavagem de dinheiro. Durante a ditadura militar, o jogo não só sobreviveu como prosperou, estabelecendo uma colaboração tácita com o regime. Na redemocratização, embora investigações e operações policiais tenham tentado enfraquecer suas redes, a estrutura permaneceu intacta, graças a uma teia de corrupção que envolvia políticos, juízes, policiais e empresários.

O jogo do bicho também se tornou uma ferramenta de influência social, com banqueiros financiando escolas de samba, clubes de futebol e até mesmo campanhas políticas. Essa estratégia não apenas garantia proteção contra repressões, mas também construía uma imagem de benfeitoria, misturando o crime organizado com a cultura popular. Em estados como o Rio de Janeiro, o jogo chegou a movimentar mais recursos do que as loterias oficiais, como a Loterj, em 2014, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas. No entanto, sua hegemonia começou a ser ameaçada pelo avanço de outros mercados ilícitos, como o tráfico de drogas e, mais recentemente, pelas casas de apostas online.

Embora o jogo do bicho tenha se espalhado por quase todo o Brasil, sua presença é mais forte no Rio de Janeiro, onde já foi o maior mercado ilegal do estado, superando até mesmo o tráfico de drogas. A atividade movimentava bilhões de reais anualmente na década de 2010, segundo estimativas do Instituto Jogo Legal, mas seu faturamento vem caindo drasticamente. Em 2005, o jogo chegava a render 1 milhão de reais semanalmente no Rio, mas em 2025 a cifra despencou para cerca de 100 mil reais por semana, reflexo da concorrência com jogos legais e do avanço tecnológico. Ainda assim, disputas pelo controle do mercado persistem, envolvendo bicheiros tradicionais, traficantes e milicianos, que veem na loteria ilegal uma fonte de poder e lucro.

A Paraíba é o único estado brasileiro onde o jogo do bicho é regulamentado desde 1967, um caso isolado que demonstra como a atividade pode ser absorvida pelo sistema legal em contextos específicos. No entanto, mesmo nesse cenário, a regulamentação não eliminou as polêmicas, pois o jogo continua a gerar debates sobre legalização, controle estatal e os impactos sociais do vício. Em outros lugares, a repressão varia entre tolerância e combate, dependendo das forças políticas e policiais locais, o que perpetua a ambiguidade em torno do jogo.

Curiosamente, o jogo do bicho também se tornou um fenômeno cultural, inspirando canções, gírias e até mesmo expressões artísticas. Músicas como "O Bicho" de Moreira da Silva e "Bicho do Pará" de Mestre Marçal retratam sua presença na vida cotidiana, enquanto expressões como "correr o bicho" ou "bater um bicho" fazem parte do vocabulário popular. Essa integração cultural ajuda a explicar por que, mesmo com todas as proibições, o jogo resistiu ao tempo, mantendo-se como uma das formas mais populares de jogo no Brasil.

Apesar de seu declínio recente, o jogo do bicho permanece como um símbolo das contradições brasileiras, onde o ilegal convive com o legal, a corrupção se mistura à cultura e o capitalismo marginal se entrelaça ao poder institucional. Sua história é um reflexo das dificuldades do Estado em combater atividades que, embora proibidas, são profundamente enraizadas na sociedade. Enquanto houver demanda por jogos de azar e lacunas na fiscalização, o jogo do bicho continuará a ser, ao mesmo tempo, um negócio milionário e um espelho das fragilidades do sistema.

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